''Reclamar da taxa de juro é justo e legítimo''

Entrevista - Antonio Lima Neto: presidente do Banco do Brasil; presidente do BB justifica as críticas de Lula aos altos juros e spreads e diz que banco tem as menores taxas do mercado

Entrevista com

Adriana Fernandes, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

20 de dezembro de 2008 | 00h00

Nas últimas semanas, o Banco do Brasil ficou na berlinda com as críticas públicas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, contra os altos spreads e taxas de juros praticados pelo banco oficial. Em entrevista ao Estado, o presidente do BB, Antonio Lima Neto, afirma que viu a reclamação do presidente como "preocupação justa" e "legítima" para assegurar o crescimento do crédito e da economia. O banco diz que tem as menores taxas do mercado e vai continuar a reduzir juros.Por falta de referência de preços, Lima Neto disse que o BB elevou os juros nas duas primeiras semanas da crise. Mas, afirmou, as taxas já voltaram ao nível pré-crise. A seguir, os principais trechos da entrevista.Como o BB convive com a função de banco público e ao mesmo tempo ter que dar lucro? O dado-síntese que demonstra a boa gestão é o contínuo crescimento do resultado recorrente, que é aquele que extrai os eventos extraordinários. O Banco do Brasil tem crescido a sua carteira de crédito de maneira saudável. Nossa meta era atingir R$ 200 bilhões em outubro. Atingimos em junho. Em novembro, chegamos a R$ 229 bilhões e, agora, em 12 de dezembro, fomos para R$ 230 bilhões. Em um ano, é crescimento de 40%.Mas há a preocupação com a qualidade do crédito na crise? O nosso plano é baseado na seguinte lógica: temos a maior carteira de crédito, mas uma economia que começa a sofrer os efeitos da crise. Se dermos um sinal de que não vamos renovar a carteira de crédito, vamos atrair um risco muito grande. Seria um tiro no pé, com reflexos para o banco e para a economia. O Banco do Brasil é líder no financiamento agrícola e de comércio exterior. Resolvemos continuar financiando de maneira forte. De setembro até hoje, nossa carteira de crédito aumentou R$ 26,4 bilhões - R$ 20 bilhões para empresas.Mas essa estratégia não pode trazer custos mais à frente? Não flexibilizamos em nada a gestão de risco de crédito. Da operação mais simples à mais complexa, ninguém interfere. Numa operação de investimento de longo prazo, as premissas são as mesmas, ninguém domina o processo por inteiro. Temos hoje outro banco, que não tem nada daquilo de meados da década de 90, quando foram reconhecidas as perdas.Não existe a possibilidade, por exemplo, de o presidente Lula mandar o Banco do Brasil emprestar para uma estatal ou empresa privada? Não há esse risco, porque decisões de crédito são tomadas por "n" pessoas. São dez anos construindo a boa governança.Não há risco de descontrole da carteira de crédito? Não. Em dez anos passamos por várias crises e em nenhuma delas o banco geriu o crédito de maneira irresponsável para atender "a" ou "b". Ou tem uma lógica empresarial de decisão ou não sai o crédito.O banco recebe a cobrança por mais lucros, mas também há setores que querem um papel de Estado mais forte para o BB.O Banco do Brasil convive muito bem com seu lado comercial e o de política pública. Se esse é o nosso DNA, temos de conviver com esses dois lados com muita eficiência e dando resultados. Não temos nenhuma agência deficitária.Vai dar para sobreviver com essa dualidade num ambiente pós-crise mais competitivo? O Banco do Brasil se preparou muito para isso. Conquistamos as folhas de pagamento do Maranhão, Bahia e Minas. Compramos a Nossa Caixa, que nos torna líder em São Paulo, o Estado com a maior renda. Comp desse procesramos o Besc (Banco Estadual de Santa Catarina) e somos o principal banco do Nordeste, Norte, Sul e Centro-Oeste. Vamos sairso muito bem.Mas o Banco do Brasil, na crise, por outro lado, perdeu a liderança. Mas quebramos paradigmas e fizemos aquisições que nunca tínhamos feito. Fomos vencedores em todas as oportunidades ao nosso alcance. Fizemos um "turn over", aumentando o crédito, o resultado do banco e comprando instituições.Como o sr. encara as reclamações do presidente? Eu encaro como preocupação natural e legítima. O País até o terceiro trimestre crescia a mais de 6% ao ano. Seria uma fatalidade interromper o crescimento. Não existe nada mais legítimo, da parte do governo, do que querer manter um ritmo mínimo da economia.É justa essa reclamação? É justa a preocupação do presidente. Como maior banco de crédito, o BB tem uma "operação brasileira" muito forte. A crise trouxe para o BB uma enorme responsabilidade. Imagina de uma hora para outra estancar o crédito no Brasil!O presidente Lula quer que o BB reduza os juros. O BB pode reduzir? O BB sempre teve as menores taxas. Entendemos a preocupação do presidente em relação aos spreads. No caso do BB, quanto mais eficientes, mais vamos reduzir os preços (do dinheiro). E temos feito isso. Hoje nossas taxas de juros estão entre as menores.Não há risco de a inadimplência se generalizar?Não acredito em inadimplência. Acredito no aumento da quantidade de ajuste para adequar os fluxos de caixa das famílias e das empresas. Os ajustes (renegociações) são necessários e vão acontecer. São amortecedores para a inadimplência clássica. Não existe mais a situação em que o cliente não pagou e o banco não quer mais conversar com ele.O Banco do Brasil aumentou os juros na crise? Tivemos, nas duas primeiras semanas, uma distorção porque praticamente ficamos só nós no mercado de crédito. Não havia referência e aí teve ajuste de taxas. Depois elas voltaram ao patamar pré-crise.Quais as perspectivas para 2009? Continuar a crescer. Com a Nossa Caixa, vamos ganhar muito em sinergia e eficiência em São Paulo.

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