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Recuperação do preço das commodities é incerta

Alta das commodities que ajudou a balança comercial é baseada em especulação; matérias-primas não agrícolas subiram mais de 20% nos últimos dois meses e as agrícolas tiveram alta de 7%

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2016 | 10h15

Um saldo comercial de US$ 13,2 bilhões acumulado até abril, o maior para o período em quase 30 anos, é um dos poucos bons resultados que o novo governo vai herdar do atual. Na semana passada, quando foi conhecido o superávit da balança comercial de abril, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior chegou a projetar que o saldo deste ano poderá bater o recorde de US$ 50 bilhões.

Mas atrás desses números favoráveis há muitas incertezas. Primeiro porque o efeito da recessão, por meio da queda nas importações, foi o fator que mais pesou para saldo comercial robusto do primeiro quadrimestre. O segundo fator, que foi a recuperação dos preços das commodities e que ficou nítido na balança comercial em abril, ainda é incerto.

Só nos últimos dois meses as commodities não agrícolas, capitaneadas pelo petróleo e minério de ferro, tiveram uma valorização superior a 20% em dólar, segundo índice de preços calculado pela MacroSector Consultores. No caso das matérias primas agrícolas, que incluem soja, carnes, açúcar e café, por exemplo, a alta acumulada foi de 7% em igual período. O índice é apurado levando-se em conta o peso de cada matéria prima na balança comercial.

“Essa alta de preço das commodities é fundamentalmente financeira”, afirma Fabio Silveira, sócio-diretor da consultoria e responsável pelos índices de preços das commodities. Em razão dos resultados recentes, ele ampliou de US$ 32 bilhões para US$ 40 bilhões a estimativa de saldo comercial para este ano e considera a previsão de US$ 50 bilhões “um pouco forte”.

Silveira explica que, diante do grande volume de dinheiro disponível para investimentos circulando na economia mundial e da indicação de que o banco central dos Estados Unidos, o Fed, não suba os juros tão cedo por conta do fraco desempenho da economia americana, os investidores decidiram apostar nas commodities. E essa grande demanda por papéis atrelados a esses produtos elevou os preços das matérias primas.

Avaliação semelhante é feita pelo presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro. “O que se sabe é que a alta das commodities é especulação. Agora, até onde vai não se sabe”, ressalta o economista. Segundo ele, o resultado positivo das commodities que apareceu na balança comercial de abril deve continuar em maio e junho, por causa da defasagem que há entre o fechamento dos negócios e o resultado efetivo nas exportações.

“O segundo semestre será uma incógnita porque não se sabe o que vai acontecer principalmente com a China, que é uma grande compradora de matérias-primas”, diz Castro. O presidente da AEB espera que o ano encerre com saldo comercial de USS$ 42 bilhões, no mínimo.

Para o economista da Tendências Consultoria Integrada, Silvio Campos, o Fed deve voltar a subir os juros no segundo semestre e isso deve impor limite à recuperação dos preços das commodities. “A China é um fator que deve provocar alguns sustos”, alerta. Ele acrescenta que, além do fator especulativo que pesou na alta das commodities nos últimos meses, o fato de o governo da China ter dado alguns estímulos à economia, via crédito, reduziu temporariamente a preocupação com a demanda de matérias-primas por parte daquele país. Por causa do desempenho do primeiro quadrimestre, a consultoria está revisando para cima a projeção de saldo comercial de US$ 41,8 bilhões para 2016.

Inflação. O impacto favorável do avanço dos preços das commodities na balança comercial e nas contas externas do País também tem um lado desfavorável, que é a pressão nos preços do mercado interno e, por tabela, na inflação. “Tem uma lenha na fogueira da inflação, que deve aparecer no segundo semestre”, prevê Silveira.

Segundo ele, o benefício da baixa de preços proporcionado pela recessão não será atingido plenamente por causa da pressão das cotações das commodities. A sua projeção inicial, de que a inflação neste ano ficaria entre 6,5% e 7%, deve ser superada. “O IPCA deve ficar entre 7% e 7,5% em 2016. Tem petróleo e derivados subindo, além preços agrícolas.” 

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