Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

BC enxerga 'maior nível de incerteza' e evita se comprometer com futuro da taxa de juros

Em ata da última reunião do Copom, técnicos do Banco Central dizem que greve dos caminhoneiros prejudicou economia e que País segue em recuperação, embora em ritmo mais lento que o esperado

Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

07 Agosto 2018 | 08h58
Atualizado 07 Agosto 2018 | 12h57

BRASÍLIA - Após ter mantido a Selic (a taxa básica de juros) em 6,50% ao ano na semana passada, o Banco Central (BC) evitou se comprometer quanto ao futuro da política monetária. Na ata sobre a decisão, divulgada nesta terça-feira, 7, a instituição avaliou que os efeitos da greve dos caminhoneiros sobre a inflação e a atividade foram temporários, mas disse que a atual conjuntura traz "maior nível de incerteza" para o cenário econômico.

A avaliação do Comitê de Política Monetária (Copom) - formado pelo presidente do BC, Ilan Goldfajn, e pelos demais diretores - foi de que a greve dos caminhoneiros prejudicou a economia e também deu força aos preços das mercadorias nos últimos meses. 

Inflação deve recuar em julho

Os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia (IBGE) mostram justamente isso: o IPCA (índice oficial de inflação) subiu 0,40% em maio e 1,26% em junho. Na quarta-feira, 8, o instituto divulga o índice relativo a julho e a expectativa é de que, desta vez, o IPCA seja bem mais baixo.

Para o BC, a forte inflação de junho foi uma espécie de ponto fora da curva, por refletir a greve e "outros ajustes de preços relativos". "Projeções de inflação para julho e agosto corroboram a visão de que os efeitos desses choques devem ser temporários", defendeu a instituição na ata.

Incerteza sobre a taxa de juros

Apesar de enxergar um cenário "confortável" para a inflação, na ausência de novos choques, o BC evitou dizer se pretende manter a Selic em 6,50% ao ano nas próximas reuniões do Copom. Até o fim do ano, o colegiado ainda se reúne em setembro, outubro e dezembro. 

"O maior nível de incerteza da atual conjuntura gera necessidade de maior flexibilidade para condução da política monetária", disse o BC na ata.

Cautela é justificada, diz economista

Para o economista-chefe do Rabobank Brasil, Mauricio Oreng, a cautela do BC sobre o futuro dos juros no Brasil faz sentido, porque o cenário para o Brasil segue incerto. Ele cita a eleição presidencial, a alta de juros nos EUA e a guerra comercial como fatores de risco. 

"(Os próximos passos) vão depender dos fatores de risco, de como os condicionantes irão evoluir. Pelo horizonte visível, tudo leva a crer que a Selic seguirá em 6,5%", afirma.

Segundo o economista-chefe da corretora Spinelli, André Perfeito, a tendência é de que a Selic seja mantida em 6,50% no encontro de setembro do Copom. 

"Em outubro, o BC pode ter um visão melhor dos efeitos secundários (dos choques) sobre a inflação e ainda em relação a sinais de avanço ou não das reformas", pontuou o economista. "Depois da eleição, há chance de o juro subir, caso não vença um candidato reformista", acrescentou.

Reformas econômicas na ata

Na ata desta terça-feira, como de costume, o BC não se referiu diretamente à corrida presidencial. Mas a instituição voltou a destacar a importância das reformas econômicas - um dos temas-chave do debate eleitoral - para assegurar a baixa da inflação e a queda dos juros. 

"A percepção de continuidade da agenda de reformas afeta as expectativas e projeções macroeconômicas correntes", citou o BC, em sua linguagem técnica.

Conta de luz mais cara, projeta o BC 

A ata do Copom também trouxe uma série de atualizações nas projeções do BC para os índices de preços. O colegiado informou que, caso a Selic permaneça em 6,50% ao ano e o dólar fique na faixa dos R$ 3,75, a inflação deve atingir 4,2% em 2018 e 4,1% em 2019. Em ambos os casos o IPCA estaria dentro da meta perseguida pelo BC.

A má notícia está ligada aos preços administrados - aqueles estabelecidos por contrato ou por órgãos públicos, como energia elétrica, planos de saúde, pedágios e derivados do petróleo. 

O BC projeta elevação de 7,4% nos preços administrados em 2018 e alta de 5,0% em 2019. 

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