'Real será sucesso total só com juro igual ao do exterior'

Ex-presidente do BC critica intervenção do governo, mesmo com medidas voltadas para o incentivo ao crescimento

Entrevista com

LETÍCIA BRAGAGLIA, ESTADAO.COM.BR, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2012 | 03h06

A poucos dias de completar 18 anos, o Plano Real ainda não é considerado um sucesso total por um de seus idealizadores, o economista e sócio do BTG Pactual Persio Arida - que ocupou a presidência do Banco Central em 1995. Segundo ele, o projeto só estará concluído "quando as taxas de juros brasileiras forem iguais às internacionais".

Ele acredita que cuidar da estabilidade é fundamental, mas critica a forte intervenção do governo na economia, mesmo quando as medidas estão voltadas para o crescimento.

Esse ponto, afirma, é um dos motivos do menor interesse dos estrangeiros pelo País.

O ex-presidente do BC recebeu a reportagem do portal Economia & Negócios, antes de embarcar para Londres em uma viagem de negócios.

Qual é a lembrança mais marcante que o senhor tem do período de lançamento do Plano Real?

Havia um enorme apoio social ao programa. Alguns políticos ficaram na oposição, o PT mais notoriamente, mas a população endossou. Para se ter uma ideia, eu e o André Lara Resende prevíamos um prazo de dois anos para que a população convertesse contratos antigos na moeda nova. Isso aconteceu em apenas três meses. Sem o apoio da população e de boa parte do Congresso, a implementação não seria possível.

Esse apoio existia entre economistas e instituições financeiras?

Não. Pelo contrário. Havia um contraste entre o endosso da população, que estava sedenta por estabilidade, e o enorme ceticismo por parte dos colegas de profissão. Isso começou no FMI (Fundo Monetário Internacional), que se recusou a endossar o Plano, com o argumento de que não havia base e nem clareza suficiente de que aquilo tinha sustentação. Economistas diziam que era como "patinar em gelo fino". Também disseram que o País iria direto para a hiperinflação na nova moeda.

E por que essa reação?

Era um plano inovador, algo que nunca tinha sido feito em lugar nenhum do mundo. E ele era inovador porque o Brasil tinha uma característica peculiar, que era a indexação generalizada de contratos por força de lei. O que André e eu fizemos foi pensar o problema da estabilidade brasileira, levando em conta não só os aspectos universais de qualquer inflação, como desajuste fiscal e uma política acomodatícia do BC, mas também as características específicas da inflação brasileira. Como essas características só existiam aqui, era necessário uma equipe de economistas brasileiros, porque a literatura internacional não lidava com isso.

O Plano Real foi um sucesso?

O sucesso de uma estabilização monetária só se confirma com o tempo. A passagem de 18 anos desde a criação do real mostrou que o Plano pode ser considerado bem-sucedido, já que conseguimos domar o dragão da hiperinflação, que era um grande problema, e ainda construímos confiança na moeda. Mas agora o desafio é outro.

O que precisa ser feito agora?

O real só será um sucesso quando esse processo for concluído, ou seja, quando as taxas de juros brasileiras forem iguais às internacionais, quando o crédito estiver nas mesmas dimensões de outros países emergentes, e quando a gente tiver crédito muito longo em quantidades expressivas. A boa notícia é que o processo para chegarmos a essa situação ainda vai ajudar o País a crescer. Outro vento que sopra a favor do Brasil é a questão da demografia. Somos um país jovem e isso também ajuda a evoluir. Apesar disso, o crescimento do País está longe de ser brilhante, e deve ficar em torno de 2% em 2012.

Por que a economia não cresce mais do que isso?

Os problemas são a excessiva carga tributária, o peso do crédito direcionado e subsidiado e a excessiva intervenção estatal. É isso que tira o dinamismo da economia brasileira. A boa notícia é que isso é algo de governo, e portanto, em tese, está em nossas mãos para ser resolvido.

O governo está na direção certa para resolver essas questões?

Obviamente existe boa vontade dos governantes. Mas isso tem que ser analisado objetivamente. Ou seja, se olharmos algumas estatísticas da intervenção do Estado, vemos uma tendência preocupante. Além disso, a carga fiscal cresceu. No começo do real, era abaixo de 25% do PIB, hoje está em 37%.

Como o senhor vê o interesse dos investidores estrangeiros no Brasil neste momento?

A euforia dos últimos tempos com o Brasil derivava de três aspectos. O Brasil era um país que crescia rapidamente, tinha taxas de juros muito atrativas e era percebido como um país muito amigável aos investidores. Todos esses fatores perderam o brilho recentemente. Hoje, o País perdeu vigor no crescimento, a taxa de juros caiu muito e houve uma série de iniciativas do governo percebidas como populistas, contra o capital estrangeiro. Me refiro à mudança abrupta do IPI para os carros importados, a incidência de IOF sobre a entrada de capitais no País e as restrições a compra de terras por estrangeiros.

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