'Recessão pode afetar nota máxima dos EUA'

Ainda que tenha sido muito cauteloso em suas declarações, o analista sênior de crédito para os Estados Unidos da agência de classificação de risco Moody's, Steven Hess, admitiu ontem que uma recessão nos Estados Unidos nos próximos meses pode ser um risco para a nota de crédito Aaa americana antes das eleições em 2012. "Certamente poderia afetar o rating, mas não é algo automático que, se houver um 'crescimento negativo' de 0,1%, nós moveríamos o rating."

Entrevista com

LUCIANA ANTONELLO XAVIER , CORRESPONDENTE / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2011 | 03h07

Isso mostra que os fundamentos dos EUA realmente estão piores e apresentam mais riscos ao rating, pois o país já enfrentou varias recessões antes sem que sua nota fosse alterada. Atualmente os EUA têm nota de crédito Aaa, com perspectiva negativa pela Moody's.

Em entrevista à Agência Estado, Hess repetiu várias vezes que esse não é o cenário da Moody's, que espera crescimento da economia americana ao redor de 2% no ano que vem.

Ao mesmo tempo, ele afirmou que uma deterioração maior no cenário da Europa poderia levar a esse cenário mais pessimista. "Somente se a turbulência na Europa se tornar muito, muito pior, e isso afetar o sistema financeiro americano. Esse é o maior risco, mas não é nosso cenário básico."

A seguir, a entrevista.

O que poderia afetar o rating dos EUA antes das eleições de 2012?

Um fator importante na perspectiva do rating é sempre a taxa de crescimento econômico, porque isso afeta a receita e os gastos do governo e consequentemente o equilíbrio do orçamento. No momento, esperamos que o PIB nos EUA em 2012 cresça ao redor de 2%. Se houver um crescimento muito mais baixo ou recessão, isso tornaria o déficit do orçamento consideravelmente maior e também poderia afetar nossa visão do crescimento econômico no longo prazo.

Isso poderia ser um gatilho para mover o rating?

Possivelmente. Quero dizer, é algo que temos de levar em conta para o rating, mas como disse, nossa expectativa é de PIB ao redor de 2%.

Alguma mudança poderia vir se houver PIB negativo?

Sim, certamente um PIB negativo. Creio que prefiro não usar a palavra gatilho. Diria apenas que afetaria nossa análise e afetaria o nível do déficit e teríamos de olhar para isso e ver qual foi o tamanho do impacto. Então, certamente poderia afetar o rating, mas não é algo automático no qual, se houver um crescimento negativo de 0,1%, nós moveríamos o rating.

O que poderia levar a um 'crescimento negativo'?

Como disse, não esperamos isso no momento. Somente se a turbulência na Europa se tornar muito, muito pior, e isso afetar o sistema financeiro americano. Esse é o maior risco, mas não é nosso cenário básico.

Os novos testes de estresse que serão feitos com os bancos nos EUA podem gerar mais turbulência?

Não tenho uma opinião sobre isso. Por enquanto, não estamos observando isso.

O sr. disse em relatório que a expiração dos chamados "impostos Bush" no fim de 2012 vão gerar um aumento significativo das receitas do governo e isso pode reverter a tendência de aumento da relação dívida/PIB. Isso minimiza os riscos de um rebaixamento da nota?

Sim. Se ficarmos convencidos de que essa reversão vai realmente acontecer, é bem possível que removamos a perspectiva negativa do rating triplo A. E o total dos impostos que expiram em 2012 poderia ser suficiente - dependendo, de novo do crescimento econômico e de outras condições - para mudar a trajetória da dívida.

Nesse caso, estamos falando de crescimento ainda ao redor de 2%?

Bem, isso seria depois de 2012 e, em geral, com o tempo, a economia vai retornar a ter um crescimento mais perto de 3%. Essa é nossa expectativa para o longo prazo.

Como o senhor avalia a condução da política monetária pelo Fed?

Eles certamente baixaram os juros até onde podiam. Acreditamos que isso está tendo efeito positivo na economia, mas talvez não tão forte como teria sido em outros tempos. Isso por causa do processo de desalavancagem das famílias ou, em outras palavras, as famílias estão tentando reduzir suas dívidas. Logo, mesmo com juros baixos, eles não estão pegando empréstimos nem gastando num nível elevado.

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