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Recuperação

Mundo se depara com previsões muito mais favoráveis para o ano que começou

Albert Fishlow, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2021 | 05h00

O carnaval deste ano acabou. Como tantas outras comemorações nestes últimos 12 meses, as festas se confrontaram com a realidade de uma pandemia internacional em curso. As crises e o número estratosférico de mortes humilharam ministérios da saúde e hospitais.

Com o início da quaresma, o mundo se depara com previsões muito mais favoráveis para o ano que começou. Os Estados Unidos, e muitos outros países desenvolvidos e em desenvolvimento, agora começam seriamente a enfrentar as inúmeras tarefas de reparo do tecido internacional dilacerado nos últimos anos. Inquestionavelmente, trata-se de algo mais significativo do que a recuperação de esquemas de cooperação aceitáveis em lugar da negação.

Quatro questões centrais, e há outras, exigem implementação:

– Acordos de cooperação para garantir amplo e permanente acesso às tão necessárias vacinas para derrotar a epidemia do coronavírus. A Organização Mundial da Saúde é logicamente o ponto focal do programa, com sua produção constante em países como na Europa, EUA, China, Índia, Brasil, Rússia e outros. Tudo isso vai além dos esforços iniciais dos primeiros anos do século 21.

– O retorno dos EUA ao cenário internacional, não para satisfazer ambições mercantilistas e exibir capacidade militar, mas para permitir a atuação de uma diplomacia eficiente e séria. A variedade desses acordos se estende da estruturação do acordo nuclear inicial com o Irã a novos esforços de paz no Oriente Médio, ao fortalecimento da Organização Mundial do Comércio a fim de assegurar a orientação para um sistema de intercâmbio internacional que acabou se tornando cada vez mais fonte de discórdia. 

– Desempenhar um papel produtivo na questão da mudança climática. Poucos temas foram mais abertamente rejeitados pelos adversários conservadores. O Acordo de Paris – e a cooperação internacional implícita na tentativa de conter o aquecimento global – foram vistos com menosprezo. Este acordo, com o apoio quase universal dos outros governos, foi culpado pela falta de progresso na produção interna de petróleo e de fracking (fraturamento hidráulico).

– China e Estados Unidos precisam procurar meios positivos para avançar nos próximos anos, como maiores economias da comunidade internacional. Os problemas no campo dos direitos humanos não desaparecerão, e continuam em outros países, como a Índia. Ninguém pretende ignorá-los, mas eles não implicam a incapacidade de definir temas em que a cooperação pode ser produtiva, embora incompleta. 

O presidente Biden foi além, enfatizando outros aspectos futuros, sem excluir a ajuda a setores internos a fim de assegurar a sua viabilidade em relação às importações. Isso está implícito no compromisso de garantir a criação de empregos bem pagos no futuro, aumentando o papel atualmente reduzido dos sindicatos. E tudo isso aumenta, em lugar de reduzir, a oposição republicana, até mesmo entre os que se opõem a Trump.

Joe Biden é um político há muito tempo atuante, que aprendeu muito durante seus longos mandatos no Senado e nos oito anos na vice-presidência. Ele compreende a realidade dos compromissos reiterados no Congresso e no Executivo. Ele é de centro, mas capaz de mudar, como mostra claramente o seu currículo político. Ele é um homem de palavra.

O presidente Bolsonaro, por outro lado, acredita profundamente em Trump. Seu populismo nacional militarista – e a sua incapacidade de compreender a economia – certamente correspondiam aos da turba enfurecida que invadiu o Capitólio em janeiro. Ele mudou repetidamente de partido, mas jamais as suas posições pessoais ou os compromissos com a família. O seu Brasil espera que a política dos EUA continue imutável, apesar da transição política.

Na Casa Branca, muitos dias de intenso trabalho se passarão antes que os primeiros sinais definitivos dos efeitos dos compromissos de Biden, internos e externos, sejam registrados. O controle, por uma margem estreita seja dito, da Câmara do Senado e do Executivo prometem prever que dias mais felizes virão. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*ECONOMISTA E CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR EMÉRITO NAS UNIVERSIDADES DE COLUMBIA E DA CALIFÓRNIA EM BERKELEY. ESCREVE MENSALMENTE

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