Leonardo Soares/Estadão
Empresas se preparam contra um possível boicote Leonardo Soares/Estadão

Receio de boicote por crise na Amazônia leva frigoríficos a preparar campanhas

As maiores companhias do setor – JBS, Marfrig e Minerva – tentam se antecipar a possível crise que pode afetar as exportações de carne brasileira

Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2019 | 04h00

Em um movimento para se antecipar a uma crise que pode afetar as exportações brasileiras de carne bovina, os principais frigoríficos nacionais, como JBS, Marfrig e Minerva, estão se organizando para preparar campanhas institucionais individuais contra um possível boicote de países e importadores da commodity brasileira em meio à crise provocada pela queimadas na Amazônia, apurou o ‘Estado’. 

Fontes a par do assunto afirmaram que o Ministério da Agricultura recebeu consultas informais de países, como Arábia Saudita, Alemanha e Egito, questionando qual seria o risco de os frigoríficos brasileiros estarem comprando gado proveniente de áreas de desmatamento ou ilegais. As próprias empresas também teriam sido consultadas por seus clientes. Procurado, o ministério não se pronunciou. 

As consultas geraram uma preocupação entre as principais companhias exportadoras, que possuem certificações, compromissos de monitoramento e auditorias certificadas, mas temem que a crise na Amazônia possa provocar um boicote de países protecionistas e afetar a relação com investidores internacionais, que podem deixar de financiar projetos. 

A Marfrig, por exemplo, fez há quase dois meses uma captação de US$ 500 milhões de títulos de dívidas ligados à sustentabilidade (“greenbond’). A JBS e a Minerva planejam abrir capital fora do País e uma crise de imagem neste momento pode afetar os planos.

Anúncio. Na semana passada, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) considerou pagar um anúncio de página inteira nos jornais Financial Times e The New York Times para vir a público e explicar que os frigoríficos brasileiros cumprem os mais rígidos controles de qualidade e que não há risco de compra de matéria-prima de áreas de desmatamento e ilegais. 

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Na sexta-feira passada, no entanto, o projeto foi abortado, e o anúncio cancelado, após a Abiec chegar à conclusão de que a discussão era mais ampla, e não dizia respeito apenas aos frigoríficos, mas ao agronegócio como um todo e ao próprio governo. “Não é um problema da pecuária. Estamos alinhados com a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e fazemos parte da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, cuja campanha é “Seja Legal com a Amazônia”, diz a diretora executiva da Abiec, Liege Nogueira. 

Consultorias internacionais que já trabalham com os frigoríficos individualmente e com entidades de classe estão sendo ouvidas.

Segundo Liege, os frigoríficos exportadores estão dentro de rigorosas práticas de produção e abertos a responder a quaisquer dúvidas. “Há uma preocupação em como os investidores podem ver essas questões.”

Lideranças do agronegócio ouvidas pelo Estado afirmaram que as conversas se intensificaram em Brasília com o Ministério da Agricultura, e que buscam respaldo do governo nessa crise. “A Operação Carne Fraca, que foi voltada para as indústrias de aves e suínos, afetou por um tempo a carne bovina por pura falta de conhecimento. Não queremos que isso ocorra novamente”, disse uma fonte do setor, que falou sob condição de anonimato.

Resposta

Procurada, a Marfrig não comenta. A JBS afirmou, por meio de nota, que apoia a iniciativa da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura e que não tem uma campanha isolada em relação a este tema. A Minerva informou que não há campanha institucional em curso neste momento.

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‘Não podemos seguir discurso do nós contra eles’, diz Marcos Jank

Um maior alinhamento entre o governo e setor privado é importante para que a imagem do País não fique deteriorada, defende o professor

Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2019 | 04h00

Um dos maiores especialistas em agronegócio e comércio exterior do País, Marcos Jank, professor sênior de agronegócio global do Insper, diz que o Brasil precisa dialogar mais “em inglês” no exterior. “Estão sobrando fatos e faltando percepções.”

De acordo com Jank, o governo e o setor privado têm de se estruturar para defender o agronegócio. “Não podemos seguir um discurso do nós contra eles. Precisamos de um caminho mais virtuoso.”

Um maior alinhamento entre o governo e setor privado é importante para que a imagem do País não fique deteriorada, defende Jank, que foi presidente da Unica, associação que reúne as usinas de cana do País.

O agronegócio brasileiro, segundo Jank, foi um dos que mais expandiram no mundo. “Não há nenhum fundamento que possa impor dificuldades ao agronegócio moderno brasileiro. Não é agricultura que está desmatando na Amazônia e isso é preciso ser dito.” É preciso ter estudos embasados para que o País possa se defender de ataques especulativos, segundo o especialista. 

Comércio exterior

As exportações brasileiras do agronegócio totalizaram US$ 8,27 bilhões em receita em agosto, recuo de 11% sobre o mesmo período do ano passado, de acordo com dados da Secretaria de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura. 

A soja responde pela maior receita das exportações brasileiras. Em agosto, os embarques de grãos somaram 5,3 milhões de toneladas, recuo de 34% em relação ao mesmo período do ano passado. A peste suína na China, maior importador global do grão, reduziu as compras do país asiático.

Mesmo com o recuo das vendas externas, o agronegócio elevou sua participação no total das exportações, finalizando agosto com 44% de fatia. 

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Multinacionais querem se informar sobre desmatamento

Empresas teriam feito consulta informal ao governo questionando se os produtos que elas compram do Brasil vêm ou não de áreas desmatadas

Camila Turtelli, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2019 | 04h00

BRASÍLIA - O aumento dos incêndios na Amazônia que colocou o Brasil no centro de uma crise ambiental mundial levou multinacionais a questionarem o Ministério da Agricultura sobre a procedência da produção agropecuária do País. Segundo fontes, empresas fizeram uma consulta informal ao governo questionando se os produtos que elas compram do Brasil vêm ou não de áreas desmatadas.

Segundo o Estadão/Broadcast apurou, indústrias de alimento europeias que atuam ao redor do globo enviaram nas últimas semanas perguntas à pasta chefiada por Tereza Cristina sobre soja, óleos e carne processada. Uma fonte a par do assunto disse que as dúvidas foram respondidas “satisfatoriamente”. 

Apesar de Tereza Cristina minimizar os efeitos da crise para o setor, ela tem visitado parceiros comerciais estratégicos, buscado novos mercados e tem ouvindo, principalmente, de países asiáticos a necessidade de fomentar a sustentabilidade no agronegócio brasileiro. 

Não à toa que esse tem sido um dos motes de seus discursos. Na abertura da 9.ª Reunião de Ministros da Agricultura do Brics – bloco composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul –, no início desta semana, em Bonito (MS), a ministra disse que o agronegócio brasileiro trabalha incessantemente para promover iniciativas como a recuperação de pastagens degradadas, a ampliação das áreas de plantio direto, a integração lavoura-pecuária-floresta, a adoção de técnicas de fixação biológica de nitrogênio e o uso de tecnologias de tratamento de resíduos animais.

Ela viaja de 2 a 8 de outubro à Alemanha e Suíça. Em Colônia (Alemanha), participa da Anuga Food Fair 2019 e de reunião com a ministra federal da Alimentação e da Agricultura daquele país.

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