Recuperação a caminho

Depois de desacelerar, a economia brasileira deve voltar a crescer em um ritmo mais forte agora no segundo semestre do ano.  Pode  crescer 2,0% este ano. Sem otimismo, mas sem excesso de pessimismo que agora parece estar dominando o mercado. É essa a previsão do BNP Paribas, em análise divulgada esta  semana, situando o Brasil no contexto mundial.

ALBERTO TAMER, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2012 | 03h08

Em conversa com a coluna, o economista-chefe para a América Latina do banco, Marcelo Carvalho, oferece mais dados e lembra que o BNP Paribas   foi a primeira instituição a prever crescimento no Brasil abaixo de 3,0% em 2012.

E isso há vários meses, ainda no ano passado. Era  o que se esperava como consequência das turbulências lá fora e do aperto monetário anterior, aqui dentro.

Mercado exagera. "Nossa projeção, que antes parecia extremamente pessimista, hoje começa a parecer otimista, pois o consenso do mercado está caindo abaixo da marca de 2,0%," afirma ele.

No banco, "o problema é que agora o consenso de mercado talvez esteja errando a mão e exagerando no pessimismo, assim como o consenso antes errou ao exagerar no otimismo". Na visão do BNP, a recuperação já está contratada, e a economia dever terminar 2012 melhor do que começou o ano.

Há  sinais de que o segundo semestre será melhor que o primeiro, embora ainda leve algum tempo para isso ficar mais claro nos dados. Aliás, essa  visão é agora compartilhada também pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que   em relatório divulgado na tarde de sexta-feira, prevê que o Produto Interno Bruto (PIB) a crescer este ano  2,5%.

Reflexo de 2011. O desempenho da economia brasileira em 2012 deve ser um espelho de 2011. "A economia entrou em 2011 com um ritmo forte, mas foi perdendo fôlego, e acabou o ano com um desempenho fraco. Este ano, deve ser o contrário. A economia começou 2012 em banho-maria, mas deverá acelerar no segundo semestre, rumo a 2013", prevê Marcelo Carvalho.

Mas, pergunta a coluna, e as incertezas externas com uma economia mundial desacelerando?  Quais são os problemas, as "pedras no caminho" que ainda podem aparecer?  

Há fatores externos e domésticos a considerar. A piora das condições globais no segundo semestre do ano passado intensificou uma desaceleração doméstica que já estava em curso, em reação ao aperto anterior da política no primeiro semestre de 2011. Ou seja, o choque externo no ano passado foi um empurrão ladeira abaixo. Este ano deve ser diferente, diz o economista chefe do BNP Paribas.

No cenário internacional, obviamente há inúmeras incertezas. É claro que o Brasil é afetado pelo que acontece no resto do mundo - como ficou claro com a crise financeira global de 2008/2009. "Entretanto, apesar das inevitáveis turbulências ao longo do caminho, o cenário central contempla uma economia global que volta a caminhar em  2013 com perspectivas melhores do que começou 2012, se tudo der certo."

A economia americana parece se acomodar em um patamar de crescimento positivo, embora ainda frustrante para padrões pré-crise. A economia europeia enfrenta desafios importantes, mas pode ganhar perspectivas melhores se as autoridades souberem responder à altura dos desafios.  Por sua vez, espera-se que a economia da China acelere rumo ao ano que vem, em reação a medidas de estímulo.

E no Brasil?  No terreno doméstico, responde ele, a recuperação está a caminho. É uma "reação defasada" ao afrouxamento monetário em curso desde o terceiro trimestre do ano passado, além de outras várias medidas expansionistas recentes.

Afinal, diz o  economista-chefe do BNP Paribas, estimular o crescimento se tornou uma prioridade de governo, muito mais do que apenas uma questão de política monetária.

O BC está certo. O Banco Central está coberto de razão quando destaca os efeitos "cumulativos e defasados" da política monetária". A política monetária funciona; demora, mas não falha. A queda contínua dos juros, desde agosto do ano passado, certamente tem impacto expansionista sobre a atividade doméstica, embora com defasagens. Mesmo que a economia tenha começado o ano com um desempenho mais fraco do que a maioria imaginava, o crescimento deve ganhar força ao longo de 2012. A economia deve terminar o ano de 2012 melhor do que começou.

Um novo desafio. Para Marcelo Carvalho, o  outro lado da moeda é que a inflação deve voltar a ser uma preocupação, mais cedo ou mais tarde.  A forte elevação dos  preços de commodities agrícolas no mercado internacional, que está acontecendo  - mais a desvalorização do câmbio -, deve colocar alguma pressão na  inflação já nos próximos meses.

"O que mais preocupa, porém, olhando para 2013, é a inflação de serviços, que tem permanecido em patamar teimosamente elevado." Em outras palavras, o debate econômico deve mudar.  Se hoje a grande preocupação é  como estimular um crescimento que tem frustrado as expectativas do governo, é bem possível que em menos de um ano as atenções tenham de se voltado para como conter pressões crescentes de inflação.

De qualquer modo, o cenário para este ano é de desempenho da economia no segundo semestre melhor do que foi nos primeiros meses do ano. O crescimento médio do ano será menor do que muitos imaginavam inicialmente. Mas não há razões para pessimismo exagerado, a recuperação está a caminho - conclui Marcelo Carvalho.

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