Real valorizado e demanda fraca derrubam ganho dos exportadores

Desde janeiro, a rentabilidade das empresas exportadoras caiu 12% e a situação deve piorar, segundo a Funcex

Marcelo Rehder, O Estadao de S.Paulo

12 de junho de 2009 | 00h00

Achatada pela combinação de preços em queda, câmbio sobrevalorizado e demanda mundial fraca, a rentabilidade das exportações brasileiras já encolheu este ano 12%, até abril. Comparada com outubro de 2008, pico de rentabilidade no ano, a margem média dos exportadores recuou 20,7%, segundo índice calculado pela Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex)."A situação piorou em maio, por causa da valorização do real ante o dólar, e tende a piorar ainda mais", diz Fernando Ribeiro, economista-chefe da Funcex. Em abril, o câmbio médio foi de R$ 2,20 por dólar. Essa média caiu para R$ 2,06 em maio e já está abaixo de R$ 2 este mês.Até abril, a rentabilidade das exportações ainda se mantinha num nível 7% superior ao registrado em igual período de 2008. No entanto, o economista da Funcex explica que a situação agora é mais complicada porque a demanda mundial está em retração e o exportador brasileiro não tem fôlego para tirar mercado dos concorrentes, nem espaço para compensar perdas com o aumento nos preços em dólar.A questão é que a taxa de câmbio é um dos principais preços da economia, variável-chave de todo o setor produtivo. Sempre que o câmbio estiver sobrevalorizado, há um desestímulo não apenas à exportação, mas também à produção local, aos investimentos e à geração de emprego e renda, na medida em que o dólar barato favorece a importação."A indústria ficou muito pouco competitiva com o câmbio no nível atual", diz José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Vitopel, fabricante de embalagens plásticas flexíveis. "Não chegou ao ponto de causar prejuízo, mas é apavorante ver gente falando que o dólar vai chegar a R$ 1,80."Boa parte das empresas fechou contratos de exportações no primeiro trimestre com câmbio entre R$ 2,25 e R$ 2,30 e está entregando produtos com o dólar valendo menos que R$ 2. Agora, elas precisam de mais reais para poder pagar as suas contas internamente, tais como salários, impostos, fornecedores e outros compromissos assumidos para a produção do bem exportado.Não é de hoje que os exportadores reclamam dos efeitos negativos do câmbio desalinhado. Maior exportadora de cerâmicas do País, a Eliane viu desabar a participação das receitas com exportação no seu faturamento nos últimos anos. No auge do câmbio favorável às vendas externas, em 2003 e 2004, a proporção entre mercado externo e interno era meio a meio. "Agora, o nosso orçamento está alavancado em 80% para o mercado interno e 20% para o mercado externo", diz Edson Gaidzinski Júnior, presidente da Cerâmicas Eliane. IMPORTAÇÃONos setores em que as matérias-primas seguem cotação internacional, como é o caso da indústria têxtil, a situação é um pouco menos desconfortável. "Nosso maior problema é que o mercado mundial deixou de ser comprador", afirma Fuad Mattar, presidente da Paramount Têxtil. A empresa, que pretendia ampliar suas exportações este ano em 7%, já fala em retração de dois dígitos.Além de perder competitividade no exterior, as empresas brasileiras ainda sofrem concorrência das importações, que ficaram mais baratas em reais. "É grande o número de asiáticos de olho no nosso mercado", diz Andreas Meister, presidente da Ergomat, fabricante de máquinas-ferramenta, um dos setores mais afetados pelos efeitos da crise de crédito global.Ele se diz surpreso com a quantidade de empresários asiáticos em busca de informações sobre o mercado na feira de máquinas-ferramenta realizada recentemente em São Paulo. Tradicionalmente, a Ergomat exporta de 25% a 30% da produção, mas em 2009 esse número vai ficar abaixo de 10%. As dificuldades crescentes no comércio exterior têm forçado muitas empresas, principalmente pequenas e médias, a abandonar o mercado. Só no primeiro trimestre de 2009, foram 567, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex).

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