Kroton/ Divulgação
Kroton foi a mais impactada pela crise, mas também foi a que se recuperou mais rápido. Kroton/ Divulgação

Recuperação da Cogna é mais lenta do que de rivais do setor de educação

Desempenho do grupo no mercado financeiro é resultado da desconfiança que paira sobre a empresa, mesmo após o anúncio da reestruturação

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2021 | 05h00

A Cogna é a empresa de educação listada na Bolsa que mais tem sofrido para se recuperar do baque da pandemia. Suas ações estão cotadas hoje a 37% do valor de antes da chegada do coronavírus ao Brasil, enquanto os papéis da Ânima já valem 80%, os da Yduqs (antiga Estácio), 59% e os da Ser, 47%. “A Kroton foi a educacional mais impactada nesta crise e, diferentemente das demais educacionais, que estão aproveitando o contexto para realizar consolidações e ampliar as sinergias contratadas, a Kroton está focada em reestruturação”, diz relatório da Eleven Financial publicado em fevereiro.

O desempenho no mercado financeiro é resultado da desconfiança que paira sobre a empresa mesmo após o anúncio das modificações. Em fevereiro, quando a Cogna anunciou um acordo com a Eleva Educação, houve decepção entre investidores. Pelo contrato, a Cogna se desfez de seus 51 colégios por R$ 964 milhões (R$ 625 milhões serão quitados em cinco anos e o restante, convertido em debêntures). Em contrapartida, comprou o sistema de ensino da Eleva por R$ 580 milhões.

Investir em colégios era uma aposta recente do grupo, que vinha comprando ativos de alto padrão no segmento. O movimento, porém, elevou a complexidade de operação. Analistas consideraram acertada a venda das escolas, mas, para o BTG, o negócio não foi suficiente para reduzir a pressão das dívidas sobre a companhia. Na visão da Eleven, o acordo foi um passo importante para a empresa ter estrutura mais “leve”, mas deve demorar para trazer resultados. 

 Há 15 dias, quando o grupo apresentou seus resultados de 2021 – um prejuízo de R$ 5,8 bilhões –, os analistas do BTG Pactual disseram que novos ajustes podem ser necessários. O Bradesco BBI classificou os resultados como fracos e afirmou que a Kroton ainda sofrerá pressão. Os analistas destacaram que a alavancagem é fonte de preocupação, mas que o grupo pode começar a colher resultados da reestruturação. Apenas o Santander foi mais otimista, afirmando que o resultado operacional foi baixo “estritamente” devido a uma provisão para inadimplência “extraordinária”.

Aos analistas, o presidente da Cogna, Rodrigo Galindo, admitiu que 2020 foi difícil, mas destacou que foram feitos os “ajustes necessários para retomar a rentabilidade em 2021”.

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Cogna tenta voltar à fase áurea, mas enfrenta desconfiança de investidores

Endividamento e percepção de baixa qualidade de cursos fazem dona da Kroton amargar queda de 76% ante seu pico de valor de mercado

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2021 | 05h00

Correções: 15/04/2021 | 13h00

Bem longe de seu auge – quando chegou a valer no mercado R$ 32,8 bilhões, em 2017 –, o grupo de educação Cogna vem se reestruturando para tentar recuperar a credibilidade com investidores. Em meio à pandemia, que atingiu em cheio o setor de educação, anunciou corte de gastos, ampliação da graduação a distância em detrimento do ensino presencial e fez um acordo de compra e venda com a Eleva Educação, que tem o empresário Jorge Paulo Lemann como sócio. Porém, nada foi suficiente, até agora, para reverter a percepção de que a empresa perdeu competitividade. Hoje, o valor de mercado da Cogna é de R$ 7,7 bilhões – queda de 76% na comparação com a fase áurea.

A avaliação dos especialistas é que a empresa está muito endividada e exposta a um risco maior de aumento de inadimplência do que suas concorrentes. A dívida líquida da Cogna ficou em R$ 2,9 bilhões em 2020. Há 15 dias, o próprio presidente do grupo, Rodrigo Galindo, admitiu que esse número ultrapassa o teto estabelecido pelo regulamento de debêntures.

O principal problema da Cogna é a Kroton, braço que engloba as instituições de ensino superior, que detém marcas como Anhanguera e Pitágoras e é responsável por pouco mais de 60% da receita. Segundo analistas, o antigo modelo de negócios da Kroton, com crescimento baseado em financiamento público e privado, esgotou-se e houve uma demora para se implementar uma nova estratégia. 

No início da década passada, a Kroton avançou rapidamente graças ao crédito do Financiamento Estudantil (Fies), administrado pelo Ministério da Educação. Em 2015, porém, o orçamento destinado ao programa começou a ser represado, levando a Kroton a buscar outra solução para os estudantes conseguirem bancar seus estudos. A companhia lançou um programa de financiamento próprio. A medida elevou os riscos, sobretudo durante a pandemia, quando alunos perderam renda.

A Cogna parou, neste ano, de conceder esses créditos. A casa de análise Eleven Financial, porém, destacou em relatório recente que o risco do crédito já cedido permanecerá “por muitos anos no balanço”. 

Além do problema financeiro, a qualidade do ensino também é vista como um empecilho. Segundo o presidente da consultoria especializada em educação Hoper, Willian Klein, em geral os cursos de graduação do grupo são tidos no mercado como inferiores aos dos concorrentes. “O modelo da Kroton era mais de curto prazo, enquanto a Ânima (dona das marcas São Judas e Unisul, entre outras) entregou menos resultado para os acionistas por um período, mas estava focada na qualidade e em ter uma maior perenidade”, diz.

Plano

Para tentar tornar a Kroton mais eficiente e reverter a imagem negativa entre investidores e estudantes, o grupo anunciou em dezembro sua reestruturação. Entre as medidas que já foram concretizadas, estão a unificação de 16 câmpus e a migração de outros 29 para parceiros operarem. Com a mudança, a ideia é reduzir custos.

A empresa também passou a focar no ensino a distância (EAD). Apesar de ser mais barata, a graduação remota tem uma rentabilidade melhor. Até mesmo os cursos de engenharia e da área de saúde terão um maior número de disciplinas ministradas pela internet, num modelo híbrido que também tem margens mais elevadas.

Para o consultor Willian Klein, um dos desafios nessa mudança será melhorar não só a qualidade do ensino, mas também a forma como a empresa entrega seu conteúdo e se comunica com os alunos que estão longe. Por outro lado, a pandemia pode favorecer a Cogna, dado que, com a quarentena, o EAD se tornou mais popular.

Procurada, a Cogna não quis dar entrevista. Em nota, afirmou ter situação financeira estável e que a alavancagem deve começar a cair a partir do segundo semestre. Afirmou ainda que a Kroton tem foco na oferta de educação de qualidade e que tem investido em tecnologia para otimizar a experiência dos alunos. “A Cogna segue convicta no sucesso do plano apresentado, ressaltando que trabalha com perspectiva de que 2021 será o ano do ponto de inflexão.

Correções
15/04/2021 | 13h00

Texto atualizado para corrigir o valor de mercado da Cogna em 2017, que alcançou R$ 32,8 bilhões em 29 de setembro. A queda no valor entre essa data e 14 de abril de 2021 foi de 76%.

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