Recompra de ações na Bolsa pode movimentar R$ 18 bi

Só neste ano, 30 empresas de capital aberto optaram por comprar suas próprias ações; no total, 70 programas já foram aprovados

FERNANDA GUIMARÃES , O Estado de S.Paulo

13 Abril 2015 | 02h05

Um grupo de companhias com dinheiro em caixa e com ações em queda na Bolsa tem usado parte das reservas para comprar suas próprias ações, aumentando o ritmo de lançamento de programas de recompra. Os cerca de 70 programas aprovados e em curso, considerando as informações anunciadas pelas empresas, têm potencial para movimentar até R$ 18 bilhões. Só neste ano, quase 30 empresas de capital aberto optaram por essa manobra.

Segundo especialistas, o número de programas com essa característica tem potencial para crescer ainda mais em razão da queda das cotações ao longo dos últimos meses. "Uma empresa decide fazer a recompra quando ela se mostra a melhor aplicação para os recursos disponíveis. A perspectiva é de que essa operação terá melhor retorno do que outro tipo de investimento", diz o estrategista da Guide Investimentos, Luiz Gustavo Pereira.

Esses programas aparecem como alternativa quando as ações precificadas pelo mercado estão abaixo do valor que consta na avaliação da própria companhia. Portanto, o retorno da recompra, nesses casos, é superior ao de um aporte no próprio negócio, explica o professor de Finanças da FEA-USP, José Roberto Savóia.

Considerando apenas as empresas do Ibovespa, levantamento realizado pela Economática, a pedido do Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, mostra 21 companhias com o valor de mercado inferior ao patrimônio líquido. Dessas companhias, sete têm programas de recompra em curso: Gafisa, Bradespar, MRV, Banco do Brasil, Cyrela, Gerdau e Santander. Mas não são todas as empresas da lista que dispõem de um caixa robusto para fazer a recompra, como no caso da Petrobrás.

"Essa é mais uma sinalização de confiança por parte da empresa aos investidores", afirma o analista da Alpes/Wintrade, Bruno Gonçalves. Entre os programas de recompra em curso estão o da BM&FBovespa, Braskem, Cia Hering, Cetip e Bradespar.

Do lado dos investidores, esses programas são bem recebidos, principalmente quando há o cancelamento das ações em tesouraria - isso reduz a base acionária e engorda o lucro por ação. Além disso, a distribuição de dividendos para os acionistas também aumenta. "O aumento do dividendo por ação cria um potencial benefício para o acionista", diz o coordenador do curso de Administração do Ibmec/MG, Eduardo Coutinho.

Como funciona. Para fazer um programa de recompra de ações, as companhias devem ficar atentas às regras da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A autarquia veda, por exemplo, que o programa seja usado para "criar condições artificiais de demanda, oferta ou preço das ações ou envolver práticas não equitativas". Em geral, as ações assumem um viés de alta nos primeiros dias após o anúncio de recompra.

Entre os programas de recompra em curso o que mais chama a atenção é o da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), que anunciou seu nono programa em um prazo de aproximadamente um ano. "Os programas da CSN são agressivos, em um prazo muito curto", afirma Pereira, da Guide. O último programa foi anunciado há duas semanas, para permanência em tesouraria e posterior alienação ou cancelamento.

James Gulbrandsen, sócio da NCH Capital, gestora especializada em mercados emergentes com sede em Nova York, destaca que o investidor precisa ficar atento aos programas anunciados, já que alguns não são bem executados - há empresas que anunciam a recompra mas que, ao final, fazem poucas aquisições.

Gonçalves, da Alpes/Wintrade, destaca que o acionista também precisa ter atenção aos volumes dos programas, já que alguns têm como objetivo, apenas, a aquisição para as stock options, que são uma forma de recompensa financeira a executivos, via ações.

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