Dida Sampaio / Estadão
Planalto Dida Sampaio / Estadão

Recessão é dada como certa em 2020, e futuro depende de velocidade de ação do governo

Enquanto Bolsonaro e Guedes sinalizam necessidade de retomar desde já atividade produtiva, economistas têm engrossado alertas de que uma desorganização na economia pode ocorrer a despeito de uma política de confinamento mais flexível

Idiana Tomazelli e Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2020 | 10h14

BRASÍLIA -  O grau de isolamento da população e a velocidade do governo na adoção de medidas de combate à crise provocada pela pandemia do novo coronavírus esquentaram o debate nos últimos dias sobre a profundidade do impacto econômico e a capacidade de retomada do Brasil após o fim da emergência sanitária. Uma recessão em 2020 é dada como certa, mas o futuro ainda está cercado de incertezas. 

Enquanto o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, sinalizam a necessidade de retomar desde já a atividade produtiva, economistas têm engrossado os alertas de que uma desorganização na economia do País pode ocorrer a despeito de uma política de confinamento mais flexível, como prega o presidente, e que o foco agora deve estar na rede de proteção a famílias e empresas, além dos investimentos na saúde.

O Banco Mundial já emitiu avisos de que as projeções não descartam “várias ondas da pandemia”, o que requer uma abordagem global para seu combate, incluindo a busca por uma vacina e preparo das economias. Se essas “ondas” se confirmarem (como na gripe espanhola, que teve três grandes ondas), algum tipo de confinamento pode durar mais tempo, impondo severos impactos sobre a atividade e retardando a recuperação.

A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) calcula que cada mês de quarentena reduz em dois pontos porcentuais o crescimento anual do Produto Interno Bruto (PIB) dos países.

Por outro lado, estudos sugerem que um sacrifício maior agora pode compensar: o tombo mais profundo no curto prazo daria lugar a uma recuperação mais veloz à frente. Essa avaliação consta em um artigo de economistas do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, divulgado na quinta-feira, 26. Eles analisaram a estratégia de combate à pandemia da gripe espanhola em 1918 – embora tenha ocorrido há um século, ela tem sido considerada como a única “comparável” ao momento atual.

“Cidades que interviram mais cedo e de maneira mais agressiva não tiveram performance pior, pelo contrário, elas cresceram mais rápido após o fim da pandemia. Nossos achados indicam que intervenções não farmacêuticas não só reduzem a mortalidade, mas também mitigam as consequências adversas da pandemia sobre a economia”, diz o estudo, que analisou o desempenho de 43 cidades norte-americanas.

No Brasil, economistas avaliam que o impacto econômico já está evidente, mas ainda é possível salvar vidas e amenizar as consequências para as famílias no futuro – o que seria crucial para amortecer o choque e acelerar a retomada. A principal ponderação é que, mesmo com a reabertura agora de comércio e serviços, as famílias simplesmente podem não consumir se acharem que suas vidas continuam correndo risco. Alguns setores como entretenimento e turismo podem até desaparecer momentaneamente enquanto esse comportamento durar.

“A crise já afetou a economia, e a gente ainda não colheu os benefícios de frear os impactos na saúde”, alerta a economista Silvia Matos, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV). “O efeito econômico já está contratado. O de saúde ainda pode ser contido”, acrescenta.

Para ela, o governo demorou a emitir sinalizações cruciais aos empresários e trabalhadores de que daria o respaldo necessário para conter a crise. Com isso, algumas companhias começaram a demitir, o que contribui para tornar mais permanentes os efeitos do choque. A recuperação agora tende a ser mais lenta – e não será uma flexibilização na quarentena que impedirá isso. “Não tem como escapar de um efeito devastador, de saúde ou de economia, as duas coisas estão juntas e vão ser ruins no Brasil”, diz.

Como mostrou o Estadão/Broadcast na semana passada, dois terços das medidas anunciadas pelo governo para socorrer empresas e trabalhadores ainda não saíram do papel. O Senado ainda precisa aprovar um auxílio emergencial de R$ 600 mensais para trabalhadores informais – só depois disso é que a Caixa poderá montar sua operação para distribuir o dinheiro. O auxílio aos empregados formais que tiverem redução de jornada e salário sequer foi proposto pelo governo.

“Quando chegar o recurso do governo, pode ser um pouco tarde. E ainda tem o risco de ele não chegar onde mais precisa”, afirma a economista do Ibre/FGV. Após uma crise econômica, o emprego costuma ser uma das últimas variáveis a se recuperar.

A equipe econômica tem buscado traçar cenários para o pós-crise e ainda conta com uma melhora na atividade a partir do segundo semestre de 2020. Guedes já manifestou publicamente a preocupação com a possibilidade de um isolamento prolongado desorganizar as cadeias produtivas e comprometer a saída da crise pelo Brasil. Ele tem defendido o retorno gradual e aproveitou um vídeo divulgado na sexta (27) para fazer o alerta de risco de desabastecimento, inclusive de produtos de saúde. O ministro tem conversado com empresários de vários setores.

Em entrevista recente ao Estado, o ex-vice-presidente e ex-diretor executivo do Banco Mundial Otaviano Canuto se disse mais preocupado com a falta de renda das famílias para comprar comida do que com uma eventual crise de desabastecimento. “A recessão virá, uma depressão longa. Elas (as medidas) não são suficientes para lidar com o impacto social que a crise vai trazer. O diabo de tudo isso é que o choque simultâneo de oferta e demanda tem um efeito primordialmente sobre certo conjunto de serviços, empresas, de trabalhadores”, disse.

O economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas, alerta que, para evitar um quadro de depressão na economia, é preciso fazer com que os bancos alonguem os prazos das dívidas dos seus clientes.

Pesquisa que será divulgada pela CNC na segunda-feira (30) mostra que, em março, o endividamento dos brasileiros atingiu a máxima histórica em março, com 66,2% das famílias com a renda comprometida com dívidas de cartão de crédito, cheque especial, crédito pessoal, crédito consignado, carnês, financiamentos de carros, financiamentos de imóveis, entre outros. Segundo ele, os números dos endividados vai aumentar com a crise da pandemia da covid-19 e os bancos continuam retraídos.

“Os bancos não querem dar dinheiro novo, nem querem alongar. Querem comprar só títulos públicos. O BC tem que reduzir mais os juros para os bancos ganharem menos dinheiro ao comprarem os títulos públicos”, afirma, lembrando que os bancos estão com recursos disponíveis. Segundo ele, se os bancos não fizerem isso, haverá uma quebradeira geral. “As empresas não vão pagar, as pessoas não vão pagar e vai ser uma quebradeira geral. Os bancos também vão quebrar na frente”, adverte.

O setor de comércio, um dos mais prejudicados pelo confinamento forçado da crise, previa um aumento das vendas do varejo de 3%, mas a previsão já é de uma queda de 4% e pode ficar pior. Para ele, é preciso evitar que o País entre numa depressão. “Ainda não estamos numa depressão. Estamos começando uma recessão. Agora, depressão é coisa mais grave. Tem que esperar um pouco mais, Nos próximos dois, três meses, vamos ver se a recessão vai virar depressão.” 

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Pela primeira vez, mercado financeiro prevê retração no PIB deste ano

Para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2020, a previsão, que antes era de um crescimento de 1,48%, passou a ser uma queda de 0,48%; essa foi a sétima queda consecutiva do indicador

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2020 | 09h34

BRASÍLIA  - Os efeitos da pandemia do novo coronavírus fizeram os economistas do mercado financeiro reduzir novamente a estimativa para o nível de atividade economia brasileira para 2020. Eles passaram a prever contração para este ano, pela primeira vez, assim como também passaram a esperar um novo corte na taxa básica de juros, a Selic, em maio. 

As projeções fazem parte do boletim de mercado, conhecido como relatório "Focus", divulgado nesta segunda-feira, 30, pelo Banco Central (BC). Os dados foram levantados na semana passada em pesquisa com mais de 100 instituições financeiras.

Para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2020, a previsão, que antes era de um crescimento de 1,48%, passou a ser uma queda de 0,48%. Essa foi a sétima queda consecutiva do indicador. Há quatro semanas, a estimativa era de alta de 2,17%. Para o próximo ano, a previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) foi mantida em 2,50%.

Nas últimas semanas, tanto o Ministério da Economia quanto o Banco Central também revisaram suas estimativas e passaram a prever estabilidade (sem alta, mas também sem contração) do PIB neste ano.

Novo corte na Selic

O mercado financeiro também passou a prever um novo corte na taxa básica de juros da economia, a Selic, atualmente na mínima histórica de 3,75% ao ano.

A expectativa dos economistas dos bancos é de que, na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, no começo de maio, a taxa seja reduzida em 0,25 ponto percentual, para 3,5% ao ano - e que assim permaneça até o fim de 2020.

Para o fechamento de 2021, a expectativa do mercado para a taxa Selic recuou de 5,25% para 5% ao ano, o que pressupõe alta do juro no ano que vem.

Inflação

Segundo o relatório divulgado pelo BC, os analistas do mercado financeiro reduziram a estimativa de inflação para 2020 de 3,04% para 2,94%.

A expectativa de inflação do mercado para este ano segue abaixo da meta central, de 4%. O intervalo de tolerância do sistema de metas varia de 2,5% a 5,5%. A meta de inflação é fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Para alcançá-la, o Banco Central eleva ou reduz a taxa básica de juros da economia (Selic).

Para 2021, o mercado financeiro baixou a estimativa de inflação de 3,60% para 3,57%. No ano que vem, a meta central de inflação é de 3,75% e será oficialmente cumprida se o índice oscilar de 2,25% a 5,25%.

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Governo promete à construção civil ações de enfrentamento à crise do novo coronavírus

Ele defendeu a flexibilização das exigências cartoriais, que com a crise estão fechados

Adriana Fernandes e Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2020 | 10h14

BRASÍLIA - Preocupado com um tombo ainda maior para o setor que ensaiava em 2020 um movimento de recuperação, o presidente da Câmara Brasileira da Indústria Civil (Cbic), José Carlos Martins, informou ao Estadão/Broadcast que o governo prometeu para esta semana medidas para enfrentamento da pandemia do novo coronavírus.

Nesta segunda-feira, 30, o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, liberou a contratação das faixas 1,5 (renda familiar bruta de até R$ 2,6 mil) e 2 (renda bruta familiar de até R$ 4 mil) do programa Minha Casa, Minha Vida com recurso de 100% do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). 

Essa é a primeira medida atendida pelo governo para o setor, grande empregador de mão-de-obra. O subsídio é pago da seguinte forma: 10% do Orçamento da União e 90% do FGTS. Com a portaria, esgotado o uso dos recursos do Orçamento, o FGTS pode cobrir a diferença de 10%. "Agora, não para mais a contratação até existir recursos, o que deve ocorrer somente no final do ano", previu o presidente da Cbic. 

Martins defende outras medidas, como a flexibilização das exigências cartoriais, que com a crise estão fechados. “Esse ano estaria financiando R$ 10 bilhões por mês. São R$ 10 bilhões que deixam de entrar no caixa”, disse.

Segundo ele, uma regra do Banco Central determina que a liberação dos recursos só pode ser feita após o retorno dos registros. “É uma medida muito simples. Hoje, quando se vende um apartamento.se assina o contrato, mas o banco só libera o dinheiro depois que o registro no cartório volta”, disse.

O presidente da Cbic disse que o governo “está sensibilizado” para o problema do setor, mas não anunciou ainda nenhuma medida para a construção civil. Numa reunião virtual realizada na última sexta-feira (27), com representantes da Caixa Econômica e do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), o governo garantiu o pagamento das obras já contratadas.

“O governo prometeu medidas para a próxima semana. O que não falta é frente para estimular a economia via construção civil”, disse.

Segundo ele, a crise atingiu o setor quando começava “a pegar voo”, num processo de início de crescimento depois de anos de recessão e paralisia. A estratégia é evitar um agravamento mais profundo que retarde a retomada. Para Martins, a garantia da continuidade de pagamento das obras é importante na crise para não deflagrar o círculo vicioso. “Nosso produto tem a característica diferente, já está contratado. Não tem que vender o sapato. Ele já está vendido”, afirmou.

O presidente da Cbic disse que alertou autoridades do governo, entre eles, o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, para a importância de manter os pagamentos.

“Falei para o governo: ou garante isso, ou haverá um desemprego maciço”, contou. Martins disse que é preciso evitar um efeito em cadeia porque a construção civil tem outros 62 setores atrelados. Ele citou o caso da indústria de cimento, cujos fornos de produção não podem ser desligados sob pena de estragarem.

A construção civil não parou na crise e mantém o trabalho nos locais onde há permissão. Segundo Martins, as empresas estão seguindo recomendações de saúde, ampliando os turnos para evitar concentração no transporte e na alimentação nos refeitórios das obras. 

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