Recuo do varejo leva a revisão do PIB

Comércio cai 0,9%, pior resultado para o mês de março em 12 anos, e faz economistas rebaixarem previsões para o PIB do 1º trimestre

IDIANA TOMAZELLI / RIO, O Estado de S.Paulo

15 Maio 2015 | 02h04

As vendas no chamado varejo restrito, que mede a compra de produtos para o dia a dia das famílias como alimentos, vestuário e combustíveis, tiveram o pior mês de março em 12 anos. Encerraram o primeiro trimestre com a queda mais intensa para o período desde o início de 2003, informou ontem o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O recuo entre janeiro e março foi de 1,7% em relação aos últimos três meses de 2014, puxado por móveis, eletrodomésticos e combustíveis e lubrificantes.

O varejo ampliado, que inclui veículos e material de construção, também bateu recordes, com o pior índice de vendas para um primeiro trimestre em toda a história da pesquisa. O menor crescimento da renda das famílias, a desaceleração do crédito, o temor do aumento do desemprego e a inflação elevada são apontados como fatores por trás da decisão dos consumidores de pisar no freio.

Apenas no mês de março, o varejo restrito registrou queda de 0,9% em relação a fevereiro, enquanto o varejo ampliado teve recuo de 1,6% no período. Em ambos os casos, é o pior resultado para o mês desde 2003.

Revisão do PIB. Os resultados foram piores do que o esperado em média pelos economistas. Alguns anunciaram que vão rever suas projeções para o Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre, que será anunciado pelo IBGE em 29 de maio, e talvez até para um período mais longo.

"O fato de ter vindo pior que o imaginado também coloca uma visão (mais pessimista) sobre a economia em 2016", ponderou o economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito. "Todo o ajuste praticamente será em cima dele (varejo)." Já a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) passou a prever queda de 0,4% no volume de vendas do varejo este ano, algo inédito desde 2003. "A confiança dos consumidores, abalada pela queda no nível de atividade econômica e seus reflexos sobre o mercado de trabalho, tem impedido qualquer reação do setor, a despeito do recuo da inflação nos produtos comercializáveis", analisou Fabio Bentes, economista da CNC.

No mês de março, sete das dez atividades pesquisadas no varejo ampliado tiveram vendas menores do que em fevereiro. Os bens que dependem de crédito registram as perdas mais intensas. No segmento de móveis e eletrodomésticos, o volume caiu 3%, enquanto no setor de veículos, a queda foi de 4,6% na passagem do mês.

"O segmento (de veículos) vinha recebendo muitos incentivos do governo para as vendas, e agora a redução do ritmo é bem clara. Com a retirada do desconto no IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), a conjuntura econômica desfavorável, a restrição ao crédito e a menor renda, é normal que as famílias coloquem o pé no freio no consumo desse bem", afirmou Juliana Paiva, gerente da Coordenação de Serviços e Comércio do IBGE.

Corte no supermercado. Mas não é só a desaceleração do crédito que está deprimindo a demanda das famílias. O menor crescimento da renda dos trabalhadores e a inflação em alta estão promovendo uma espécie de contingenciamento na lista de compras de supermercado. Com isso, o setor ficou no vermelho pelo segundo mês seguido. "As famílias estão cortando os bens que não são essenciais da lista de supermercado. É a primeira coisa que se faz quando se está com restrição orçamentária", disse a gerente.

As vendas de equipamentos de informática e de outros artigos de uso pessoal e doméstico aumentaram em março ante fevereiro, em parte por causa da queda nos preços de computadores e as vendas de ovos de Páscoa, respectivamente.

Em relação a março de 2014, as vendas no varejo restrito subiram 0,4%. "A alta sobreviveu por causa do calendário", disse Juliana. Segundo ela, março deste ano teve três dias úteis a mais. / COLABORARAM MARIA REGINA SILVA E ÁLVARO CAMPOS

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