Receita vê indícios de lavagem de dinheiro em negócios da Cisco

Para fiscais, evasão de divisas ocorria com simulação de pagamento por direitos de softwares

Marcelo Godoy e Marcelo Auler, O Estadao de S.Paulo

19 de outubro de 2007 | 00h00

Fiscais da Receita Federal encontraram indícios de lavagem de dinheiro no esquema de fraude e sonegação de impostos do qual são acusadas a Cisco Systems e a importadora Mude Comércio e Serviços Ltda. Os investigadores desconfiam que o esquema tenha praticado evasão de divisas simulando o pagamento de direitos autorais de softwares.O dinheiro seria enviado para empresas offshore com sede no Caribe como se tratasse de operação para pagar os titulares da patente do software. Para a Polícia Federal, essa seria uma forma de ocultar patrimônio. Os fiscais da Receita que participaram da Operação Persona ficaram entusiasmados com os documentos apreendidos sobre as offshore. Essas empresas seriam responsáveis pela ligação entre as empresas fantasmas brasileiras e as americanas mantidas pelo esquema suspeito de sonegar R$ 1,5 bilhão.Além de propiciar a evasão por meio do pagamento de direitos autorais falsos, as operações com os softwares permitiam, segundo os investigadores, uma outra fraude: fingir que o valor do software era muito superior ao do equipamento importado. Nesse caso, o esquema ganhava ao deixar de recolher o Imposto de Importação do equipamento, ao mesmo tempo em que aproveitava a isenção existente para o software.Outro ponto apurado é a real participação do executivo Carlos Roberto Carnevali, ex-presidente da Cisco do Brasil, no esquema. Investigadores têm indícios de que Carnevali estaria por trás das operações da importadora Mude. A Mude é uma empresa brasileira com filial nos EUA que intermediava a importação dos produtos da Cisco para o Brasil. Os produtos saíam da Flórida. A maioria tinha como destino a Bahia, onde uma lei dá incentivos a empresas de informática.Eram da Bahia e de Santos (SP) os fiscais da Receita presos na operação. Raimundo Nonato de Sá foi detido em sua casa, em Santos, com US$ 290 mil. Além dele, foi preso na cidade o fiscal aposentado Adalberto Franco de Andrade, suspeito de intermediar a liberação de mercadorias.Na Bahia, foram detidos os auditores Jair Rodrigues de Oliveira e Maurício Rocha Maia. Por fim, foi preso Silvio Rogério Ferreira Sande, que trabalhava no entreposto aduaneiro da Companhia Empório de Armazéns Gerais, em Salvador.O juiz Alexandre Cassetari, da 4ª Vara Criminal Federal de São Paulo, deve decidir hoje se revoga ou não a prisão dos suspeitos. Os procuradores Priscila Schreiner e Marcos Gomes Correia manifestaram-se contra. O consultor Ernani Bertino Maciel, único dos 41 suspeitos que não foi preso, pois estava fora do País, em férias, deve voltar ao Brasil, segundo o advogado Celso Vilardi, na próxima semana e se apresentar às autoridades.

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