Recessão já ronda economia alemã

Indicadores de confiança reforçam estagnação da atividade econômica do país, que já registrou PIB negativo no segundo trimestre

JACK EWING, THE NEW YORK TIMES/ O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2014 | 02h06

FRANKFURT - Um dos principais indicadores da confiança das empresas alemãs caiu ontem mais que o esperado, para seu patamar mais baixo desde 2012, intensificando os temores de que a mais forte economia da zona do euro esteja ameaçada de entrar em recessão.

A vigorosa atividade econômica da Alemanha serviu de âncora para o restante da zona do euro durante quatro anos de crise intermitente e de crescimento irregular. Uma estagnação do crescimento alemão faz prever problemas para países como França e Itália, que dependem fortemente do comércio com a Alemanha, e se encontram em condições econômicas muito piores.

A economia alemã já registrou um declínio no segundo trimestre, quando a produção caiu 0,2% em comparação com o trimestre anterior. Outro declínio trimestral consecutivo colocará o país em recessão.

"A maior economia da zona do euro atingiu um estágio perigoso entre um período fraco e uma quase estagnação mais prolongada", disse Carsten Brzeski, economista do Ing Bank, numa nota aos clientes.

A pesquisa do Instituto Ifo de Munique mostrou que seu índice do clima para os negócios, um composto de expectativas dos gerentes em relação ao futuro e sua avaliação da situação atual, caiu de 106,3 em agosto, o patamar mais baixo desde abril de 2012, para 104,7 em setembro.

Na pesquisa, as expectativas para as empresas nos próximos seis meses chegaram ao seu nível mais baixo desde dezembro de 2012, caindo de 101,7 em agosto para 99,3. A pesquisa, que ouviu 7 mil gerentes, mede o clima em relação a 2005, quando o Índice foi fixado em 100.

"A economia alemã não está mais percorrendo um caminho suave", disse em um comunicado Hans Werner Sinn, presidente do Instituto Ifo.

A pesquisa do Ifo representa o mais recente alerta sobre o enfraquecimento da produção econômica na zona do euro, que ainda não voltou a registrar os níveis apresentados antes do início da crise financeira de 2008. Na terça-feira, uma pesquisa entre os diretores de compras da zona do euro realizada pela Markit Economics, uma empresa de análise de dados, também assinalou a redução do crescimento.

Na segunda-feira, Mario Draghi, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), disse aos membros do Parlamento Europeu em Bruxelas que "a recuperação econômica na zona do euro está perdendo impulso".

Fator Ucrânia. A economia alemã foi afetada pela tempestade na Ucrânia, que desestabilizou os consumidores e as empresas e fez com que passassem a conter seus gastos. As sanções que o Ocidente impôs à Rússia por sua intervenção na Ucrânia, além de intensificarem os problemas na economia russa, reduziram a demanda e enfraqueceram o rublo. As exportações alemãs foram afetadas pelo crescimento fraco do restante da zona do euro e pelo declínio de países em desenvolvimento como a China.

Em Berlim foi sugerido um aumento dos gastos em infraestrutura, como construção de autoestradas ou campi universitários, mas o governo de Angela Merkel mostrou pouca propensão para maciços estímulos fiscais.

Ao contrário, Wolfgang Schäuble, o ministro das Finanças, disse estar orgulhoso porque o governo não precisará tomar dinheiro emprestado no próximo ano.

Cada novo sinal de recuo do crescimento aumenta as expectativas de que o Banco Central Europeu dentro em breve tenha de recorrer a compras em grande escala de títulos do governo, o mesmo afrouxamento quantitativo utilizado pelo Federal Reserve (Fed, banco central americano) para estimular o crescimento nos Estados Unidos. Os economistas do Barclays e do Commerzbank, entre outros, preveem que o banco central começará o afrouxamento quantitativo no início do próximo ano.

Risco de indisposição. Entretanto, outros economistas duvidam que o banco central esteja disposto a correr o risco de indispor a Alemanha, onde muitas pessoas consideram as compras de títulos do governo pelo banco central uma transferência de fato da riqueza dos países mais ricos da Europa para os mais pobres.

"O BCE está disposto a fazer todo o possível menos comprar títulos do governo", afirmou Joachim Fels, principal economista do Morgan Stanley.

A maioria dos economistas não acredita que o banco central anuncie planos de compra de títulos do governo em sua próxima reunião, no dia 2 de outubro. A instituição já anunciou que comprará títulos da dívida do setor privado, a partir do próximo mês, e que fornecerá maiores detalhes na próxima semana.

Alguns economistas consideram exagerados os temores de outra recessão da zona do euro. James Paulsen, diretor de estratégia de investimentos da Wells Fargo Asset Management, observou que a economia dos Estados Unidos também enfrentou problemas antes de recuperar o impulso.

"Não é incomum durante uma recuperação haver pausas temporárias", afirmou numa entrevista na semana passada. Referindo-se à economia da zona do euro, ele acrescentou: "O que vem acontecendo nos últimos meses me parece familiar". /Tradução de Anna Capovilla

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