Recessão volta a ameaçar a zona do euro

Economia estagnou no 2º trimestre, puxada por França, Alemanha e Itália

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS , O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2014 | 02h04

A Europa deu novos sinais de que pode voltar à recessão ainda em 2014. Dados divulgados ontem pelo Escritório Estatístico das Comunidades Europeias (Eurostat), em Bruxelas, indicam que a zona do euro estagnou no segundo trimestre do ano, após ter crescido apenas 0,2% no primeiro trimestre. O desempenho pífio foi puxado para baixo pela França, que registrou crescimento nulo; pela Alemanha, que decresceu 0,2% entre abril e junho; e pela Itália, que já voltou à recessão.

O fantasma de uma nova fase de decréscimo da atividade econômica retornou apenas um ano após o fim do último período recessivo enfrentado pela zona do euro. Segundo balanço do Eurostat, a queda do nível de investimentos e das exportações abalou as três maiores economias do bloco. O choque mais impressionante aconteceu na Alemanha, maior mercado da Europa, onde a queda das vendas ao exterior fez despencar o Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre.

Uma das razões para a desaceleração foi a crise da Ucrânia e a queda da atividade na Rússia, seu grande cliente. De acordo com o Deutsche Bank, a crise russa - acentuada pelos embargos econômicos - pode causar perdas de até 0,5% no PIB alemão e custar 25 mil empregos.

Na França, segundo maior mercado europeu, as notícias ruins são mais numerosas. Pela manhã, antes mesmo do anúncio oficial das estatísticas, o ministro de Finanças, Michel Sapin, veio a público informá-las: estagnação, previsão de elevação do PIB em 2014 revista para baixo - 0,5%, ante 1% estimado até aqui -, déficit público de 4%, acima do limite, e desemprego estrutural.

Na mesma direção, a Itália, terceira economia do bloco, voltou à recessão ao registrar dois trimestres seguidos de crescimento negativo: 0,1% e 0,2%, respectivamente. A exceção louvável foi a Espanha, que continua em processo de aceleração: 0,1% há um ano, 0,2% no fim de 2013, 0,4% no primeiro trimestre de 2014 e 0,6% de crescimento no segundo trimestre. "A Espanha é a boa notícia do momento", entende Bruno Cavalier, analista econômico do gabinete Oddo Securities. "Temos a imagem de um país que, pela força de ajustes profundos por causa da crise financeira, restaurou sua competitividade e recolocou sua economia na rota certa. Mas nem tudo são flores."

Outra boa notícia são o desempenho positivo de Portugal e de países do Leste Europeu, além do Reino Unido, fora da zona do euro, que cresce com vigor: 0,8%.

Deflação. Mas as boas notícias param por aí, já que o risco de deflação está mais presente desde o mês passado, com o aumento dos preços se limitando a 0,4% em julho. Diante da situação, autoridades de França e Alemanha passaram à discussão pública, via imprensa internacional, sobre alterar ou não os rumos da política econômica na União Europeia. Na manhã de ontem, o ministro de Finanças da França foi realista sobre a necessidade de reformas estruturais no país - que ele afirma estarem em curso -, mas não poupou críticas ao modelo europeu de austeridade fiscal para explicar a "pane de crescimento", exortando a União Europeia a mudar seu enfoque em direção ao estímulo, ao crescimento, e o Banco Central Europeu, a políticas mais agressivas, até mesmo por meio do aumento da liquidez e da leve desvalorização do euro.

"A Europa deve agir firmemente, adaptando de forma profunda suas decisões à situação particular e excepcional que nosso continente conhece", defendeu, advertindo: "A França usará seu peso nesse sentido".

Na quinta-feira, o presidente do Banco Central da Alemanha (Bundesbank), Jens Weidemann, havia criticado a França em entrevista ao jornal Le Monde. "Não cabe nem aos governos vizinhos, mas a cada governo criar no plano interior um ambiente favorável à inovação das empresas e ao emprego", alfinetou, exortando o governo francês a exercer "sua liderança dando o bom exemplo, em especial em assuntos fiscais".

O problema é que, com a nova "pane de crescimento" europeia, uma frente de países insatisfeitos com Bruxelas, com o rigor do BCE e com a Alemanha começa a se formar. Em Paris, o presidente François Hollande hoje conta com um aliado de peso: o primeiro-ministro da Itália, Matteo Renzi, uma das vozes emergentes no bloco. O resultado dessa aproximação deve ser conhecido nas próximas reuniões de cúpula da União Europeia, a partir de setembro. / COM FRANCE PRESSE

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