Recaída da Argentina

Com reservas despencando e corrida ao dólar, país vizinho recorre ao FMI para tentar se salvar

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

09 Maio 2018 | 21h00

Se é briga de homem, tem mulher no meio – registra a sabedoria popular. É também o que, desde Troia, se fala das guerras. Para a mesma coisa, o francês internacionalizou a expressão “cherchez la femme”, procure a mulher.

Quando a crise é da economia de um país, quase sempre a causa da encrenca é fiscal, é o governo gastando mais do que pode: procure o rombo. E é o que acontece hoje com a Argentina, que sofre uma corrida ao dólar, uma inflação de mais de 20% ao ano e reservas externas murchando (veja gráfico abaixo). O país acaba de recorrer ao Fundo Monetário Internacional para um empréstimo de emergência e tentar o retorno da confiança.

Também aí tem mulher no meio: a ex-presidente Cristina Kirchner, que, em seus dois mandatos, executou uma política econômica populista catastrófica, carregada de subsídios (conta do consumidor paga pelo governo), alto endividamento, maquiagem das contas públicas e de falta de rumo – enfim, uma história conhecida.

Esse quadro foi agravado nos últimos meses em consequência da forte seca que derrubou em mais de 30% a produção de grãos e, nessas condições, cortou receitas com exportações e com arrecadação de tributos.

O presidente Mauricio Macri, que tomou posse em 2015, optou por uma política de ajuste gradual. Entendeu que a melhora das condições externas e a enorme disponibilidade de moeda estrangeira no mundo permitiriam oferta suficiente de moeda estrangeira para dar conta do serviço da dívida. Esta alcança US$ 320,9 bilhões, em 2017. O ajuste gradual implicou transferência em conta-gotas da enorme conta a pagar herdada dos governos Kirchner. A ideia era não produzir convulsões políticas com  cortes drásticos de despesas públicas e boa dose de recessão econômica que a eles se seguiriam. Mas esse gradualismo não deu conta do recado, manteve a economia argentina vulnerável a solavancos externos.

Eles chegaram com a alta do dólar no mercado internacional, com a disparada dos preços do petróleo e com a queda de receitas com exportações. A deterioração das contas públicas provocou inflação e uma corrida ao dólar. Em apenas duas semanas, a cotação do dólar disparou 9% em relação ao peso argentino (veja gráfico acima). Para tentar segurar os capitais, o Banco Central argentino foi obrigado a puxar os juros básicos. Em meados de abril, estavam a 27,25% ao ano; no dia 27 foram a 30,25%; no dia 3 de maio, a 33,25% ao ano; e dia 4, a 40,0%. Não foi suficiente. Agora, o presidente Macri requisitou a boia salva-vidas do Fundo Monetário Internacional que deverá acudir com um empréstimo de emergência de US$ 30 bilhões. A principal contrapartida será o remédio de sempre: a imposição de certo grau de austeridade: redução de subsídios (aos combustíveis, energia elétrica e água), contenção de salários e eventual dispensa de funcionários públicos – enfim, decisões impopulares cujo principal custo poderá ser político.

Sempre que Brasil ou Argentina caem no porre, lembra-se do Efeito Orloff, propaganda de 1985 cuja mensagem era “eu sou você amanhã”. Avisava que era preciso consumir a vodca certa para evitar a ressaca do dia seguinte. No caso de Argentina e Brasil, foi usada para advertir que as crises acontecem alternadamente. Se um deles tropeça na crise, o outro seria fatalmente derrubado em seguida.

Desta vez, não há risco sério de contaminação, porque o Brasil, embora com rombo fiscal colossal, conta com US$ 380 bilhões de reservas.

As montadoras brasileiras poderão ter dificuldades para exportar para a Argentina porque a desvalorização cambial aumentou em 30% os preços dos veículos e haverá menos turistas argentinos por aqui porque o Brasil ficou caro demais para eles. Mas os problemas globais, que também estão atingindo o câmbio brasileiro, terão impacto por aqui, provavelmente moderado.

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