Alex Silva/ Estadão - 26/4/2021
Setores como construção, comércio e outras atividades de serviços, que são grandes demandantes de mão de obra, foram alguns dos destaques positivos Alex Silva/ Estadão - 26/4/2021

Recuperação deve continuar, mas as incertezas seguem elevadas; leia análise

Resultado do PIB do segundo trimestre, mesmo com queda de 0,1%, não altera expectativa de recuperação da atividade econômica ao longo de 2021

José Ronaldo de C. Souza Jr.*, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2021 | 13h04

O PIB do segundo trimestre deste ano reflete um período que se iniciou com o auge do número de mortes causadas pela pandemia. Naquele momento, o esgotamento temporário da capacidade do sistema de saúde e as incertezas em relação ao cronograma de vacinação levaram o mercado a reduzir suas previsões de crescimento do PIB de 2021 para 3,1%. 

Contudo, a divulgação do resultado do PIB do primeiro trimestre (melhor que o esperado) e de dados de atividade econômica de abril e maio apontando para uma resiliência maior que a esperada - frente às adversidades da dinâmica epidemiológica -, bem como o avanço da vacinação no País, levaram, nos meses subsequentes, a uma forte melhora das expectativas para o ano.

O resultado do PIB do segundo trimestre, de queda de 0,1%, não altera essa expectativa de recuperação da atividade econômica ao longo de 2021, ainda que sujeita a incertezas.

Em relação ao PIB do segundo trimestre, setores como construção, comércio e outras atividades de serviços, que são grandes demandantes de mão de obra, foram alguns dos destaques positivos. A indústria de transformação, por sua vez, tem sido impactada principalmente pela escassez de insumos e pela alta de custos logísticos e de energia. A falta de chuvas, que tem limitado a oferta de energia, também afetou o desenvolvimento de culturas importantes como a segunda safra de milho.

Para o restante do ano, a continuidade da recuperação do setor de serviços deve ser a força positiva mais relevante. Nesse cenário, supõe-se que o avanço da vacinação permitirá a maior abertura de segmentos de serviços prestados às famílias que ainda estão bem abaixo do nível pré-crise.

As incertezas, nesse caso, ainda estão relacionadas à evolução da pandemia, principalmente associada a novas cepas e aos seus impactos sobre a eficácia das vacinas. No horizonte um pouco mais longo, o crescimento de 2022 apresenta incertezas significativas relacionadas ao risco fiscal, que impactam a taxa de câmbio e, por consequência, a inflação e a taxa de juros.

*Diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)  

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PIB fica abaixo das previsões e recua 0,1% no segundo trimestre

Economistas esperavam crescimento de 0,2%; com reabertura das atividades, setor de serviços conseguiu avançar 0,7%

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2021 | 09h09
Atualizado 01 de setembro de 2021 | 13h08

RIO - A trajetória de recuperação da economia brasileira, após o tombo causado pela covid-19 em 2020, passou por um soluço no segundo trimestre. O Produto Interno Bruto (PIB, valor de todos os produtos e serviços produzidos na economia em determinado período) registrou ligeira queda de 0,1% em relação ao primeiro trimestre, informou nesta quarta-feira, 1.º, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O resultado veio abaixo das estimativas de economistas ouvidos pelo Projeções Broadcast, que, na maioria, esperavam crescimento de 0,2%. O intervalo das projeções ia de queda de 0,3% a alta de 0,7%.

No primeiro trimestre, a economia surpreendeu e o PIB cresceu 1,2% sobre os três últimos meses de 2020. No início do ano, a retomada foi puxada por atividades voltadas para a exportação, como a agropecuária e a indústria extrativa, enquanto a demanda interna foi mais morna.

De abril a junho, o comportamento da economia foi mais parecido com o “normal”. O setor de serviços, que responde por pouco mais de 70% da economia, avançou 0,7% sobre o primeiro trimestre, puxando a atividade econômica, pelo lado da oferta. Pelo lado da demanda, o consumo das famílias, com peso de cerca de 60% no total do PIB, ficou estável.

 

Por trás dessa dinâmica, está o fato de que, apesar do recrudescimento da pandemia, que registrou números recordes de mortes em março e abril, as medidas de restrição ao contato social afetaram menos o funcionamento dos negócios do que se imaginava inicialmente.

O setor de serviços abriga algumas das atividades econômicas mais afetadas pelas restrições, como bares, restaurantes, casas de show, salões de beleza, cinemas, hotéis e transporte de passageiros. 

Uma marca da crise causada pela covid-19 foram os efeitos desiguais sobre a economia. Na retomada ao longo do segundo semestre do ano passado, a demanda por serviços muito específicos - como os de tecnologia da informação (TI) e de intermediação financeira - e por bens - alimentos, remédios, eletrodomésticos e material de construção, por exemplo - cresceu acima da demanda por esses serviços mais atingidos. 

Segundo a economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), a simples “normalização” do funcionamento dos serviços já garante um crescimento econômico “automático”. Ou seja, mesmo com a crise ainda no radar, o desemprego elevado e o aumento da pobreza, basta retirar as restrições ao consumo desses serviços para que a demanda cresça em alguma medida e, com ela, a atividade econômica como um todo.

“A pergunta é quão rápida está sendo a normalização dos serviços”, diz, lembrando que as restrições à mobilidade das pessoas na passagem de março para abril, quando algumas cidades apertaram as medidas contra a pandemia, tiveram um impacto menor do que no início da pandemia. “A despeito da pandemia e das dificuldades, a economia se normaliza. Uma hora, a sociedade se cansa, as empresas e os trabalhadores se adaptam. E as restrições ficam mais pontuais sobre o turismo e o entretenimento”, completa a economista.

O comportamento mais “normal” da economia no segundo trimestre não quer dizer que os problemas causados pela covid-19 ficaram para trás. A desorganização geral das cadeias globais de produção da indústria, marcada por gargalos no transporte marítimo e encarecimento do frete e pela escassez e encarecimento de insumos básicos, como microchips, puxou a retração de 0,2% no PIB da indústria na comparação com o primeiro trimestre.

 

 

Embora a indústria extrativa, que reúne atividades exportadoras, como a produção de minério de ferro e de petróleo e gás, tenha avançado 5,3%, a indústria da transformação amargou perda de 2,2%, também na comparação com os três primeiros meses do ano. Essa atividade reúne a fabricação da maioria dos bens, como automóveis, cuja produção é uma das mais afetadas pela escassez de chips importados da China

Ainda no lado da oferta, o PIB da agropecuária, que tinha sido um dos motores do crescimento no primeiro trimestre, na esteira da safra recorde de soja, recuou 2,8% no segundo trimestre. A seca no centro-sul do País afetou diretamente a produção de milho, segunda cultura mais importante da agricultura nacional, mas esse efeito tenderá a ser ainda maior no segundo semestre.

“Os problemas estão mais à frente agora, com o cenário crítico de aumento da inflação e, consequentemente, dos juros, e a crise hídrica, que impõem riscos crescentes à retomada”, diz o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sergio Vale.

O PIB do segundo trimestre mostrou que esses problemas já estão mostrando suas garras, mesmo que se agravem ao longo do segundo semestre. A inflação e a alta dos juros já pesaram sobre o desempenho do consumo das famílias no segundo trimestre, segundo a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis. Apesar da retomada do pagamento do auxílio emergencial para as famílias mais pobres, a inflação pressionada pesou mais.

“Não é que o efeito tenha sido nulo, porque há várias coisas afetando em conjunto, mas, quando olhamos a massa salarial real na comparação interanual, ela está caindo”, afirmou Palis.

A “massa salarial” representa toda a renda do trabalho das famílias e indica a capacidade de consumo da população. Ela pode cair tanto por causa de salários menores (se quem está trabalhando passa a receber menos) quanto por causa de perdas de emprego (se, numa família em que duas pessoas trabalham, uma delas perde o emprego, o rendimento deverá cair mesmo que o salário da outra pessoa seja mantido ou até aumente).

No segundo trimestre, a massa salarial encolheu 1,7% na comparação com um ano antes. Isso mesmo com o número de pessoas trabalhando tendo crescido 5,3%, o que sinaliza para a geração de 4,4 milhões de vagas, entre formais e informais. Só na passagem do primeiro para o segundo trimestre, foram 2,1 milhões de empregos a mais, incluindo formais e informais. Só que, na comparação com o quarto trimestre de 2019, antes da pandemia, são 6,8 milhões de pessoas a menos ocupadas

 

 

Segundo Palis, mesmo esse aumento de vagas tendo ocorrido em postos de trabalho informal, que tradicionalmente pagam salários mais baixos, “o efeito da inflação é bastante relevante”. “A inflação tem impacto bastante relevante no consumo das famílias”, afirmou.

Os dados do IBGE mostram ainda que a recuperação do consumo das famílias ao longo da retomada da economia desde o segundo semestre do ano passado não foi suficiente para retomar os níveis de antes da pandemia. No segundo trimestre deste ano, o consumo das famílias ainda estava 3,0% abaixo do nível registrado no quarto trimestre de 2019, antes da pandemia, e 1,6% abaixo do nível do primeiro trimestre de 2020, quando a covid-19 chegou ao País.

O aumento da inflação também tem a ver com a estiagem. Embora, no último ano, os preços de alimentos e de bens industriais venham acumulando reajustes, mais recentemente, a conta de luz tem sido a principal vilã.

A falta de chuvas deixou os reservatórios das usinas hidrelétricas, que respondem por boa parte da eletricidade no País, nos níveis mínimos históricos, afetando a geração de energia e exigindo o acionamento de usinas térmicas na capacidade máxima. O custo mais elevado das térmicas é repassado ao consumidor, por meio de taxas extras nas contas de luz. O quadro é tão grave que o governo federal elevou até mesmo o valor da taxa extra máxima cobrada nas contas

Só que os problemas na geração de energia podem ir além da conta de luz mais cara. Vale, da MB Associados, vê a possibilidade de racionamento de energia e o risco de blecautes no fim do ano. Nesse caso, a restrição atingiria a economia pelo lado da oferta. Indústrias teriam que cortar o ritmo de produção e negócios como bares e restaurantes teriam mais um obstáculo para seu funcionamento normal, para além das medidas que evitam aglomerações de pessoas por causa da covid-19. O cenário de Vale está tão negativo que inclui até mesmo uma retração no PIB do quarto trimestre, o que deixaria o crescimento econômico de 2021 abaixo de 5,0%.

Silvia Matos, do Ibre/FGV, inclui a crise hídrica - que afeta a produção de alimentos e o setor elétrico, causando tanto uma inflação “muito forte” quanto restrições para a indústria -, a desorganização das cadeias globais de produção e a falta de capacidade fiscal do governo para gastar mais com políticas de transferência de renda para os mais pobres numa lista de “problemas” a atrapalhar a retomada. Mesmo assim, a economista diz que não tem uma “visão catastrófica”. Aquele crescimento “automático” com alguma “normalização” dos serviços estaria garantido em 2021. Os problemas bateriam mesmo no crescimento de 2022.

“A economia reage, mas desacelera com esse bando de restrição. Assim, o crescimento fica baixo”, afirma.

Para o economista José Luís Oreiro, professor da Universidade de Brasília (UnB), o cenário é mais negativo. O efeito da inflação sobre a renda das famílias pode atrapalhar o consumo a ponto de suplantar o impulso positivo com a “normalização” do setor de serviços, como já começou a ocorrer no segundo trimestre. Para ele, a normalização em relação à pandemia já vem ocorrendo após o pico da segunda onda, em abril. Embora haja dúvidas sobre uma eventual terceira onda provocada pela variante Delta do novo coronavírus, a “crise de energia” trará os problemas.

“Mesmo que a terceira onda não venha, há o choque de oferta negativo da crise de energia, que vai manter inflação rodando em 8%. Isso significa corrosão do poder de compra dos trabalhadores. Como não tem recuperação do emprego, a massa salarial vai cair”, diz Oreiro.

Segundo o professor, nesse quadro, não tem como o consumo das famílias crescer no segundo semestre. Assim como Vale, da MB Associados, o professor espera crescimento econômico abaixo de 5,0% neste ano.

“O cenário externo também vai ficar mais complicado no quarto trimestre, com ‘tapering’ (a retirada de estímulos monetários introduzidos para mitigar a crise da covid-19) e inflação ainda alta nos Estados Unidos. Isso vai desvalorizar o real (ou seja, aumentar o valor do dólar) e gerar uma perda de confiança tanto do empresariado quanto do consumidor”, diz o economista-chefe do Banco Alfa, Luis Otavio de Souza Leal. “E ainda tem a variante Delta (do novo coronavírus), que pode atrapalhar.” / COLABORARAM CÍCERO COTRIM e GUILHERME BIANCHINI

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Presidente do BC diz que resultado do PIB vai fazer projeções para o ano caírem 'um pouquinho'

De acordo com o IBGE, a atividade econômica do segundo trimestre recuou 0,1% em relação ao primeiro trimestre do ano

Eduardo Rodrigues e Célia Froufe, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2021 | 09h34
Atualizado 01 de setembro de 2021 | 11h49

BRASÍLIA - O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, admitiu nesta quarta-feira, 1º, que o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre veio “um pouquinho” mais fraco do que o que mercado esperava, mas em linha com a projeção do órgão. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o PIB recuou 0,1% em relação ao primeiro trimestre do ano

“Provavelmente devemos ter uma revisão um pouquinho para baixo nas projeções do PIB para o ano corrente. A gente já tinha um número de crescimento para 2021 um pouco abaixo do previsto pelo mercado”, afirmou, em audiência pública na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara.

O resultado veio abaixo das estimativas de economistas ouvidos pelo Projeções Broadcast, que, na maioria, esperavam crescimento de 0,2%. O intervalo das projeções ia de queda de 0,3% a alta de 0,7%. 

Campos Neto avaliou que o desempenho da agropecuária, que recuou 2,8%, e dos investimentos, que diminuíram 3,6%, vieram abaixo do previsto. Ele afirmou, no entanto, que não viu o resultado nos detalhes ainda. 

 

 

“O importante é a gente crescer o máximo possível e criar um ambiente favorável de credibilidade para os negócios, na medida em que avançamos com as reformas e com a mensagem da estabilidade fiscal”, disse.

Para ele, a pior coisa para o crescimento economia é uma inflação descontrolada. “Uma inflação descontrolada é um imposto perverso, principalmente para as pessoas de baixa renda. Também um surto muito grande de desorganização da cadeia produtiva, pois uma inflação muito alta dificulta o planejamento de longo prazo dos investidores”, completou.

 

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Alexandre Calais: Mais um PIB medíocre nos espera no fim do governo; leia análise

Mesmo que economia cresça 5% este ano, será, mais uma vez, um 'voo de galinha'

Alexandre Calais*, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2021 | 10h28

O gráfico trimestral da economia brasileira terá mais uma barrinha vermelha. O PIB do segundo trimestre do ano caiu 0,1%, enquanto os especialistas esperavam uma alta de 0,2%. Mais uma vez, efeito da pandemia do coronavírus. Mas o número negativo no trimestre nem chega a ser uma novidade. É uma tônica da economia brasileira já há bastante tempo - desde 2018, é o quarto trimestre com PIB em queda. Os "voos de galinha" são uma constante, e assim nós vamos acumulando décadas perdidas, desde os anos 1980 - de péssima lembrança -, com alguns intervalos de crescimento e esperança no meio.

O resultado divulgado nesta segunda-feira pelo IBGE não deve alterar muito as projeções de crescimento da economia para o ano. Por enquanto, o que se aponta é algo como 5% de aumento, um pouco mais, um pouco menos. Boa parte disso, porém, é efeito estatístico, a recuperação da queda de 4,1% no ano passado. As discussões, na verdade, já estão muito mais concentradas em 2022. O ano em que realmente saberíamos se a recuperação em 'V' alardeada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, teria realmente força para se sustentar.

 

 

Não parece ser o caso. O Boletim Focus, do Banco Central, ilustra esse quadro. Em dezembro, a expectativa do mercado para o crescimento do PIB em 2022 era de 3,5%. No último boletim, esta semana, essa projeção já havia caído para 2%. E mesmo esse número já é considerado muito otimista. Para muitos analistas, o cenário mais factível é algo mais perto de 1%. E, a depender do desenrolar de algumas variáveis, não seria nem possível mais descartar uma queda do PIB.

O que aconteceu para essa deterioração das expectativas? A questão fiscal, sem dúvida, é um ponto fundamental. Há meses pairam no ar indicações de que o teto de gastos - a regra que limita o crescimento dos gastos do governo ao aumento da inflação - será rompido, de alguma forma. E o teto é a única âncora fiscal que resta, é o único indicativo de que o governo será responsável com o dinheiro que arrecada de cada um de nós. Se esse último dique se romper, a confiança, principalmente dos investidores externos, sofrerá um abalo difícil de se consertar.

Nesse sentido, a antecipação do calendário eleitoral claramente não ajuda em nada. Temos um presidente há tempos em campanha aberta pela reeleição, apesar de faltar ainda bem mais de um ano para a votação. E o temor de todo mundo é como conciliar responsabilidade nos gastos públicos com a necessidade de benesses eleitorais capazes de reverter uma queda forte de popularidade, como a que vem sendo constatada. Não há fórmula mágica. 

A apresentação do projeto do Orçamento para o ano que vem mostra que as expectativas poderiam estar melhores. As contas apresentadas pelo próprio governo apontam que todos os gastos estariam contemplados, não fossem as necessidades eleitorais. Uma das obsessões do presidente é aumentar o valor do Bolsa Família, mas isso não cabe no Orçamento. Para cumprir essa vontade, só dando um jeitinho, como deixar para depois o pagamento de precatórios - desobedecendo, no fundo uma ordem judicial de pagamento de dívidas. É uma pedalada, que vai deixar um buraco ainda mais gigantesco nas contas para as próximas administrações. Um descontrole que poderia ser evitado.

Há uma tempestade perfeita no horizonte. A inflação, persistentemente alta, corrói a renda e prejudica, ainda mais, os mais pobres. Para combatê-la, o Banco Central sobe os juros, retirando o estímulo de uma economia já combalida. O desemprego segue em patamar muito alto, e, sem recuperação firme da economia, os empregos simplesmente não voltam. O cenário internacional começa a ficar um pouco mais turvo, com dúvidas sobre o ritmo da recuperação global. E temos agora entre nós uma crise hídrica que pode culminar num racionamento de energia. No final de quatro anos de governo, teremos acumulado mais um período de crescimento medíocre. E seguimos à espera de um projeto de País que consiga nos tirar dessa armadilha da qual, às vezes, temos a impressão de que nunca conseguiremos escapar.

*EDITOR-COORDENADOR DE ECONOMIA

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