Wu Hong/EPA/EFE
Wu Hong/EPA/EFE

Covid-19

Bill Gates tem um plano para levar a cura do coronavírus ao mundo todo

Recuo do PIB da China põe em xeque recuperação global

Queda de 6,8% é a primeira reconhecida pelas estatísticas oficiais desde os últimos dias da Revolução Cultural em 1976

Keith Bradsher, The New York Times

18 de abril de 2020 | 06h00

PEQUIM - O surto de coronavírus pôs fim ao extraordinário ciclo de quase meio século de crescimento da China – e acende um alerta sobre o enorme desafio que se coloca diante dos líderes mundiais que tentarão reiniciar a economia global.

As autoridades chinesas disseram na última sexta-feira, 17, que a segunda maior economia do mundo encolheu 6,8% nos primeiros três meses do ano, em comparação ao ano passado, encerrando uma série de crescimento que sobreviveu à violência da Praça Tiananmen, à epidemia de SARS e até à crise financeira global. Os dados refletem os dramáticos esforços da China para conter o coronavírus, os quais incluíram o fechamento de fábricas e escritórios em janeiro e fevereiro, quando o surto fez milhares de doentes.

Os números alarmantes deixam claro quão monumental será o desafio de recuperar a economia global. Desde que saiu do isolamento e da extrema pobreza há mais de 40 anos, a China talvez tenha sido o motor de crescimento mais importante do mundo – gerando fortunas em outros tempos conturbados, como a crise financeira.

Agora, o país está tentando reiniciar sua vasta economia de US $ 14 trilhões, um esforço que poderia dar uma injeção de ânimo necessária ao resto do mundo. A disseminação do coronavírus pelos EUA e pela Europa, congelando as economias locais, suscitou previsões de que a produção mundial poderá encolher muito mais este ano do que durante a crise financeira.

Essa interrupção global, por outro lado, prejudicará os esforços chineses para voltar aos trilhos, criando um difícil quebra-cabeças econômico para os principais líderes de Pequim. A pandemia e as tentativas de contê-la reduziram drasticamente o apetite mundial pelos produtos chineses, o que pode ocasionar paralisações de fábricas e dispensas de trabalhadores, mesmo enquanto o país tenta retomar os negócios.

A China foi retirando gradualmente muitas de suas restrições ao trabalho e às viagens nas últimas semanas. Mas empresários de todo o país dizem que os tempos continuam difíceis. As famílias dizem que perderam renda.

“O ano está difícil – muitos perderam o emprego, muitos outros não conseguem encontrar trabalho”, disse Liu Xia, vendedor de frutas de uma vila nos arredores de Pequim. “Quem ainda tem trabalho, quem ainda tem algum negócio é muito afetado.”

A contração, anunciada ontem pela manhã em Pequim pelo Serviço Nacional de Estatística da China, é o primeiro encolhimento econômico reconhecido pelas estatísticas oficiais desde 1976, quando o país vivia os últimos dias da Revolução Cultural, uma convulsão nacional de tortura e violência urbana.

Estratégia

A série histórica de crescimento foi alimentada pela criação de uma extensa e moderna rede de rodovias e ferrovias, pelo forte empreendedorismo de seu povo, por sua força de trabalho qualificada e por um governo que se dispôs a deixar de lado as preocupações ambientais e trabalhistas em nome do eterno crescimento da produção econômica. Mas esses fatores não foram páreo para a covid-19, que, depois de surgir na cidade de Wuhan no final de dezembro, paralisou o enorme mecanismo da indústria do país.

As opções de Pequim são limitadas. Até o momento, seus líderes evitaram a formulação de um enorme pacote de gastos, como fizeram governantes nos EUA e na Europa. Sua economia se tornou grande e complexa demais para ser reiniciada com facilidade, como em 2008, quando o governo apresentou um plano para gastar mais de meio trilhão de dólares. Anos de empréstimos facilitados também deixaram governos locais e empresas estatais em dívida.

No entanto, os líderes da China enfrentam pressão para agir. A queda na renda obrigou as famílias a reduzirem seus gastos. Han Xiaojuan, de 35 anos, tem uma pequena loja que vende jaquetas e chinelos. Ele disse que hoje em dia as pessoas só estão comprando artigos de primeira necessidade. “É o pior momento de todos os tempos.”

O efeito continuado da epidemia apareceu em outros dados divulgados ontem. Esses dados, assim como os números sobre importações e exportações divulgados terça-feira, mostraram que a economia começou a se recuperar, mas ainda tem um longo caminho pela frente.

A produção industrial caiu 1,1% em março em relação ao mesmo período do ano passado, e as vendas no varejo despencaram 15,8%. O investimento em ativos fixos caiu 16,1% nos três primeiros meses do ano, ante o ano anterior.

O próximo baque para a economia da China pode vir do enfraquecimento da demanda global por suas exportações. Empresários dizem que o fechamento quase completo das fronteiras da China, para limitar uma potencial segunda onda de infecções, prejudicou os pedidos de exportação. 

Outra preocupação é saber quantas pequenas e médias empresas conseguirão sobreviver às adversidades atuais. Mesmo antes da pandemia, muitas dessas empresas estavam em dificuldades, pois as estatais com melhores conexões políticas vinham monopolizando cada vez mais os empréstimos oferecidos pelo setor bancário, que é controlado pelo Estado./TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.