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Recessão ronda 2017

Incerteza em relação à eleição de 2018 e atraso nas reformas puxam economia para baixo

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

05 Julho 2017 | 05h00

Os analistas ouvidos pela pesquisa semanal Focus, do Banco Central, reduziram a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano para apenas 0,39%, refletindo o impacto da crise política que envolve o governo do presidente Michel Temer e a perspectiva de atraso na aprovação das reformas. E não se descartam novas rodadas de revisão para baixo nessa estimativa.

A grande questão agora, portanto, é o risco crescente de o desempenho da economia brasileira ser novamente negativo em 2017, o que estenderia a contração do PIB pelo terceiro ano consecutivo, após as quedas de 3,8% em 2015 e de 3,6% em 2016.

Para o economista Juan Jensen, sócio da 4E Consultoria, a probabilidade é de 70% de uma contração da economia também em 2017. Ele estima uma queda de 0,1% do PIB neste ano. Para Jensen, o desempenho fraco deste ano será reflexo, sobretudo, da confiança dos empresários afetada pela crise política. “Isso limita a retomada dos investimentos”, diz.

Na visão de Solange Srour, economista-chefe da ARX Investimentos, a expectativa é de que a piora dos índices de confiança com a crise política tenha impacto na economia real através de um menor nível de oferta de crédito por parte dos bancos, menor demanda por trabalho pelas empresas e aumento da poupança nas famílias.

“No entanto, ainda não estamos vendo isso acontecer”, ressalta Solange. Segundo ela, em razão de “certa defasagem”, a economia ainda está colhendo parte dos frutos do desempenho positivo do governo até o estouro da crise política. “O processo de afrouxamento monetário continua em curso, assim como as melhorias microeconômicas, como a melhor gerência da Petrobrás.”

Todavia, Solange diz que, diante do quadro de incertezas que o País vive hoje, o risco de um recuo do PIB em 2017 é considerável, entre 20% e 30%. Sobre o que estaria puxando para baixo o desempenho da atividade econômica no momento, ela cita a incerteza em relação às eleições de 2018 e a falta de progresso nas reformas mais importantes, como a da Previdência.

“A percepção de que as reformas não serão aprovadas e o aumento das incertezas sobre a continuidade das atuais políticas econômicas – de orientação mais ortodoxa – podem frear o incipiente crescimento que estávamos observando no início deste ano”, argumenta Flavio Serrano, economista sênior do Haitong Banco de Investimento do Brasil. A instituição estima crescimento nulo no Brasil em 2017.

“Ou seja, a chance de um resultado negativo não é desprezível: atribuímos pelo menos 40% de chance de uma leitura negativa (do PIB)”, diz Serrano. Segundo ele, uma conjunção de fatores está puxando para baixo o desempenho da economia: cenário conturbado, histórico de taxas de juros e de inflação elevadas no passado, alta do desemprego e pouco espaço para uma política fiscal expansionista.

Por outro lado, a economista-chefe e sócia da Tendências Consultoria, Alessandra Ribeiro, lembra que, apesar do efeito negativo da crise política sobre a confiança e os investimentos, “temos surpresas positivas do lado da inflação, renda real e crédito a pessoa física”.

Ainda assim, Alessandra avalia que a probabilidade de um desempenho negativo do PIB em 2017 está ao redor de 20%. “Pelos nossos modelos, a confiança afeta mais o investimento”, diz ela. “Se a maior queda de investimentos não for em parte compensada por consumo das famílias e pelo setor externo, podemos ter PIB negativo.”

E o que poderia salvar o Brasil de uma nova contração da economia neste ano?

“Como os mercados estão se comportando bem apesar do risco político, avalio que a crise deve ter efeitos mais desinflacionários”, explica Alessandra. “Assim, pode ter espaço uma queda maior de juros e esse é o canal que pode ajudar mais a atividade.”

Para Solange Srour, da ARX, a política monetária sozinha não vai reinstalar a confiança no Brasil porque o problema hoje é fiscal. Já Flavio Serrano, do Haitong, acredita que dificilmente cortes de juros mais acentuados salvariam o PIB deste ano, mas ele lembra que a desaceleração mais célere da inflação pode contribuir para a recuperação do rendimento médio real. A sensação, portanto, é que um PIB à beira da recessão em 2017 já está, em boa parte, contratado.

*COLUNISTA DO BROADCAST

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