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Recados dos vizinhos

Chile a Argentina alertam para necessidade de mudar sem esquecer o lado social

Cida Damasco*, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2019 | 05h00

A vizinhança inquieta emite sinais de advertência para o Brasil. Como vem acontecendo há bom tempo, cada polo faz a leitura que é do seu interesse das viradas no cenário político do Chile e da Argentina. Para uns, trata-se do fracasso do neoliberalismo e ponto final. Para outros, o erro de Mauricio Macri foi justamente ficar no meio do caminho da política liberal, deixando que o peronismo se reorganizasse e voltasse ao poder. E a explosão dos protestos no Chile se explicaria menos por questões internas e mais por uma “conspiração da Venezuela e de Cuba”. 

Guardadas as devidas proporções, ambas são leituras radicais e, como tal, distantes da realidade. O Chile de Sebastián Piñera escancarou que, atrás da fachada de uma economia moderna e competitiva, se escondia um país com profunda desigualdade, sem a contrapartida de uma rede de proteção social. E, em particular, com um regime previdenciário de capitalização extremamente duro, apesar dos ajustes mais recentes para reduzir o empobrecimento dos aposentados. Um quadro que nem de longe lembra o paraíso apregoado por aqui. 

Mesmo mais familiar aos observadores brasileiros, a Argentina de Macri também surpreendeu com o vigor da oposição, poucos anos depois da saída de cena ruidosa de Cristina Kirchner, enredada em acusações de corrupção. Visto no início como um símbolo de renovação na política argentina – e até fora das fronteiras do país –, Macri teria frustrado a população no quesito recuperação do crescimento e bem-estar social. Daí a uma pressão mais efetiva dos lobbies corporativos, foi apenas um passo. 

O Brasil é uma réplica da Argentina e/ou do Chile? Claríssimo que não. A estrutura econômica é bem mais complexa do que a do Chile, essencialmente baseada na mineração, e menos degradada do que a argentina. Mas, em matéria de educação, por exemplo, a Argentina tradicionalmente vence a disputa com o Brasil, ainda que a crise venha reduzindo essa supremacia. Apesar das diferenças, contudo, os vizinhos têm muito a ensinar ao Brasil de Jair Bolsonaro, mal saindo da recessão e com dificuldades de engatar um ciclo de crescimento mais sustentável. 

A equipe econômica empenha-se nesse momento em aprovar um pacotaço de reformas na economia, enquanto corre para providenciar alguns estímulos à demanda de curto prazo. Analistas, investidores e empresários começam a se animar com a essa transição e já refazem suas estimativas de crescimento para o PIB deste ano, mais para perto de 1%. Falta, porém, ampliar essa percepção para os protagonistas da cena econômica, ou seja, os trabalhadores/consumidores. E aí a chave é uma só: o emprego. 

É verdade que as estatísticas confirmam uma lenta mas persistente queda do desemprego e um aumento na criação de vagas formais. Mas a herança de quase 28 milhões de pessoas classificadas como “mão de obra subutilizada”, 12,5 milhões delas sem qualquer ocupação, ainda é pesada para convencer a população de que está em curso uma mudança efetiva no mercado de trabalho. 

Faz sentido, portanto, a tentativa do governo de dar alguma vitalidade às duas pontas desse mercado, consideradas as mais vulneráveis: a faixa de 18 a 29 anos de idade e acima de 55. A primeira corresponde à entrada dos profissionais no mercado, cada vez mais tardia e altamente competitiva. 

A segunda refere-se ao fim de carreira, prematura para os novos padrões de longevidade da população – e para os objetivos da reforma da Previdência, que esticou a idade mínima para o trabalhador ter direito à aposentadoria. 

Se sair do papel, esse programa para estimular empregos no setor privado coincidiria com uma ofensiva para, na mão contrária, mexer na remuneração e na carreira do funcionalismo público, um dos pilares da reforma administrativa e da proposta de emenda à Constituição (PEC) de contenção gastos. 

De acordo com estudo do Banco Mundial, a média salarial dos servidores públicos federais é 96% superior à dos trabalhadores do setor privado que exercem funções comparáveis. A questão, porém, é atacar privilégios de quem realmente os detém, não necessariamente do conjunto da categoria. 

Nessa e em outras mudanças em discussão no governo, todo cuidado é pouco, para que a correção de injustiças atuais “a ferro e fogo” não se faça com a criação de novas injustiças. Argentina e Chile estão aí para provar que o custo político e social pode ser maior do que o que consta das planilhas.

*É JORNALISTA

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