''Rebaixamento da nota dos EUA é quase certo''

Para El-Erian, acordo do governo com o Congresso deve sair até 2 de agosto, mas dificilmente os EUA continuarão a ser AAA

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE/ WASHINGTON

ENTREVISTA

Mohamed El-Erian, executivo-chefe da Pimco

Os Estados Unidos dificilmente escaparão do rebaixamento da avaliação de risco de sua dívida. A cautela de Mohamed El-Erian, executivo-chefe da Pimco, ao analisar a dificuldade de o Congresso alcançar um acordo equilibrado e substancial para o aumento do teto da dívida, não foi suficiente para dissimilar o seu pessimismo.

Para ele, um acordo será alcançado até 2 de agosto. Mas será apenas capaz de evitar a primeira declaração de suspensão de pagamentos federais pelo Departamento do Tesouro.

Em entrevista, por e-mail, ao Estado, El-Erian afirmou que apenas um ajuste fiscal de US$ 3,5 trilhões a US$ 4 trilhões, com cortes de gastos e aumento de impostos, pode contornar a tendência de a Standard & Poor"s rebaixar a nota AAA da dívida americana. Os dois projetos no Congresso, entretanto, não atingem tal cifra nem apontam equilíbrio de sacrifícios na receita e na despesa.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Na situação atual, o sr. ainda acredita em acordo no Congresso para elevar o teto da dívida?

Acredito que um acordo será alcançado para aumentar o teto da dívida e evitar, do ponto de vista técnico, a suspensão dos pagamentos da dívida. Mas o compromisso político não será suficientemente significativo para reduzir, de fato, o risco de a classificação da dívida americana, hoje AAA, ser rebaixada. A nota AAA continuará extremamente vulnerável.

Então, o rebaixamento é inevitável, dados os projetos em tramitação no Congresso? O que poderia definitivamente evitar essa decisão das agências de classificação de risco?

A S&P pôs a avaliação de risco do crédito americano em observação em 14 de julho, sugerindo o rebaixamento, a menos que haja significante evolução política. Também especificou tanto a necessidade de substância do acordo quanto de cumprimento do prazo. Se a S&P, que está sob forte pressão política para ser mais branda, cravar o que indicou, os EUA terão de apresentar um pacote crível de redução de US$ 3,5 trilhões a US$ 4 trilhões em seu déficit. Logicamente, o pacote terá de conter tanto corte de gastos públicos quanto reforma dos impostos.

Quais serão as consequências para as economias emergentes, como o Brasil, se o acordo não for suficiente para evitar o rebaixamento da avaliação dos EUA?

Difícil responder. Os emergentes terão de lidar com os EUA, a maior economia do mundo, com crescimento mais lento, severo problema de desemprego e mais bitolado. Terão ainda de considerar o impacto de uma provável queda no valor do dólar e o aumento da volatilidade no mercado financeiro.

Parte da diretoria do FMI considera possível o retorno, aos EUA, dos capitais orientados nos últimos dois anos às economias emergentes. O sr. concorda?

É uma possibilidade. A julgar pela história, as crises mundiais criam "preconceito de casa". Nesse caso, pode incluir a repatriação de parte do capital.

Mesmo que os EUA possam evitar a suspensão de pagamentos e o rebaixamento da nota da dívida, o governo terá de aplicar um severo ajuste fiscal. O país corre risco de nova recessão?

O risco de recessão está aumentando, mas não é a questão base. Não estou seguro de que um novo QE3 (afrouxo quantitativo ou terceira etapa de compra de títulos pelo Fed) poderia ajudar, mesmo que a recessão fosse a questão essencial.

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