Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Real interesse brasileiro é a ferrovia da soja

Apesar do anúncio da ligação entre o Atlântico e o Pacífico, Brasil quer obra no Centro-Oeste

André Borges, O Estado de S. Paulo

19 Maio 2015 | 21h52

BRASÍLIA - O discurso transcontinental em torno do projeto de construir uma ferrovia binacional cortando Brasil e Peru é o exemplo mais claro da distância que ainda separa os protocolos de intenção assinados nesta terça-feira, 19, com os chineses e aquilo que, efetivamente, tem chances reais de vingar, ainda que no longo prazo.

Protocolos à parte, o interesse central do governo brasileiro neste projeto é muito inferior aos 4,7 mil km de ferrovia que seriam necessários para ligar os oceanos Atlântico e Pacífico. Mais especificamente, o que se procura é viabilizar os 883 km do traçado que liga as cidades de Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso, até Campinorte, em Goiás. Este ramal abriria as portas da “quase pronta” Ferrovia Norte-Sul para o agronegócio. Seria uma revolução no escoamento da principal região produtora de grãos e carne do País.

Fico. Bem antes de ter cargas e pessoas viajando pela Ferrovia Transcontinental, portanto, o que de fato se busca é a construção da Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (Fico), empreendimento brasileiro que já foi alvo de uma série de estudos e já passou pela avaliação do Tribunal de Contas da União (TCU). 

No máximo, as ambições reais do governo avançam mais uns 600 km para chegar até Vilhena (RO), onde seria possível acessar a hidrovia do Rio Madeira. Fora isso, tudo o mais é incerto, e os asiáticos sabem disso.

Nos próximos dias, o premiê chinês Li Keqiang e sua comitiva passarão pelo Peru, Colômbia e Chile. Em solo peruano, disse Li, será assinado um “acordo para elaboração de estudo básico sobre a viabilidade de construção da ferrovia”, ou seja, ainda não há definição sobre qual será o traçado da via, seus custos e impacto socioambiental.

Hidrelétrica. Os chineses já conhecem os riscos de anunciarem projetos que não se confirmaram. Em julho do ano passado, durante a visita do presidente da China, Xi Jinping, o governo anunciou um “acordo de cooperação estratégica” entre a estatal Furnas e a gigante chinesa China Three Gorges, para erguer a hidrelétrica de São Luiz do Tapajós, no Pará, projeto estimado em mais de R$ 30 bilhões. O projeto, porém, passou longe dos discursos oficiais desta terça-feira, 19. Até hoje a usina não teve a sua viabilidade ambiental comprovada. 

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