Recuperação de empregos é lenta

Quanto mais demorar para as reformas acontecerem, mais tempo levará para as taxas de desemprego caírem

Sérgio Amad Costa*, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2017 | 05h00

Taxas de desemprego, nos períodos recessivos, sobem muito rapidamente, mas demoram muito tempo para caírem, mesmo quando acontece a retomada do crescimento econômico. Vale citar, como exemplo, o que ocorreu em alguns países europeus que sofreram com os episódios financeiros de 2008. Espanha, França, Itália e Portugal, depois de oito anos, ainda não conseguiram retornar aos níveis de emprego que tinham no primeiro lustro dos anos 2000. A Alemanha é uma exceção, pois já alcançou os patamares anteriores, em termos de nível de emprego.

Esses países entraram em recessão a partir de 2008, tiveram de fazer reformas, saíram da recessão, mas as taxas de desemprego ainda vêm recuando lentamente. Todos eles apresentaram, em 2007, um PIB positivo. Já em 2008 o crescimento econômico diminuiu significativamente e em 2009 a recessão mostrou sua dimensão: o PIB da Alemanha foi de -4,7%; o da Espanha, -3,7%; o da França, -2,5%; o da Itália, -5,1%; e o de Portugal, -2,6%. A partir daí, foram vários anos de PIB negativo ou de crescimento praticamente inexpressivo. Mesmo a Alemanha, que cresceu 3,5% em 2010 e 3,1% em 2011, amargou em 2012 um PIB de 0,7%; e em 2013, de 0,5%.

Até 2007, essas nações tiveram taxa de desemprego abaixo de 7%. Mas a partir de 2008 ela começa a crescer com muita rapidez. De lá para cá, a Alemanha atingiu sua maior taxa em 2008, 7,9%; a Espanha, em 2013, 26,9%; a França, em 2012, 10,7%; a Itália, em 2014, 12,7%; e Portugal, em 2014, 17,5%. Embora esses países já tenham saído do período recessivo, ainda não conseguiram ter o nível de emprego nos patamares anteriores ao início da crise, exceto a Alemanha, que hoje tem taxa de desemprego de 5,9%. A Espanha está com 18,9%; a França, com 10%; a Itália, com 11,9%; e Portugal, com 10,5%.

Todos esses países fizeram reformas em suas relações trabalhistas, visando a recuperar os postos de trabalho perdidos. Suas taxas de desemprego continuam a mostrar sinais de queda também para este ano. Mas o que quero salientar é a demora para elas serem reduzidas. Imagine, então, se esses países não tivessem intervindo nas suas relações trabalhistas. Provavelmente, as taxas de desemprego estariam ainda subindo.

É neste contexto, observando o que outros países passaram e fizeram, que temos de entender a importância e a urgência de fazer as reformas aqui, no Brasil. Quanto mais tempo demorar para elas acontecerem, muito mais tempo levarão as taxas de desemprego para entrarem em declínio, de forma significativa.

O desemprego, no quadro recessivo, sobe rapidamente porque, além de as demissões irem aumentando, a ausência de investimentos na economia impede a criação de postos de trabalho. Somados aos que perderam seu emprego e não conseguem se recolocar, há os novos profissionais que estão ingressando no mercado e que também não têm oportunidade de trabalho. O resultado disso é a taxa de desemprego crescer rapidamente.

Servindo-se da indústria como exemplo, a capacidade ociosa dela hoje no País gira em torno de 25%. Portanto, mesmo com uma retomada do crescimento econômico, esta ociosidade tem de ser, num primeiro momento, derrubada. Apenas num segundo momento, quando se elimina essa ociosidade, é possível a recolocação das vagas de trabalho que tinham sido fechadas por causa da crise. A consolidação efetiva do crescimento econômico só se dará num terceiro momento. Aí, sim, se observa, de forma consistente, a criação de postos de trabalho.

Fato é que a quebra deste ciclo de elevado nível de desemprego, infelizmente, é muito lenta. A taxa de desemprego no Brasil, hoje beirando 13%, só começará a cair para valer se as reformas acontecerem, ainda assim levando um tempo considerável, pois este é um passo fundamental para que surjam novos investimentos. São eles os geradores de empregos. Não existe outra maneira, ao menos sustentável.

*professor de Recursos Humanos e Relações Trabalhistas da FGV-SP

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