Real mais fraco e greve impactam contas cambiais

O resultado final das contas correntes do mês ainda é razoável e os fatores de solidez cambial predominam, mas as incertezas sobre o futuro ganham corpo

O Estado de S.Paulo

01 Julho 2018 | 06h20

O balanço de pagamentos de maio foi influenciado pela desvalorização do real ante o dólar, pelo aumento das incertezas dos investidores globais e pelos efeitos negativos imediatos da greve dos transportes. O resultado final das contas correntes do mês (superávit de US$ 729 milhões) ainda é razoável e os fatores de solidez cambial predominam, mas as incertezas sobre o futuro ganham corpo.

A paralisação do transporte rodoviário reduziu em cerca de US$ 2 bilhões o superávit comercial, a ponto de as exportações de maio terem sido inferiores às de maio de 2017, “primeira contração na comparação interanual desde dezembro de 2016”, segundo o boletim Estatísticas do Setor Externo do Banco Central (BC).

Isso provocou o aumento do déficit na conta corrente do balanço de pagamentos acumulado em 12 meses de 0,55% do Produto Interno Bruto (PIB) em abril para 0,65% do PIB em maio. São números ainda modestos e não provocam temores sobre o financiamento do déficit, que vem principalmente dos Investimentos Diretos no País (IDP). Mas o IDP também caiu, limitando-se a US$ 3 bilhões em maio e a US$ 61,8 bilhões ou 3,07% do PIB em 12 meses, após ter se aproximado dos US$ 80 bilhões em alguns meses de 2017.

Os investidores externos estão mais ariscos em relação ao País. Retiraram em maio US$ 6,4 bilhões de aplicações em ações, fundos de investimento e títulos de renda fixa. E, dado o peso desses investidores, as ações registraram forte queda no mês passado, que persistiu em junho. Medido em reais, o saque líquido atingiu R$ 10,3 bilhões no mercado de ações.

A desvalorização do real provocou mudanças na Posição de Investimento Internacional (PII). Como explicou o BC, “a denominação de passivos externos em moeda doméstica implica transferência de risco cambial ao investidor não residente”. É uma questão contábil que cabe não ignorar.

Com reservas de US$ 382 bilhões e recuperação das exportações, como já se notava no início de junho, o estado das contas cambiais não inspira maiores cuidados. Mas parece inegável que as condições do financiamento externo só tendem a piorar devido ao aumento dos juros básicos do Fed e do protecionismo norte-americano. Isso pode afetar o comércio internacional, que tem propiciado superávits expressivos para o Brasil.

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