MESTRE EM FINANÇAS PÚBLICAS PELA FGV, CONSULTOR, MESTRE EM FINANÇAS PÚBLICAS PELA FGV, CONSULTOR, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2011 | 03h07

A cada dia avança mais a crise na Europa e nos EUA.

Na Europa, a falta de um acordo político que possa dar solução aos países com maiores dificuldades fiscais foi substituída por exigências do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Central Europeu e da Comissão Europeia de aperto fiscal e queda da atividade econômica para o pagamento integral das dívidas soberanas. Isso derrubou a economia, reduziu a arrecadação mais do que o corte de despesas, afastou mais ainda o objetivo do saneamento fiscal, criou intranquilidade social e desgaste político dos governos. Isso não se sustenta e a Grécia será a primeira a dar o calote na sua dívida, caso ela não sofra substancial redução com perda aos credores. É preciso ceder os anéis para não perder os dedos.

Para agravar o conturbado quadro recessivo, a Europa caminha rumo a uma crise bancária sem ter resolvido a crise da dívida soberana. Estão previstos planos de recapitalização de 16 bancos quase reprovados no último teste de resistência. Neste ano, até agosto, segundo o FMI, a perda de valor dos bancos europeus atingiu 400 bilhões, um recuo de 40%. E a situação só piorou em setembro. O socorro envolve principalmente bancos de porte médio - 7 espanhóis, 2 alemães, 2 gregos, 2 portugueses, 1 italiano, 1 de Chipre e 1 da Eslovênia. Mas o problema não se restringe a eles. Os bancos franceses estão na mira do mercado, com alta exposição às dívidas soberanas, e têm perdido fontes de financiamento em dólares garantidas por fundos de investimentos americanos.

Segundo o Relatório de Estabilidade Financeira Global, do FMI, quase metade dos 6,5 trilhões de títulos de governo da zona do euro apresenta riscos de crédito crescentes. A precária situação dos bancos indica novo aperto da oferta de crédito, junto com indicadores da zona do euro que mostram uma recessão a caminho. Dados divulgados dia 22 revelaram que a atividade empresarial da região teve sua primeira contração em dois anos.

Nos EUA, no campo político, tem-se a queda de braço entre democratas e republicanos antecipando a disputa presidencial. A economia não reagiu às elevações da liquidez conduzidas pelo Fed (o banco central americano) e a última decisão de troca de títulos de curto prazo por longo prazo revelou a falta de alternativas de saída para a crise americana.

O anúncio da "Operação Twist" pelo Fed, com o argumento de que há "riscos significativos" para a economia americana, trouxe alarme e incertezas ao mercado junto com indicadores registrando recuo da produção chinesa pelo terceiro mês consecutivo, algo só ocorrido na crise de 2008.

Os governos têm menos munição que na crise de 2008 para enfrentar a nova fase da crise financeira, advertiu a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde. Segundo a presidente Dilma Rousseff, no discurso de abertura da Assembleia-Geral da ONU, a solução depende da qualidade da ação política: requer ousadia, liderança e capacidade de coordenação e de mobilização. Isso está ausente nos fóruns internacionais.

A paralisia econômica na Europa e nos EUA já afeta a exportação dos emergentes, e a saída é ativar o mercado interno. O governo brasileiro já deu os primeiros passos para vitaminar a atividade econômica. Felizmente, em janeiro se terá o novo salário mínimo, com reajuste próximo a 14%, o que irá ativar o mercado. Embora possa significar uma ameaça para a inflação, terá mais importância para manter a economia aquecida e atenuar o desemprego.

Além do salário mínimo, o governo está ativando a economia ao dar mais recursos ao Bolsa-Família com o pagamento dos benefícios adicionais para filhos de até 15 anos - antes pagos para no máximo três filhos e ampliados para cinco. Deve-se comemorar a decisão do Banco Central de iniciar o processo de redução da Selic, que vai na direção correta da resposta à recidiva da crise diagnosticada a tempo pelo governo e criticada pelos analistas como precipitada.

Essa avaliação dos críticos vai perdendo força na medida em que avança a reincidência da crise. A trégua de 2010 acabou e a recidiva está aí.

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