Real tem valorização de 40% acima da média em dez anos, aponta estudo

Real tem valorização de 40% acima da média em dez anos, aponta estudo

Matemático José Dutra Vieira Sobrinho comparou a evolução cambial de vários países desde 2004 e constatou que real é a segunda moeda mais valorizada, perdendo apenas para o peso colombiano

O Estado de S. Paulo

15 de outubro de 2014 | 10h52


SÃO PAULO - O real é segunda moeda mais valorizada nos últimos dez anos em uma comparação com as moedas de outros países da América do Sul, México e integrantes do grupo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Apenas o peso colombiano teve valorização superior à do real no período.

A constatação é de um estudo elaborado pelo economista e professor de matemática financeira José Dutra Vieira Sobrinho. 

Ele comparou a cotação do dólar no primeiro dia útil do mês de janeiro dos anos de 2004 até 2014, e no dia 1 de julho de 2014. A comparação leva em conta as taxas de inflação dos respectivos países correspondentes aos anos de 2004 até 2013, e até julho de 2014

Segundo o estudo, a moeda da África do Sul foi a que mais se desvalorizou em relação ao dólar no período. 


O  Peso argentino, embora tenha apresentado desvalorização significativa, ficou sob suspeita em razão da falta de dados confiáveis sobre a inflação na Argentina, pois o país deixou de informar a inflação oficial em 2007 e vários especialistas afirmam que as taxas reais são maiores que aquelas que vem sendo divulgadas pelo governo de Cristina Kirchner.

As tabelas e os gráficos do estudo mostram que o México foi o país que apresentou maior equilíbrio em relação ao dólar, seguido pelo Chile.

A média dos índices dos países pesquisados, excluído o Brasil, é de 84,72%; Com a cotação atual de R$ 2,43, o índice do real sobe para 60,57%.  Ou seja, a cotação do real precisaria subir cerca de 40% para ficar na média dos principais países do mundo. Isso significa uma cotação de R$ 3,40.

"Seria absurdo corrigir essa defasagem de uma vez, mas os números mostram o resultado de uma política cambial acomodada na época em que a balança comercial era favorável graças aos bons preços do minério de ferro e expansão das compras da China", diz o matemático. "O governo abusou da política de utilização do câmbio para segurar a inflação, e agora estamos nessa armadilha: a indústria não consegue exportar e a desvalorização ameaça pressionar ainda mais a inflação".

Segundo Dutra Sobrinho, o resultado da comparação não é diferente se forem incluidas outras moedas importantes como o euro e o iene, já que elas acompanham a variação do dólar.



Metodologia. Como as cotações das moedas apresentam valores com 1 a 4 dígitos, a comparação do comportamento entre elas no período de janeiro de 2004 até julho de 2014 só foi possível representando-se essas cotações em forma de índices, fazendo-se janeiro/2004 = 100.

Foram calculadas as cotações reais das moedas dos diversos países deflacionando-se cada uma delas pelos índices de inflação acumulados até as respectivas datas.

Para efeito de comparação mais realística, os índices de variação das cotações das moedas dos vários países da amostra foram obtidos com base na cotação real do dólar americano, ou seja, cotação deflacionada mensalmente pela inflação acumulada nos Estados Unidos no período de 2004 a julho de 2014. 

Confira abaixo a íntegra das conclusões do professor Dutra Sobrinho:

Análise dos dados contidos nas tabelas e nos gráficos

A tabelas anexas e os gráficos  mostram os índices de cotação real das diversas moedas componentes da amostra. As duas primeiras tabelas mostram os índices para os países dos dois blocos no período de janeiro de 2004 a julho de 2014. E para uma análise mais aprimorada do comportamento da nossa moeda em relação às demais, o período analisado foi dividido em dois: o que vai de janeiro de 2004 até janeiro de 2009, e outro, de janeiro de 2009 até julho deste ano; essa divisão é muito importante para efeito de análise das consequências econômicas ocorridas nos últimos 10 anos e meio. Inicialmente vamos explicar e comentar os dados referentes ao período integral.

Período de janeiro de 2004 até julho de 2014

Com base nos dados apresentados podemos comprovar que entre todos os países componentes da amostra, a moeda brasileira, o Real, foi a segunda mais valorizada no período de janeiro de 2004 até julho de 2014, sendo superada apenas pela moeda da Colômbia. Em contrapartida, a moeda da África do Sul foi a que mais se desvalorizou em relação ao dólar.  O  Peso argentino apresentou desvalorização significativa nos últimos anos, mas os seus dados  não são confiáveis visto que as taxas oficiais de inflação da Argentina deixaram de ser informadas desde 2007; vários estudiosos afirmam que foram bem maiores que aquelas que vem sendo divulgadas e que utilizamos neste trabalho. Os dados e os gráficos mostram que o México foi o país que apresentou maior equilíbrio em relação ao dólar, seguido pelo Chile.

A média dos índices de cotação real do dólar correspondentes as moedas dos diversos países componentes da amostra,  exclusive a do Brasil, foi de 84,32. Como o índice de cotação da nossa moeda ficou em 61,07, seria necessário que a cotação atual do dólar se levasse em 38% para que a moeda brasileira atingisse a média, ou seja,  que a cotação atual, em torno de R$ 2,45, se elevasse para R$ 3,38. Como este número seguramente seria considerado absurdo por qualquer analista de bom senso, vamos relativizá-lo nas análises seguintes.

Período de janeiro de 2004 até janeiro de 2009

A partir dos dados contidos nas tabelas anexas, calculamos a média dos índices de cotação dos países componentes dos dois blocos, excluindo o índice referente ao Real; a média dos índices de cotação real da amostra nesse período é de 91,76. 

Esse dado indica que o índice de cotação real da nossa moeda, que era de 70,88 no primeiro dia útil de janeiro de 2009, deveria ser 29,5% maior para empatar com a média da amostra, ou seja, a cotação do dólar que nesse dia era de R$ 2,33 deveria ser de R$ 3,02. 

Essa constatação é de fundamental importância para se evidenciar o grau de defasagem entre a cotação da nossa moeda em relação às cotações das moedas dos demais países ao dólar. A valorização excessiva da nossa moeda nesse período, e mantida até nossos dias, é uma das grandes responsáveis pela sinuca em que nos encontramos em relação ao câmbio.

Período de janeiro de 2009 a julho de 2014

Neste período o processo de valorização da nossa moeda, embora mais modesto, continuou. E para medir o grau de valorização nesse período, consideramos o primeiro dia útil de janeiro de 2009 como sendo a nova data base. E a partir daí foram calculados os índices de cotação real das moedas de cada um dos componentes da amostra, como nos mostra a tabela anexa. A média dos índices da amostra é de 91,92 enquanto que o índice moeda brasileira ficou em 86,16. Esses números indicam que a cotação atual do dólar deveria subir 6,7% para atingir a média da amostra, ou seja, a cotação atual, em torno de R$ 2,45 deveria se levar para R$ 2,61. 

Considerações pertinentes a valorização da nossa moeda

1 - No primeiro dia útil de janeiro de 2004 a cotação do dólar comercial de venda era de R$ 2,89 e a atual em torno de R$ 2,45. A inflação brasileira acumulada de  janeiro de 2004 até  setembro deste ano, medida pelo IPCA do IBGE, é de 79,02%. Caso uma empresa exportasse um produto pelo valor equivalente a US$ 100, teria recebido R$ 289,00 em 2004 e 245,00 hoje. Mas, se tivesse vendido no mercado interno esse mesmo produto por R$ 289,00 em janeiro de 2004 e o vendesse hoje pelo mesmo valor corrigido pela inflação medida pelo IPCA, o seu preço de venda seria de R$ 517,37, ou seja, 111,2% superior ao obtido pelo exportador.

2 - No primeiro dia útil de janeiro de 2009 a cotação do dólar comercial de venda era de R$ 2,33 e a atual em torno de R$ 2,45. A inflação brasileira acumulada de  janeiro de 2009 até  setembro deste ano, medida pelo IPCA do IBGE, é de 37,97%. Caso uma empresa exportasse um produto pelo valor equivalente a US$ 100, teria recebido R$ 233,00 em 2009 e 245,00 hoje. Mas, se tivesse vendido no mercado interno esse mesmo produto por R$ 233,00 em janeiro de 2009 e o vendesse hoje pelo mesmo valor corrigido pela inflação medida pelo IPCA, o seu preço de venda seria de R$ 321,47, ou seja, 31,2% superior ao obtido pelo exportador.


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