Recife contrasta modernidade e pobreza

Região metropolitana da capital pernambucana cresceu bem acima da média do País entre 1990 e 2012, mas permanece altamente desigual

ANGELA LACERDA, CORRESPONDENTE / RECIFE, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2012 | 02h05

Formando do curso de Sistemas para Internet na Faculdade Marista, no Recife, Luciano Lucena, 22 anos, entrou no mercado de trabalho como estagiário, já no primeiro período. Seis meses depois, estava contratado. Hoje, trabalha no Porto Digital, parque tecnológico voltado para a tecnologia da informação e economia criativa.

"Aqui - e nessa área - não se fica desempregado", atesta Lucena, que se beneficia do forte crescimento econômico da capital, principalmente a partir dos anos 2000. A meta atual é qualificar-se cada vez mais e passar um período fora do País. "Recife ainda não oferece os salários do Sudeste, mas dá oportunidades.".

A cidade foi uma das capitais brasileiras cujo Produto Interno Bruto (PIB) per capita mais cresceu desde 1990 (54%) e gerou muito emprego no período (71% de aumento). Os dados integram um levantamento da Brookings Institution, feito para ajudar investidores a tomar suas decisões quando o Brasil é o alvo de seus dólares, euros, ienes, etc.

José Arivonaldo da Silva, 52 anos, dono da Recife Madeiras, acompanhou e se beneficiou da dinâmica da economia estadual, cuja maior tradução, na capital, se deu na prestação de serviços.

Nos últimos cinco anos, sua empresa, que tinha seis funcionários, passou para 45. A dificuldade de conseguir e manter mão de obra qualificada tem sido grande. "Se a gente não acompanha o mercado, não remunera bem, perde o funcionário."

De porte médio, sua empresa começou micro, em Caruaru, no agreste. As oportunidades na capital e a localização determinaram a transferência. A Recife Madeiras atende hoje inúmeras obras de grande porte ligadas à construção civil. "Investi e me especializei para atender a construção pesada", contou Silva, confiando que o mercado crescerá a taxas anuais de 10% nas três próximas décadas.

Embora não seja sede de nenhum dos grandes investimentos produtivos canalizados para Pernambuco na última década, Recife se aprimorou como provedora de serviços modernos para atender esse crescimento que se concentra principalmente na área industrial e portuária de Suape, na região metropolitana.

Oferece desde shoppings sofisticados a cursos universitários específicos para atender às necessidades do mercado. A implantação de estaleiros levou a cidade a oferecer o curso de engenharia naval, além de abrigar importantes centros de pesquisas.

Diferenças. O moderno e o sofisticado se misturam à pobreza, ao lixo, a sérios problemas de mobilidade urbana e à precariedade na infraestrutura básica. A informalidade ainda campeia, embora já se observe um processo de formalização: nos últimos dois anos, 25 mil empreendimentos individuais se regularizaram.

"Há concentração de renda, metade da população ainda é pobre e parte vive abaixo da linha da pobreza", reconhece o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, José Bertotti.

Segundo ele, para aproveitar a onda desenvolvimentista, a prefeitura decidiu investir em setores de ponta. Expandiu, por exemplo, o Porto Digital. A expectativa é a de que, até 2020, o parque tecnológico, primeiro no País a receber o selo de indicação de procedência do Instituto Nacional de Produção Industrial, chegue a 20 mil novos empregos com salários acima da média.

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