Fotos públicas
Estudo da CNC mostra que o País tinha 384.721 unidades industriais de transformação em 2014; desceu a 359.345 indústrias em 2018, queda de 6,6% no total de unidades Fotos públicas

Recessão fez Brasil perder 17 fábricas por dia entre 2015 e 2018, diz estudo

Levantamento da CNC mostra que extinção de unidades reflete perdas na produção da indústria, que opera 18,4% abaixo do pico de março de 2011; Estado de São Paulo teve o maior número absoluto de plantas fechadas: 7.312, uma redução de 7%

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2020 | 04h00

RIO - Em meio a dificuldades de manter o ritmo de recuperação da produção, a indústria de transformação encolheu significativamente no País nos últimos anos. Pelo menos 17 indústrias fecharam as portas por dia no Brasil ao longo de quatro anos. Ao todo, 25.376 unidades industriais encerraram suas atividades de 2015 a 2018. Os números são de levantamento feito pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) com exclusividade para o Estadão/Broadcast.

A extinção de unidades industriais é resultado do acúmulo de perdas na produção da indústria de transformação brasileira entre 2014 e 2016. Houve um início de recuperação em 2017, mas o processo perdeu fôlego em 2018. De janeiro a novembro de 2019, últimos dados da Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física do IBGE, a produção da indústria de transformação ficou praticamente estagnada. Com dificuldades para repor as perdas passadas, a indústria de transformação opera 18,4% abaixo do pico alcançado em março de 2011.

“A transformação está praticamente parada. Se ela não cai, também não demonstra nenhum tipo de crescimento”, ressaltou André Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do IBGE.

Se a produção industrial cresce, cada aumento de 1 ponto porcentual gera abertura de, aproximadamente, 5,9 mil unidades produtivas no ano seguinte. Se cai, o número de fábricas em atividade diminui na mesma proporção, calculou Fabio Bentes, economista da Divisão Econômica da CNC e responsável pelo estudo.

“O fechamento de unidades produtivas vai se intensificando e atinge um ápice também mais ou menos depois de um ano”, explicou Bentes.

O estudo da CNC mostra que o País tinha 384.721 unidades industriais de transformação em 2014. Desceu a 359.345 indústrias em 2018, queda de 6,6% no total de unidades. O Rio de Janeiro teve a maior queda no período (-12,7%). Perdeu 2.535 unidades em quatro anos. Em termos absolutos, o Estado de São Paulo teve a maior perda de unidades produtoras. Foram menos 7.312 unidades, o equivalente a uma redução de 7%.

A expectativa para a produção industrial nos próximos meses é favorável. O processo de abertura da economia e a elevada capacidade ociosa do parque fabril, porém, podem adiar a inauguração de novas unidades industriais. Haverá dificuldade para a retomada mesmo em cenário de crescimento da fabricação de manufaturados.

“A economia está começando a se recuperar, há expectativa de crescimento em torno de 2% na indústria (em 2020). Mas será que vai gerar cerca de 12 mil unidades produtivas em 2021? Acho pouco provável que isso ocorra”, opinou Bentes.

Tudo o que sabemos sobre:
indústriarecessão

Encontrou algum erro? Entre em contato

Crise longa derrubou produtividade

Fatores estruturais, como elevada carga tributária, e conjunturais, como a crise na Argentina, ajudam a explicar fechamento de fábricas

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2020 | 04h00

RIO - A recessão econômica longa e profunda prejudicou mais o setor industrial, que teve queda na produtividade e terá dificuldades de concorrer com seus pares de outros países conforme a economia brasileira for se abrindo, alertou Fabio Bentes, responsável pelo estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) sobre o fechamento de unidades industriais no País.

“Quando a gente abrir a economia, e é isso que se espera de um governo liberal, a tendência é que a gente não tenha recuperação no número de empresas. Porque abrir a economia vai exigir um grau de esforço de produtividade das indústrias daqui e seguramente muitas delas não estão preparadas”, previu Bentes.

Para André Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do IBGE, a recuperação industrial brasileira tem sido prejudicada por diferentes fatores. Alguns são estruturais, como carga tributária elevada. Outros são conjunturais, como a crise na Argentina, os mais de 12 milhões de desempregados e o ambiente de incertezas elevadas desde 2018, que afeta decisões de consumo e de investimentos.

“Tem uma série de fatores influenciando e o setor industrial não consegue de forma alguma deslanchar”, avaliou Macedo. “Tem algum tipo de recuperação, mas sem fôlego para eliminar as perdas do passado.”

O Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) da indústria brasileira, que mostra quanto do parque industrial está sendo usado, desceu a 75,1% na passagem de novembro para dezembro. Os dados são da Sondagem da Indústria da Fundação Getulio Vargas (FGV). A última vez que o Nuci esteve acima de 80% foi em 2014. Desde 2015 o nível de utilização da capacidade instalada gira em torno de 70%.

“Isso significa que a capacidade ociosa (parte dos equipamentos fabris que não é utilizada) da indústria está bastante elevada”, ponderou a economista Renata Santos de Mello Franco, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV). Significa que o uso da capacidade produtiva está bem abaixo da média histórica, que fica em torno de 79,9% a 80%. 

O levantamento da CNC sobre o fechamento de unidades industriais foi feito com base nos dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), hoje sob responsabilidade do Ministério da Economia. Também foram usadas informações das Contas Nacionais do IBGE.

Três perguntas para:

Rafael Cagnin, economista-chefe do Iedi

O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) lamenta que 2019 tenha sido recessivo para a indústria, mas acredita que o setor retome sua trajetória de recuperação neste ano, com taxas de crescimento ainda baixas, porém mais frequentes e consistentes. No entanto, o cenário econômico inspira cautela, o que deve inibir a inauguração de novas indústrias, avalia o economista-chefe do Iedi.

1. Quais as perspectivas para a indústria em 2020?

Veio esse balde de água fria em novembro (queda de 1,2% na produção em relação a outubro), mas em 2020 o crescimento deve ser mais consistente. Sem muito vigor, será um ano de baixo crescimento. A construção civil deve ajudar, tem dado sinais de melhora, é um setor que consome muitos insumos. É esperado crescimento do consumo, ajudado pelo crédito. Os estoques industriais parecem relativamente ajustados, o que é bom, e o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) lentamente vem se aproximando da média anterior à crise. Ainda está abaixo, mas está melhorando.

2. O Iedi ressalta que um dado positivo recente foi o crescimento da produção de bens de capital para a própria indústria, que avançou 5,9% em novembro ante outubro. Isso significa retomada dos investimentos industriais?

Isso sinaliza que alguns planos de investimento estão sendo desengavetados. Não é aumento da capacidade ainda, mas tem a preocupação de modernização do processo produtivo. Por ora é só modernização. Pode ter alguma ampliação de capacidade produtiva, mas pontual. É mais para assegurar produtividade, porque produtividade é competitividade.

3. É possível esperar a abertura de novas unidades produtivas nos próximos anos?

Você tem de ter confiança de que a economia está em franca expansão para ter esse tipo de projeto. O cenário para o empresário industrial ainda é de cautela.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Indústria naval parou e demitiu 27 mil trabalhadores

Empresas justificam fechamento de unidades como ‘falta de competitividade e revisões estratégicas’

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2020 | 04h00

RIO - Quando fechou e pediu recuperação judicial no fim de 2015, o Estaleiro Ilha S.A. (Eisa) demitiu 3 mil funcionários. Rogério de Carvalho da Silva Sobrinho, hoje com 39 anos, trabalhava lá desde 2008. Foi demitido com a maioria dos colegas, em dezembro daquele ano. Em uma sexta-feira, já de manhã, a “rádio peão” anunciava o corte de pessoal. Na segunda-feira seguinte, alarmados, “os funcionários do dia pararam de trabalhar e foram tomar satisfação com as chefias”, contou Carvalho.

A “satisfação” foi prestada com a confirmação das demissões. Naquela mesma segunda-feira, centenas de funcionários seguiram em manifestação até a via de acesso do aeroporto do Galeão, como documentou o Estado. O estaleiro, ou o que restou dele, fica na Ilha do Governador, mesmo bairro da zona norte do Rio onde está o terminal aéreo. Muitos trabalhadores ficaram sem receber seus direitos. Carvalho cobra R$ 95 mil do Eisa na Justiça trabalhista.

“No estaleiro fiz muitos amigos. Ali praticamente comecei minha vida adulta profissional. Aprendi muita coisa, aprendi ética profissional”, disse.

Em 2014, o Eisa começou a ter problemas financeiros. Houve atrasos nos salários, mas um empréstimo de US$ 120 milhões, em agosto daquele ano, garantiu alguma sobrevida. Com idas e vindas, a agonia prosseguiu por 2015, quando a economia já afundava na recessão. Foi quando o estaleiro entrou para a estatística de indústrias fechadas no Brasil.

O caso da indústria naval fluminense chama atenção para o recuo industrial brasileiro e suas consequências. No fim de 2014, o setor empregava 30 mil trabalhadores no Estado. Atualmente, são cerca de 3 mil. 

Os 27 mil empregos perdidos se foram com estaleiros fechados ou quase parados, segundo Sergio Bacci, vice-presidente do Sinaval, entidade que representa a indústria naval. As unidades em funcionamento estão sem obras, dedicadas ao estacionamento de embarcações ou cuidam de pequenos reparos e manutenção.

Onda

Em crises como a que atinge a indústria brasileira há muitas versões para o fechamento de fábricas. Há companhias que, sem condições de manter uma ou todas as suas plantas quase paradas, optam por fechá-las de vez. Há os casos de falência definitiva, com capacidade produtiva e empregos destruídos. Também fala-se em revisões de estratégia.

As histórias se espalharam pelo País nos últimos anos. Entre 2016 e 2019, a fabricante de roupas catarinense Malwee fechou duas fábricas. A maior delas em Blumenau (SC). A empresa demitiu cerca de 300 funcionários no fim de 2016. Em maio do ano passado, desativou a unidade de Pomerode (SC). Nesse caso, funcionários e atividades foram transferidos para a principal planta, em Jaraguá do Sul (SC). Ela receberá R$ 100 milhões em investimentos.

“A unificação deve trazer ganhos de agilidade, eficiência operacional, sinergia e facilidade nas tomadas de decisão”, informou a Malwee, em nota.

No ano passado foi simbólico o fechamento da fábrica da Ford no ABC paulista. Construída pela Willys em 1952, a fábrica passara à Ford em 1967. Quando a Ford anunciou o encerramento das atividades, em fevereiro de 2019, eram 2,8 mil funcionários. Parte aceitou um pacote de demissão voluntária (PDV). Restavam 650 empregados na linha de produção no momento da desativação, em outubro. Esses trabalhadores foram desligados em novembro. Um grupo da área administrativa foi transferido para um novo escritório em São Paulo.

No Rio Grande do Sul, a fabricante de pneus Pirelli anunciou em maio o fechamento da unidade de Gravataí, dispensando 900 funcionários. “A produção dos pneus de moto da Pirelli, hoje realizada em Gravataí (RS), será transferida para Campinas (SP) até a metade de 2021”, diz nota enviada pela empresa. Em maio, a empresa anunciou que Campinas receberia investimento de ¤ 120 milhões com o objetivo de “melhorar a competitividade das fábricas no País”.

A Duratex, que fabrica de laminados de madeira (marca Durafloor) a louças e acabamentos para banheiro e cozinha (marca Deca), fechou uma fábrica em São Leopoldo (RS) em julho de 2019 e outra em Botucatu (SP) em setembro. No primeiro caso, o fechamento da fábrica da Deca foi “importante para a consolidação industrial e para manter a competitividade no segmento”, segundo a empresa.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.