André Dusek/Estadão
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Rebaixamento da nota do País tem mais efeito no preço da dívidas de empresas, diz presidente da Vale

Antes de participar de debate em congresso do setor de mineração, Murilo Ferreira não comentou o pedido de licença do cargo de presidente do conselho de administração da Petrobrás

Suzana Inhesta, O Estado de S. Paulo

15 Setembro 2015 | 19h58

O presidente da Vale, Murilo Ferreira, comentou nesta terça-feira que os efeitos do rebaixamento do rating soberano do Brasil tem consequências sobre o preço das dívidas das companhias, principalmente no mercado de títulos. "Mas acho que temos de ser realistas, isso não é um processo 'overnight'. A precificação do downgrade no mercado de bonds (títulos) já está sendo acompanhada", disse ao chegar no início da tarde de hoje para o 16º Congresso Brasileiro de Mineração e da Exposição Internacional de Mineração (Exposibram). "Temos que ver isso com muito cuidado", alertou o executivo.

Com o País em meio à crise econômica, Ferreira comentou que a China está passando por um processo de reformas que deveria ser exemplar para o Brasil. "Por exemplo, 20% do crédito lá estava em um sistema de crédito paralelo. Já reduziu em 4%. A China está passando por uma reforma ética, de sistema, inclusive das estatais, que todos pensavam que eram intocáveis", afirmou.

O executivo também falou que a China "não carregará mais o mundo nas costas, mas vai continuar bem". "Acabou o superciclo, não acredito que acontecerá no curto prazo com Índia, por exemplo. Fico inquieto quando vejo analistas e empresas dizendo que a China não crescerá mais 15% ao ano, ou seja, mostrando só porcentuais.  Eu quero ver a receita, o número absoluto, para ter noção do impacto", declarou.

Ele comentou ainda o dado de que, do consumo de minério de ferro pela China, 85% do insumo era proveniente de Austrália e Brasil. "Isso significa que o movimento de países exóticos se intensificou. Vejo então que o setor está em fase de ajuste, tanto em termos de produção na China quanto nesses outros países."

Questionado sobre o preço do minério de ferro para os próximos períodos, ele não quis comentar, alegando que ainda há muita volatilidade e incerteza mundial. Ferreira lembrou ainda que, de janeiro até agosto, houve queda de 1% na produção siderúrgica mundial e que, para haver uma recuperação no preço, a economia global precisa "crescer mais do que os 3% ao ano que tem registrado". "Percebemos que há um grupo enorme de países em dificuldade e precisamos deles performando melhor para haver uma recuperação no preço."

De acordo com Ferreira, a maior dificuldade do setor de mineração é a competição. "A Vale compete com Rio Tinto, BHP, com grandes empresas internacionais. Então, não dá para chegar e querer mudar tudo, porque você não é dono do mercado. E não dá para deixar o segmento nacional de fora do que está acontecendo no exterior".

Ele citou que o novo marco regulatório da mineração está há "anos" em discussão e nesse tempo nossos principais competidores, como China e Austrália, realizaram estruturações. "E aí você tem governo que acha que tudo se resolve com aumento de alíquota. E também não temos aparelho burocrático adequado, precisamos de mais agilidade, como por exemplo, em licenciamentos ambientais", ressaltou. Para ele, uma reforma no Brasil precisa ser cultural, inclusive dos empresários. "O empresariado brasileiro precisa investir mais em automação e tecnologia. Sem aportes nessas áreas, a competição é brutal", destacou.

Dividendos. Sobre a distribuição de dividendos pela Vale, o presidente da companhia comentou que qualquer mudança será analisada pelo conselho de administração em reunião no mês de outubro, quando deve ser tomada uma decisão sobre esta política. "A recomendação da diretoria foi expressa em janeiro, só a morte é certa e sabida, o restante pode mudar", falou ressaltando que houve uma redução de custos muito expressiva na empresa.

Ele também comentou que a Vale está trabalhando para conseguir um financiamento para o projeto de Moçambique ainda no quarto trimestre deste ano.

Petrobrás. Antes de participar do debate, o executivo falou rapidamente com a imprensa. Quando questionado sobre a sua licença temporária da Petrobrás, Ferreira disse que estava no evento como "mineração". Ao receber uma provocação do jornalista William Waack, que modera o painel, de que Ferreira tinha passado recentemente por uma experiência no setor de petróleo, em alusão à Petrobrás, brincou: "Foi meu irmão gêmeo".

Executivo de confiança do mercado, Murilo Ferreira pediu licença do cargo até 30 de novembro. Com o afastamento, ele não deve participar de decisões de peso previstas para as próximas semanas, como a definição de um novo corte de investimentos. Desavenças em torno do tamanho do ajuste teriam motivado a saída temporária do executivo, segundo fontes. Em seu lugar, assume Nelson Carvalho, professor da USP. 

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