FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

'Recuperação da economia será lenta e mais lenta ainda a do emprego'

Para economista sócio da GO Associados, o País deve atingir o fundo do poço no final deste ano e migrar da recessão para a estagnação no início de 2017, que ainda será um ano difícil

Entrevista com

Gesner Oliveira

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2016 | 18h36

A economia brasileira deve apresentar sinais um pouco melhores, migrando da recessão para a estagnação no início do ano que vem. A previsão é de Gesner Oliveira, Ph.D em Economia pela Universidade da Califórnia/Berkeley, sócio da GO Associados, ex-presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e da Sabesp.

Mesmo com os sinais mais favoráveis que devem vir com o novo presidente da República, Michel Temer, ele acredita que a recuperação da atividade será lenta, mas  à frente da retomada do emprego que, na sua avaliação, deve ocorrer muito mais devagar.

“A recuperação da economia brasileira provavelmente será lenta e mais lenta ainda será a recuperação do emprego” afirmou ao Estado. Nos cálculos do economista, a taxa de desemprego deve fechar o ano em 12%. Ele acredita que a a recuperação do mercado de trabalho só ocorra  em 2018. A seguir, os principais trechos da entrevista.

A economia já bateu no fundo do poço?

A economia está praticamente no fundo do poço. 2016 é o segundo ano de recessão, depois de 2015. É a primeira vez que temos dois anos de recessão desde os anos 1930. Tudo indica que nós chegaremos ao fundo do poço no final deste ano. Já tivemos o replanejamento de estoques, o investimento continua muito deprimido, em compasso de espera, e houve uma perda de renda real bastante acentuada. Mas esse processo, embora continue, a fase mais aguda já ocorreu. Mas há uma expectativa melhor quando se olha para a entrada de um novo governo. Isso não quer dizer que a crise política tenha sido superada ou que esteja tudo resolvido. Mas há percepção de que existe um script do ponto de vista da política econômica e um caminho a ser percorrido para sair da crise. E há uma certa consistência, lógica e talvez o mais importante: aparentemente haverá uma base parlamentar para apoiar. Essa percepção, aliada ao fim do processo mais agudo de contração, indica que a economia deve crescer um pouco em 2017.

O novo governo tira o País da recessão em quanto tempo?

No terceiro e quarto trimestre a economia ainda vai estar em um quadro recessivo, mas na virada de 2016 para 2017 já haverá sinais um pouco melhores. Num prazo aproximado de seis meses, a economia sai de uma fase recessiva e entra numa fase de estagnação ou de quase estagnação em que o Produto Interno Bruto (PIB) vai crescer pouco, possivelmente menos de 1%. Mas a economia mostrará alguma recuperação. Infelizmente, o mercado de trabalho continuará muito ruim. O mercado de trabalho vai demorar para se recuperar. A recuperação da economia brasileira provavelmente será lenta e mais lenta ainda será a recuperação do emprego.

Qual é a sua projeção de PIB para 2017?

Algo como 0,5% de crescimento no ano. Já é alguma coisa.

Quais são as primeiras medidas que o novo governo terá de tomar para atingir esse objetivo?

No curto prazo, o novo governo precisa dar um sinal inequívoco de ajuste das contas públicas. Naturalmente não será um ajuste da noite para o dia, mas ele tem que dar um sinal de que o ajuste fiscal é para valer. Isso vai envolver a desvinculação de receita, que vai precisar de uma base de apoio no Congresso para aprovar as medidas. Aliado à desvinculação de receita vem um forte contingenciamento de gasto. Uma legislação limitando os gastos seria uma indicação muito positiva. Trata-se de uma inovação que foi pensada lá trás, em meados dos anos 2000. Foi cogitada no governo Lula, ainda com a equipe antiga do Palocci (Antonio Palocci, ministro da Fazenda do primeiro governo Lula) e depois foi abandonada. Isso seria bastante positivo. Aliado a isso, um projeto de lei que está no Senado, que é o limite de endividamento, seria bastante positivo. O contingenciamento, a desvinculação de receita, o limite de endividamento, o limite de gasto são sinais positivos de uma nova política fiscal. Algo que não tem impacto no curtíssimo prazo, mas que dá uma sinalização muito favorável, é um cronograma de medidas de reforma da Previdência. Esses seriam sinais de que há uma preocupação com o reequilíbrio das contas públicas. Essa é a nova fronteira de expansão.  Outra nova fronteira de expansão reside na infraestrutura. É onde nós precisamos mais e existe uma demanda reprimida brutal. Além disso, nessa área tem-se a vantagem de estimular simultaneamente a demanda e a oferta. Ao diminuir os gargalos, é possível criar uma pressão muito grande sobre preço. Para isso é muito importante desenhar melhor as concessões, as parcerias e desburocratizar. Essas medidas não têm impacto nos próximos 180 dias, mas ajudam as empresas a não desmobilizar o seu parque produtivo e já pensar em investimento futuro. Uma terceira fronteira de expansão é o setor externo. Ele já vem se recuperando com a mudança no câmbio, retomando as  exportações e substituindo as importações com mais competitividade. Uma mudança da política externa provavelmente ocorrerá com uma proatividade de acordos comerciais, com a promoção agressiva das exportações. Essa será uma grande avenida para o crescimento nos próximos anos.

Quais são as principais ameaças ao novo governo?

A principal ameaça reside em eventuais dificuldades políticas que possam comprometer a base de apoio do governo para aprovar as medidas que são necessárias para o ajuste fiscal. Se houver a percepção de que o novo governo, a exemplo do governo Dilma, não conseguirá essa base de apoio ou um suporte mínimo para aprovar aquilo que é absolutamente necessário, isso naturalmente compromete muito a política econômica. O ministro Nelson Barbosa (Fazenda) apresentou muitas medidas. Muitas delas, como sabíamos, não tinham chance de ser aprovadas. Então, diante disso, fica muito difícil e a credibilidade acaba sendo muito comprometida. Esse é um risco real. Não é simples manter uma base de apoio, sobretudo para um governo que entra com o carro andando, depois de um processo de impeachment. Não se trata de uma tarefa fácil, porém o atual vice-presidente, provável presidente, é um político experiente. Tudo indica que haverá essa base de apoio. Mas esse é um risco.

O que o senhor acha das indicações de Henrique Meirelles para o ministério da Fazenda e de Ilan Goldfjan para a presidência do Banco Central?

É algo que o mercado vinha esperando. Os nomes, às vezes são supervalorizados. É muito importante o conteúdo da política. Mas são pessoas associadas com política de austeridade. O Meirelles já foi presidente do Banco Central. Toda a indicação é muito alinhada com aquilo que se espera que seja feito. São sinais positivos para o mercado, de uma maneira geral. É claro que só o nome não garante, é preciso ver o conteúdo da política.

O senhor acha que o governo do PT deixou algum legado para o País?

Tenho a impressão de que houve uma construção e uma desconstrução. O PT trouxe para a política brasileira, na época da sua fundação,  uma construção partidária de maior participação, conseguiu um grau de engajamento das camadas médias  e de  setores específicos dos  trabalhadores bastante interessante. Isso foi algo novo no panorama partidário brasileiro que sempre foi muito distante da maioria da população. Mas houve uma desconstrução na medida em que o comando do partido acabou fazendo acordos e se envolvendo em negociações. Eles acabaram voltando para a política mais tradicional e participando de vários escândalos de corrupção da história política do País. Acabou ocorrendo uma desconstrução do partido. Houve um esvaziamento de qualquer conteúdo ideológico do partido, seja naquilo que ele tinha de tradicional da esquerda, de uma proposta socialista, seja naquilo que ele poderia conter de futuro, numa agenda mais ampla, envolvendo o meio ambiente, direitos das minorias, por exemplo.

Então o governo do PT não deixou nada para o País em termos de legado?

Na minha avaliação houve uma herança de um ciclo de expansão extremamente perverso. Ele agravou aquilo que o regime militar fez. O regime militar promoveu um crescimento extremamente desequilibrado. Na verdade, o chamado Milagre econômico brasileiro (de 1968 a 1973) foi um período de um brutal crescimento de bens duráveis, sem uma expansão das política públicas. Com uma diferença: a infraestrutura cresceu muito nessa fase. Então, nesse sentido foi positivo. O que ocorreu no período recente foi a maior bonança externa que o Brasil teve na sua história econômicados últimos tempos, sem que tenha havido uma melhora da infraestrutura. Na verdade houve um ciclo de consumo exacerbado, sem que tenha ocorrido uma melhora do padrão de vida das pessoas. O que se chama de nova classe média, de melhora de padrão de vida etc, na verdade foi um consumo desenfreado sem nenhum tipo de planejamento. Por exemplo: a mobilidade urbana nunca foi tão comprometida no Brasil. O problema de congestionamento é típico do Rio e São Paulo. Hoje até que Rio e São Paulo em relação às demais capitais estão razoáveis nesse quesito. Mas isso, do ponto de vista da qualidade de vida das pessoas, é péssimo. E, do ponto de vista social, é muito mais duro para as camadas mais pobres. Esse aspecto foi menosprezado diante de um ufanismo em torno de uma era de mais consumo. E o País, num momento de grande bonança, não investiu praticamente nada em infraestrutura, sobretudo em segmentos que importam muito para as camadas mais pobres, como é o saneamento básico. Houve praticamente uma estagnação do investimento em saneamento.  Na verdade, se perdeu uma janela de oportunidade fenomenal para elevar o padrão de vida das pessoas. 

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