Fabio Motta/Estadão - 21/5/2019
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'Recorde do PIB não significa o fim dos problemas', diz economista

Para Silvia Matos, do Ibre/FGV, o desempenho fraco da economia no fim de 2020 deve levar a uma estagnação no começo do ano que vem

Entrevista com

Silvia Matos, economista do Ibre/FGV

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2020 | 12h17

O processo gradual de reabertura da economia no terceiro trimestre e os efeitos no consumo do auxílio emergencial dado aos brasileiros mais afetados pela crise da covid-19 fizeram o Produto Interno Bruto (PIB) subir 7,7% no período, em comparação com o segundo trimestre.

Para Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), no entanto, a alta recorde não significa o fim dos problemas causados pela pandemia e o desempenho fraco da economia no fim do ano deve levar a uma estagnação no começo do ano que vem. "A gente sabia que alguns setores estariam bem atrás, e muito estão bem distantes do patamar do terceiro trimestre do ano passado."   

A seguir, trechos da entrevista.

O recorde do PIB no terceiro trimestre vem de uma base fraca, apesar de ser recorde. É um desempenho bom ou ruim?

Olhando só para o resultado do terceiro trimestre, acho que em termos de composição, veio até um pouco melhor do que eu imaginava - mas isso não quer dizer que eu esteja otimista. A gente sabia que alguns setores estariam bem atrás, e muito estão bem distantes do patamar do terceiro trimestre do ano passado, mas caso eu não estivesse olhando para o desempenho fraco do quarto trimestre, os dados do terceiro trimestre até poderiam me empolgar. 

Ou seja, o presente e o futuro da economia ainda assustam? 

O recorde do PIB não significa o fim dos problemas. O quarto trimestre tem sido desafiador e devemos ter um começo do ano que vem ainda muito difícil. A gente está prevendo um crescimento de 1,3% no quarto trimestre deste ano e 4,7% de queda do PIB para este ano. E só no segundo semestre do ano que vem o País deve conseguir acelerar o crescimento. 

O desempenho do setor de serviços ainda preocupa?

Está difícil olhar com segurança para os dados de serviços, temos poucas informações. A visão que eu tinha era a de que esses segmentos, que pesam muito no PIB, deveriam frustrar as expectativas. Mas como a gente teve uma revisão um pouco menor do terceiro trimestre de 2019, o que veio agora pode até ser lido como uma notícia boa (o setor cresceu 6,3% em relação ao segundo trimestre). Os resultados mostram um pouco mais a normalização da economia, ainda que muito distante do ideal.

Chegou-se a falar de uma recuperação rápida, mas o quarto trimestre está sendo difícil. Houve otimismo demais?

É preciso ter cuidado ao se vender expectativas, a frustração é muito ruim, ainda mais em um contexto como este, não só de incertezas domésticas, mas mundiais também. O mercado sobe quando vem a vacina, mas tem um purgatório antes do paraíso. É preciso ter uma agenda mais clara para atravessar esse nevoeiro e os riscos hoje são mais negativos do que positivos, tem mais pressão por gastos por parte do governo, que podem ser ruins na dinâmica de inflação e juros. 

Mas a frustração é que havia um otimismo exagerado com o terceiro trimestre e que tudo passaria rapidamente. Pandemia é uma coisa demorada. A gente vai começar 2021 mal e podemos nos sair bem, caso o País se mantenha no trilho fiscal. Só que ainda não sabemos o que vai sair desse debate intenso entre as demandas da sociedade e a falta de espaço no Orçamento. Mesmo que o governo consiga uma redução com as despesas, não vai poder dar nenhum auxílio aos mais pobres similar ao que se teve em 2020.

As incertezas sobre a vacinação, por parte do governo, podem postergar a recuperação da economia no ano que vem? 

Sim, o que resolve o problema não é a vacina, mas a vacinação. A Europa vai mostrar logo a importância do planejamento - mesmo sendo países menores e de menor população. Eles devem se recuperar rapidamente no ano que vem e isso vai mostrar que quanto mais cedo houver a vacinação, melhor. Algumas vacinas são mais caras e difíceis de transportar do que outras, mas os governos que estão mais organizados devem conseguir fazer isso mais facilmente. É um desafio logístico muito grande e o Brasil não saber quando vai começar a vacinar é preocupante. Não sabemos se essa nova onda vai demorar a passar e precisamos ver se ela será controlada.

Isso pode aumentar a insegurança?

Algo que me preocupa é se o setor privado começa a vacinar antes do setor público. Isso daria uma sensação muito ruim. A gente não saber se vai conseguir fazer uma vacinação em massa também não é uma coisa fácil. Por isso, planejamento e liderança são tão importantes, mas falta um horizonte e uma segurança para a população, tanto do ponto de vista da saúde quanto da economia. Vamos pensar no fim do auxílio emergencial, previsto para dezembro: como o País vai enfrentar essa questão no ano que vem? A gente tem o Bolsa Família, um programa bem desenhado, outro de incentivo aos negócios, mas nada desenhado para a informalidade. É muito decepcionante: a pandemia expôs muitas desigualdades do mercado de trabalho, que sempre estiveram ali, mas não eram notadas.

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