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Recessão mundial à vista?

A queda forte nos preços dos metais, por ora, reflete mais os temores do que pode vir do que uma perda de fôlego da economia mundial

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2018 | 04h00

Um artigo do economista Tom Wise no blog do Bank of England, o banco central inglês, foi um dos mais citados entre investidores e analistas na semana passada: o quanto os preços dos metais são um termômetro mais preciso do que a maioria dos indicadores antecedentes – como as pesquisas de sentimento de consumidores e empresários – para prever o desempenho da economia mundial no curto prazo.

No artigo, Wise apresentou números mostrando o quão próximo o consumo de metais segue de perto as variações do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Também mostrou uma elevada correlação entre os preços desses metais (tomando como base o índice S&P GSCI metais industriais) e a oscilação do PIB e do volume de comércio mundial.

As commodities agrícolas, o petróleo e os metais representam 25% das exportações no mundo. No ano passado, quando as cotações dos metais dispararam mais de 30%, o PIB mundial cresceu 3,7%, no ritmo mais acelerado desde 2011.

O burburinho sobre o artigo se deu porque, justamente na semana passada, os preços de vários metais industriais, como cobre e zinco, entraram ou estão próximos do chamado “bear market”, jargão em inglês para quando as cotações caem mais de 20% em relação ao seu último pico de preço.

Diante de tamanha correção atual dos preços dos metais, o quão provável pode esse termômetro apontar para uma inevitável recessão da economia mundial neste ano ou no próximo?

Na semana passada, a cotação do zinco chegou a cair para US$ 2.473 a tonelada, 31% abaixo da máxima do ano, atingida em fevereiro. Também na semana passada, o cobre caiu abaixo de US$ 6.000 a tonelada, acumulando uma queda de quase 19% ante o pico de US$ 7.348 no início de junho, antes da escalada das tensões comerciais entre Estados Unidos e seus principais parceiros, como China e União Europeia.

Desde esse pico, entraram em vigor as tarifas pelos EUA de 25% sobre US$ 34 bilhões em produtos da China, com os chineses retaliando os americanos na mesma magnitude. Os EUA já detalharam a taxação de 10% sobre 6.031 produtos chineses que representam compras anuais de US$ 200 bilhões. Isso sem falar que os americanos já taxaram as importações de aço e alumínio de vários parceiros, entre eles a China e a UE.

Além dos temores de um impacto negativo ao crescimento do PIB mundial com uma guerra comercial, os preços dos metais sofreram uma forte correção em razão do movimento de alta global do dólar desde que o Federal Reserve (Fed) indicou que subirá os juros americanos a um ritmo mais forte do que o mercado vinha precificando.

Apesar de as cotações das commodities serem em dólar, a maior parte do consumo e da produção das matérias-primas ocorrem em países que usam outras moedas. Assim, é comum o dólar subir e os preços das commodities caírem – e vice-versa.

Quanto mais os preços dos metais podem cair? Para Daniel Ghali, estrategista de commodities da TD Securities, o movimento de correção nos preços dos metais está perto do fim. “Algumas razões apontam para isso: os melhores dias em termos de fortalecimento no valor do dólar ficaram para trás e um enfraquecimento do dólar tradicionalmente dá um impulso aos preços das matérias-primas”, diz Ghali. “Além disso, espero que a China comece a adotar uma política de maior estímulo para sua economia, o que é importante para a recuperação nos preços dos metais, pois os chineses representam cerca de 50% do consumo global das commodities.”

Também na opinião de Georgette Boele, estrategista-chefe de câmbio e de metais preciosos do banco ABN Amro, a forte correção nos preços dos metais está próxima de acabar. No curto prazo, alerta ela, ainda vão pesar sobre esses preços fatores como o dólar mais forte, a alta de juros americanos pelo Fed, fatores técnicos envolvendo a oferta e a demanda dessas matérias-primas e a continuidade da tensão comercial entre Estados Unidos e seus parceiros.

Por enquanto, essa queda forte nos preços dos metais reflete apenas mais os temores do que pode vir – como uma guerra comercial ou uma elevação mais forte dos juros pelo Fed – do que propriamente uma perda de fôlego da economia mundial apontando uma recessão.

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