Recessão chega a trabalho familiar

Número de auxiliares a parentes recua 9,8%

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2017 | 05h00

Filho do dono, trabalho garantido? Não nessa crise. João Paulo Petraglia Miguel, de 29 anos, ajudava os pais na empresa da família desde a adolescência, mas a revendedora de coifas sentiu a queda no consumo e a concorrência com grandes lojas, que ofertavam os produtos com desconto na internet, e acabou fechando.

“Meu pai não queria desistir da empresa, começou a se endividar, até chegar a um ponto insustentável. Em paralelo ao negócio, eu cursava arquitetura. Quando fechamos, me inscrevi como Microempreendedor Individual e passei a reformar apartamentos. A crise afetou muito a construção, mas pude manter o padrão de vida. Hoje, meu pai trabalha comigo.”

A recessão atingiu também os brasileiros que prestam serviços a parentes, os chamados trabalhadores familiares auxiliares. No quarto trimestre de 2016, eles eram 2,11 milhões – 9,8% menos que no mesmo período do ano anterior, segundo a Pnad Contínua. Desde 2012, pela média anual, o total de pessoas nessa situação caiu 24%.

Nessa categoria, entra quem não ganha remuneração e tem mais de 14 anos, exceto donas de casa e voluntários em instituições sem fins lucrativos.

Com a queda nos negócios, algumas empresas ficaram só com parentes trabalhando, mas em outras, os familiares foram buscar novas fontes de renda para reforçar o orçamento.

O pequeno varejo, que lida com estoques reduzidos e tem menor poder de compra, murchou em 2016, e o rendimento que sustentava toda a família passou a não ser suficiente, diz Alvaro Furtado, presidente do Sincovaga, que representa os varejistas de alimentos. “A empresa pode até permanecer aberta e os mais velhos tentam fazê-la sobreviver enquanto os filhos buscam uma alternativa fora.”

“Muitos tiveram de buscar colocações informais”, lembra Nelson Marconi, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV). “A relação de trabalho entre familiares é mais frágil e é natural que esses postos diminuam. Só vai melhorar quando a economia reagir, impulsionada por setores com mão de obra especializada, que vão ajudar a reaquecer o consumo.”

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