Recuperação da economia fica mais difícil este ano

Combinação de fatores negativos com incógnitas internacionais leva analistas a reduzirem as previsões para o crescimento do PIB

LUIZ GUILHERME GERBELLI, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2013 | 02h08

Ficou mais difícil para a economia brasileira reagir no curto prazo. O pessimismo aumentou por uma combinação de fatores negativos. A indústria e o varejo estão decepcionando ao longo do ano, os estoques aumentaram, a taxa básica de juros (Selic) subiu pela terceira vez seguida para combater a inflação e o brasileiro está menos confiante.

O Brasil também lida com duas incógnitas internacionais: como será o desempenho da economia chinesa - e, obviamente, o comportamento do preço das commodities - e uma definição mais clara do Fed (Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos) de quando os estímulos serão retirados, o que pode impactar a liquidez no mundo todo e, consequentemente, reduzir a entrada de dinheiro na economia brasileira.

A expectativa para o crescimento da economia brasileira para 2013 vem sendo revisada desde o início do ano. E, nos últimos dias, começaram a aparecer previsões para um Produto Interno Bruto (PIB) abaixo de 2% - em 2012, o Brasil cresceu apenas 0,9%, após a fraca expansão de 2,7% em 2011. "Já não estamos mais em um tsunami monetário, no qual o dinheiro entra no País apesar de tudo. Agora, é o contrário. É preciso se comportar muito bem para o dinheiro entrar", disse Tony Volpon, diretor de pesquisa para mercados emergentes da Nomura Securities em Nova York.

A Nomura rebaixou a previsão do PIB deste ano de 2,5% para 1,6%. O BNP Paribas foi outro que diminuiu as apostas para um crescimento de 1,9%.

O fim do segundo trimestre já foi marcado por resultados ruins. O Indicador de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) - uma prévia do PIB - recuou 1,4% em maio ante abril. Foi o maior tombo mensal desde 2008, ano em que teve início a crise internacional. O resultado ruim foi influenciado sobretudo pelo desempenho da produção industrial, que caiu 2% na comparação com abril.

"A recuperação tem ficado aquém do que estava sendo esperado", afirmou Juan Jensen, economista e sócio da Tendências Consultoria. A estimativa da Tendências para o crescimento do PIB deste ano é de 2,5%, mas o número está sendo revisado para baixo. "A trajetória de recuperação no terceiro e quarto trimestres começa a ficar um pouco mais complicada."

Para Jensen, entre os motivos que desenham um horizonte mais difícil, estão a desvalorização do dólar, que traz um risco para a inflação, o impacto das manifestações com a queda no índice de confiança do consumidor e a diminuição na intenção de compras.

Efeito de base. No início deste ano, a incógnita em relação ao desempenho do PIB dependia do desempenho da indústria. Já era claro que a agropecuária teria um bom desempenho diante da supersafra e o aumento do preço das commodities no mercado internacional. E o setor de serviços sofreria uma acomodação em relação aos anos anteriores. Mas a indústria continuou decepcionando.

"O segundo trimestre tem se mostrado mais fraco do que a gente imaginava. E a indústria é afetada por causa do efeito de base", afirmou Silvia Matos, coordenadora técnica do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/Ibre).

O efeito de base da indústria ocorre porque o primeiro semestre de 2012 foi muito fraco, o que torna mais favorável a comparação do mesmo período deste ano. O segundo semestre de 2012 apresentou uma recuperação por causa da melhora do setor automotivo. "Mas parece que passou tudo que poderia fazer ela crescer com os estímulos. A gente já vê os sinais da produção de bens de capital perdendo vigor", afirmou Silvia, do Ibre. O instituto calcula um PIB de 2,3% para 2013, mas deve revisá-lo para baixo.

A estimativa da GO Associados é que a indústria tenha um crescimento de 1,5% este ano. "Existe um mercado relativamente forte, crédito, obra pública e massa salarial. E, apesar disso tudo, a indústria cresce pouco", afirmou Fabio Silveira, economista da GO Associados. Esses fatores, disse ele, mostram uma distorção forte e uma clara falta de competição do setor industrial brasileiro, problema já apontado há alguns anos. "É um quadro que se instalou nos últimos anos e foi se agravando. E os condicionantes adversos devem permanecer."

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