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Recessão prolongada

As projeções para os principais indicadores econômicos se deterioram a cada semana, acompanhadas por índices de expectativa ineditamente baixos, o que ajuda a empurrar as previsões ainda mais para o terreno negativo. Fermentado pela crispação política que predomina no ambiente institucional desde as eleições do ano passado, o clima é de desconfiança e temor de descontrole na economia.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2015 | 02h02

É possível, porém, jogar um pouco de água na fervura. Para isso, basta lembrar o caráter cíclico da dinâmica econômica, a partir do qual mecanismos de defesa são acionados. De olho nessa característica, pode-se concluir ser muito mais provável que, antes do advento de um suposto caos, ocorreria um ajuste recessivo prolongado na economia. Já é hora de tentar medir o tamanho do esfriamento.

O experiente economista Affonso Celso Pastore, colunista do Estadão, ex-presidente do Banco Central e ex-secretário de Fazenda em São Paulo, enviou ontem a clientes de sua consultoria uma nota especial em que procura dimensionar justamente a profundidade e a persistência da recessão que atingirá a economia, como resposta ao ajuste fiscal. Para tanto, Pastore comparou a situação de hoje com os ajustes de 1999 e 2003, e a conclusão é de que o presente ajuste tende a ser mais forte e mais prolongado do que os anteriores.

A diferença fundamental entre aqueles dois períodos e o atual está no setor externo. Tanto em 1999, quando o regime de câmbio fixo deu lugar ao flutuante e, pouco depois, ao sistema de metas de inflação, quanto em 2003, quando ocorreu uma crise de confiança na passagem de FHC para Lula, as exportações ajudaram a atenuar a redução do ritmo de crescimento da economia.

Assim, se em 1999 a economia só cresceu 0,26%, com o impulso do consumo e das exportações líquidas, já avançou 4,31% no ano seguinte. De uma expansão de apenas 1,15%, em 2003, o consumo e o setor externo levaram o PIB de 2004 a crescer 5,71%. Nos dois casos, a retração teria sido maior e a recuperação mais lenta sem o reforço do setor externo para a demanda agregada.

Essa expansão da demanda, principalmente via exportações líquidas, não tem chance de se repetir agora em 2015. Como ressalta o informe de Pastore, "no episódio atual não poderemos contar nem com a expansão do comércio mundial nem com o aumento dos preços de commodities". Outro elemento da demanda que sofreu contração em 1999 e 2003, mas logo se recuperou, foi o investimento. Em 2015, o quadro, nesse item, é no mínimo bastante incerto, com a perda de fôlego da Petrobrás e das grandes empreiteiras envolvidas no megaescândalo de corrupção na estatal. Sua contribuição, em resumo, para a expansão do PIB, de novo, também tende a ser menor - se houver.

O próprio tamanho do ajuste necessário colabora para reforçar a ideia de uma trajetória recessiva mais longa. A meta de superávit primário de 1,2% do PIB, em 2015, e 2%, em 2016, depois do déficit de 0,6% do PIB em 2014, elevará o esforço a 1,8% do PIB este ano. Não houve, em uma década e meia, desde a implantação dos sistema de metas e do tripé macroeconômico, esforço fiscal de tal magnitude.

As últimas medidas anunciadas, apesar dos ruídos de comunicação entre a presidente Dilma Rousseff e seu ministro da Fazenda, Joaquim Levy, revelam um aumento da aposta do governo no ajuste fiscal que se fizer necessário para reequilibrar a economia. Pode-se desconfiar da firmeza dessa aposta, mas são cada vez mais claras as indicações de que a estratégia do governo - sob as bênçãos do ex-presidente Lula - é a de aceitar os custos, mesmos elevados, do curto prazo para colher os possíveis benefícios de uma retomada, na segunda metade do atual mandato.

Como lembra Pastore, nenhuma recessão é igual à outra e esta, que começou em 2014 e talvez se estenda pelo menos até 2016, com risco de ser agravada pela escassez hídrica e energética, dá ares de ser candidata à maior e mais longa da história contabilizada da economia brasileira.

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