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Realismo sem mágica

Entre as principais economias latino-americanas, tem ainda o Brasil as mais altas tarifas efetivas sobre as impostações

Monica de Bolle *, O Estado de S.Paulo

07 Março 2018 | 05h00

O título de artigo recente do Financial Times sobre a economia brasileira não poderia ter sido mais gráfico ou duro: “A economia brasileira: de zumbi para walking dead”, ou de zumbi para espécie de múmia ambulante. Discorre a coluna sobre as graves distorções, todas conhecidas – o altíssimo custo de se produzir no País, o patético isolamento comercial, os descalabros das contas públicas, as horas e horas perdidas na preparação de declarações de imposto renda. 

O artigo coincidiu com o mais recente relatório da OCDE sobre o País. Os dados são conhecidos, mas quando vistos em conjunto, ainda são capazes de assustar. Há muito o que destacar no realismo duro revelado nas análises rigorosas e desapaixonadas de quem vê o Brasil de fora, enorme contraste com o realismo mágico das avaliações de quem vê o Brasil de dentro.

Segundo a OCDE, o crescimento potencial da economia brasileira, hoje, não passa de 1,5%. Há dez anos, estimava-se que o crescimento potencial do País era de uns 3,7% – nada extraordinário, porém tampouco desprezível. O forte declínio da nossa capacidade de crescer sem descontrole inflacionário ocorreu entre 2011 e 2015, quando aos desvarios econômicos do governo Dilma somaram-se o declínio na população em idade ativa e a produtividade do Brasil. 

Extrapolando a tendência dos últimos anos para o médio prazo, o baixíssimo potencial da economia brasileira significa que qualquer crescimento acima de 1,5% pode trazer de volta a aceleração da inflação, hoje ainda contida devido aos efeitos defasados da forte recessão de 2015-2016. 

O relatório da OCDE traz outros gráficos e números mostrando o lamentável estado do investimento em infraestrutura, as barreiras para o funcionamento do mercado privado, os gargalos que afetam a capacidade de investir. Contudo, os dados que mais assombram são os relativos ao comércio exterior. 

O relatório traz um gráfico sobre a integração de diversos países às cadeias globais de valor – trata-se da página 29 desta apresentação: http://www.oecd.org/eco/surveys/Towards-a-more-prosperous-and-inclusive-Brazil-OECD-economic-survey-2018.pdf. O que lá se vê é o Brasil desconectado de qualquer grande centro onde estão os principais vértices das cadeias globais. O Brasil é bolota verde, cercada por um grande vazio, e conexão única com a Argentina, igualmente solitária. México, Chile, Colômbia, e até Costa Rica têm sólidas ligações com os EUA, que conectam esses países ao resto do mundo. 

Entre as principais economias latino-americanas, tem ainda o Brasil as mais altas tarifas efetivas sobre as importações, sobretudo nas compras de bens de capital. Há muito se sabe que há estreita relação entre a importação de bens de capital e a taxa de investimento. Se as importações de bens de capital são caras devido à existência de tarifas onerosas, difícil é acreditar que o investimento brasileiro possa superar os níveis extremamente baixos que nos tornam uma anomalia, inclusive na nossa própria região. 

Isso para não falar do fetiche nacional, as regras de conteúdo local, praga de nosso sistema protecionista. Em 2015, tinha o País cerca de 16 regras de conteúdo local aplicadas a diferentes setores, três vezes mais do que a China, dez vezes mais do que o México. 

As distorções e o isolamento brasileiros tornam o País especialmente suscetível às mudanças no ambiente internacional. Não à toa há tanta preocupação com a possibilidade de que o governo Trump venha a adotar salgadas tarifas sobre as importações americanas de aço e alumínio. 

Ainda que o Brasil seja um grande exportador de aço semiacabado para os EUA – o que significa que a laminação e outros processos que adicionam valor sejam feitos em solo americano, ajudando a criar empregos nesses setores na terra de Trump –, é improvável que isso sirva como pretexto para que o País receba benesses de uma administração cuja sanha protecionista é evidente. 

O baque, sobretudo quando se considera que com as tarifas de Trump seremos obrigados a concorrer com a China e com a Rússia na busca de novos mercados, deverá ser grande – e, como mostram os números da OCDE, nós não temos amortecedores para suavizar o impacto.

Realismo mágico é bom na literatura. Aplicado à economia, ele é não só ingênuo como perigoso. 

* ECONOMISTA, PESQUISADORA DO PETERSON INSTITUTE FOR INTERNATIONAL ECONOMICS E PROFESSORA DA SAIS/JOHNS HOPKINS UNIVERSITY 

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