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Realismo tardio

O Banco Central ficou repentinamente mais fiel aos fatos na avaliação que faz da economia brasileira no seu Relatório Trimestral de Inflação divulgado nesta quinta-feira

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

31 Março 2016 | 21h00

Dá para dizer que o Banco Central ficou repentinamente mais fiel aos fatos na avaliação que faz da economia brasileira no seu Relatório Trimestral de Inflação divulgado nesta quinta-feira. Mas esse realismo pode ter chegado um pouco tarde.

O Banco Central já não insiste, por exemplo, em que o PIB deste ano cairá apenas 1,9%, como está no Relatório de Inflação de dezembro. Aponta uma queda de 3,5%, bem mais próxima dos 3,66% de queda projetada pelo mercado, como apontado no último Boletim Focus.

Também não insiste em que a inflação de 2016 ficará abaixo do teto da meta, ou nos 6,2% projetados no Relatório de dezembro; ficará nos 6,6%. Também está mais perto das estimativas do mercado, que estão nos 7,31%.

A referência tomada para o câmbio (cotação do dólar) também ficou bem mais próxima da praticada pelo mercado. Prevê no último trimestre deste ano, um dólar a uma cotação média de R$ 3,70, bem mais baixa do que os R$ 3,90 considerados no Relatório de dezembro. Embora não se comprometa com meta nem com uma projeção propriamente dita, esta é boa indicação de como pretende operar sua política cambial.

O Banco Central está correto quando identifica significativa desaceleração da inflação ainda neste ano. Depois de atingir os 10,71% em janeiro, deverá agora perder força por duas principais razões: porque a recessão está contendo o consumo e, portanto, os impulsos de remarcação dos fazedores de preços; e porque os reajustes corretivos dos preços administrados (tarifas), que haviam permanecido congelados ao longo de 2013 e 2014, já produziram a maior parte do efeito sobre os preços que deveria produzir.

Também se nota nova postura do Banco Central em relação ao principal problema da economia e da inflação, que é a brutal desordem das contas públicas. Antes vinha insistindo em que, no tal horizonte relevante, o balanço do setor público se tornaria neutro em relação à inflação. Com isso vinha apostando em que estaria próximo o dia em que as contas públicas voltariam a ficar em ordem e que, portanto, deixariam de ser a usina de inflação que são hoje.

A linguagem do Relatório de Inflação continua contida, mas já não é mais tão tolerante quanto antes com a desordem fiscal em que estão relegadas as finanças públicas. Adverte, ainda que disfarçadamente, que apenas com uma boa sucessão de superávits primários (sobra de arrecadação para pagamento da dívida) a inflação poderá ser mais bem controlada. E cobra as reformas estruturais para que as condições da área fiscal fiquem mais confiáveis.

Mas o panorama de fundo para toda a economia e para o próprio Banco Central é incerto em consequência dos “eventos não econômicos” - o jeito que encontrou para se referir à crise política no Relatório.

E é este fator que prejudica a capacidade que o Banco Central deve ter de conduzir as expectativas. Coisas que pareciam sólidas se desmancham no ar e já ninguém sabe, num horizonte de 90 dias, quem será governo e qual será a política monetária adotada pelo Banco Central. 

CONFIRA:

Despencando

Quando números ruins se repetem, as pessoas perdem noção de seu significado. É como dez mortos a mais em tempo de peste. Pois ontem, tanto a Confederação Nacional da Indústria (CNI) como a Fiesp desfilaram estatísticas decepcionantes. Na CNI, por exemplo, os números sobre o emprego indicaram a 13ª queda consecutiva. Na Fiesp, as estatísticas sobre o comportamento da atividade industrial paulista ficaram assim: em 2014, queda de 6,0%; em 2015, de 6,2%; e em 2016, projeção de queda de 5,3%, que pode chegar a 7,0%, como avisa o diretor Paulo Francini.

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