Recuo do PIB estimula liquidações

Mudança nas projeções de crescimento da economia para 2011, que havia estimulado o acúmulo de estoques, impôs um freio na produção

Márcia De Chiara, de O Estado de S.Paulo,

12 de novembro de 2011 | 20h48

SÃO PAULO - As consultorias cortaram as projeções de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para este ano e já consideram que a economia cresça até menos de 3%. Foi exatamente essa correção de rumo da atividade em mais de 1 ponto porcentual, já que o mercado projetava um acréscimo de até 4,5% do PIB, que provocou acúmulo de estoques na indústria e no varejo e, agora, sustenta as liquidações.

"Para desovar o estoque é preciso pisar no freio da produção e derrubar preço. O ajuste é mais demorado nos bens de maior valor", afirma o economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges. A consultoria, que esperava aumento de 3% do PIB para este ano, acaba de reduzir a taxa de crescimento para 2,8%.

A MB Associados, por exemplo, é outra consultoria que ajustou o prognóstico de crescimento para 2011de 3,8% para 3,1%. Para 2012, o corte foi de 4% para 3,5%. A RC Consultores também cortou de 3,3% para 3% a expectativa de alta do PIB deste ano.

"As empresas erraram a mão", diz Borges. Muitas delas planejaram a produção e as vendas para este ano contando com alta do PIB entre 4% e 4,5%, que agora caminha para menos de 3%. "Os estoques, que antes eram considerados adequados, ficaram excessivos e isso vira custo."

O economista observa que, apesar do ajuste em curso na indústria, o nível de encalhe de bens duráveis nas fábricas é muito parecido com o do início de 2009, quando a atividade sentia os impactos da crise.

Sondagem da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostra que o porcentual de indústrias com estoques excessivos de bens de consumo em outubro (11%) é bem maior que a fatia de companhias com produtos insuficientes (1,3%). Dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) indicam que estoques de veículos espalhados entre lojas e fábricas equivale hoje a 40 dias de vendas. Só perdem para dezembro de 2008, quando os volumes chegaram a 57 dias.

A média diária de licenciamentos de automóveis e veículos comerciais leves, descontadas as influências sazonais, que estava em torno de 13,8 mil por mês até julho, caiu em agosto para 13,2 mil. Em setembro, recuou para 13,1 mil, e em outubro baixou para 12,7 mil, o menor volume desde de junho de 2010. "Depois das medidas macroprudenciais, as vendas de veículos já tinham parado de crescer. E de quatro meses pra cá desceram ladeira abaixo", diz Borges.

Na opinião do economista, o menor ritmo de crescimento do PIB hoje ainda é reflexo das medidas macroprudenciais adotadas no fim do ano passado pelo Banco Central para esfriar a economia e do aumento dos juros. "O cenário internacional vai pesar sobre a nossa economia no último trimestre."

Já para o sócio da RC, Fabio Silveira, o ajuste reflete a crise internacional. "As empresas ignoraram no planejamento a crise europeia. Olharam para a árvore e não para a floresta."

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