Rebaixar o Mercosul
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Rebaixar o Mercosul

O bloco se imagina como uma união aduaneira, mas está longe até mesmo de cumprir as regras de uma área de livre comércio

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

15 Setembro 2016 | 21h00

Os absurdos dentro do Mercosul vão se sucedendo.

O bloco se imagina como união aduaneira, ainda que em formação. Ou seja, reconhece-se como grupo de países que, além de constituir-se em área de livre comércio, impõe regras comuns de comércio exterior em relação a terceiros.

Área de livre comércio é o primeiro estágio de um processo de integração de economias. Pressupõe a inexistência de barreiras alfandegárias para as mercadorias que circulem de um país para o outro, como o carregamento de aparelhos de TV que se transferisse de São Paulo para Minas Gerais, que não tem de passar por nenhuma alfândega.

O segundo estágio é a união aduaneira. Pressupõe políticas comuns de comércio exterior e o mesmo tratamento alfandegário em cada país do bloco para mercadorias provenientes de outros países.

E, no entanto, os sócios do Mercosul estão longe até mesmo de cumprir as regras de uma área de livre comércio. O fluxo de mercadorias dentro do bloco vem sendo sistematicamente barrado por travas e impedimentos. A falta de alinhamento comercial se depreende também da multiplicação de processos antidumping , abertos pela Argentina contra o Brasil, o que é inconcebível numa área que pretende pautar-se pelo regime de livre fluxo de mercadorias.

Ao longo das administrações do PT, a própria identidade original do Mercosul ficou descaracterizada. Passou a operar como agrupamento político cuja principal função foi adotar e propagar propostas bolivarianas, mais empenhadas em montar modelos de socialismo latino-americano do que em consolidar laços econômicos destinados a pavimentar a estrada para o desenvolvimento.

A deformação não se limita hoje a produzir apenas mal-estar diplomático e a atrasar negociações comerciais. Atinge os negócios entre países.

Na última quarta-feira o superintendente de políticas industriais e econômicas da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), Renato Smime Jardim, sugeriu que o Mercosul fosse rebaixado à condição de área de livre comércio e deixasse para quando desse a implantação da união aduaneira. O objetivo é, assim, consolidar primeiramente a abertura comercial recíproca, deixar cada sócio do grupo em liberdade para negociar seus próprios acordos comerciais com terceiros e, só com o tempo, depois de consolidadas as etapas anteriores, avançar para novas formas de integração.

Essa proposta de uma volta atrás não nasceu agora. Vem sendo discutida há anos em diversos fóruns de debate no Brasil. Criança que mal consegue engatinhar não pode pretender andar de bicicleta. Tem de esperar pela maturação natural do seu organismo. Assim, também, o Mercosul.

Mas até agora havia certa resistência a aceitar o rebaixamento do Mercosul, como se tratasse de recuo vergonhoso, próprio de países atrasados. No entanto, se até mesmo a vetusta e pérfida Grã-Bretanha optou pelo Brexit, não há por que pretender manter agora essa situação artificial e de alto custo do Mercosul.

CONFIRA

Compare aqui a evolução das cotações do petróleo (tipos WTI e Brent) a partir de junho deste ano.

De olho na temperatura

Nesta semana, as cotações do petróleo sofreram o impacto de dois relatórios mensais, o da Opep e o da Agência Internacional de Energia. Ambos advertiram para a tendência a um excesso de oferta. A reação dos mercados foi nova queda dos preços. A partir de agora, o fator que mais influência deverá ter nos preços é a perspectiva de inverno no Hemisfério Norte. Quanto mais intenso o frio, maior a necessidade de derivados para aquecimento.

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