Realismo fantástico
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Realismo fantástico

Depois de tanto negacionismo e omissão para construir uma política sanitária eficiente contra a covid-19, Bolsonaro se deu conta de que sua postura joga contra a sua reeleição em 2022

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2021 | 19h00

O realismo fantástico é marca de grandes escritores latino-americanos, como Gabriel García Márquez. É a narrativa de acontecimentos e situações reais misturadas com elementos mágicos e mirabolantes. O historiador colombiano Germán Arciniegas dizia que “os latino-americanos não necessitam de escrever romances fantasiosos; basta-lhes narrar a história”.

O que se passa com  Bolsonaro é tão estapafúrdio que logo será considerado um desses casos de realismo fantástico: o relatado não é invenção de escritor; aconteceu de fato.

Depois de tanto negacionismo, de achincalhar o distanciamento social e o uso de máscaras, de recomendar remédios ineficazes, de condenar as vacinas e de afirmar que lamentar tantos mortos não passa de “frescura e mimimi”, Bolsonaro mudou de repente seu discurso. Começou a aparecer envergando máscara, passou a evitar repulsas compulsivas a toques de recolher e a alardear que sempre foi um campeão da vacinação em massa – o que não corresponde aos fatos, mas encontra lá quem faça segunda voz nesse coral.

Depois de mais de um ano de puro desdém a uma política sanitária consistente e de mais de 300 mil mortos, eis que Bolsonaro demitiu o desastrado ministro da Saúde Eduardo Pazuello e anunciou a criação de um comitê de combate à pandemia destinado a coordenar as ações em âmbito nacional.

Bolsonaro se vê acuado por forças contrárias. Seu ministro da Economia, Paulo Guedes, já era voz calmante no deserto. Repetia que a principal medida de política econômica destinada a reerguer os negócios e a derrubar o desemprego é a vacinação. Agora, são os políticos que o vinham apoiando que ameaçam se rebelar.

O presidente da Câmara,  Arthur Lira (Progressistas-AL), avisou que está erguendo o cartão amarelo contra a ineficiente política do governo de combate ao coronavírus. “Nenhum tema é mais prioritário do que a luta contra a covid-19” – advertiu. E passou o recado de que as reformas não avançariam enquanto não estiver em marcha ampla política de vacinação.

A maioria dos governadores já vinha adotando políticas opostas. Empresários, banqueiros e economistas, segmento que até agora apoiou Bolsonaro, lançaram, nesta semana, manifesto em que cobram atitude firme do governo contra a pandemia. O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, foi agressivamente cobrado nesta quarta-feira pelos senadores que entendem como graves e imperdoáveis as omissões do Itamaraty na busca de vacinas. E argumentam que o ministro pode se tornar obstáculo se o governo dos Estados Unidos se dispuser a negociar suprimentos de vacinas com o Brasil.

Enfim, Bolsonaro se deu conta de que seu negacionismo e seu desprezo pelo luto dos brasileiros jogam contra a reeleição dele em 2022. Não há elementos para concluir que essa virada seja consistente. Bolsonaro não parece um convertido, apenas se agarra a um projeto político de salvação pessoal.

Depois de tudo o que aconteceu, o lançamento de pontes em direção aos políticos, aos governadores, ao Supremo e ao eleitor parece artificial, frágil e notoriamente contraditório com tudo o que realmente Bolsonaro é. No realismo fantástico, viradas assim parecem inacreditáveis, mas podem basear-se em fatos históricos. A conferir.

CONFIRA

>> Mais inflação 

O IPCA-15 de março veio preocupante. Apontou inflação de 0,93%, mais que o dobro da inflação no mesmo período do mês anterior. O maior impacto foi o avanço dos preços dos combustíveis, no item Transportes: alta de 3,79%. O IPCA-15 é o mesmo IPCA, que mede o custo de vida em 30 dias; só que abrange o período que vai do dia 15 de um mês ao dia 15 do mês seguinte.

Como, depois disso, a Petrobrás baixou duas vezes os preços dos combustíveis, é possível que a inflação do mês cheio venha mais baixa.

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA.

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