'Recuperar a Petrobrás é projeto de 5 anos'

'Recuperar a Petrobrás é projeto de 5 anos'

Presidente da estatal diz que empresa levou 'trombada' e que nível de endividamento não é 'salutar'

Entrevista com

Aldemir Bendine, presidente da Petrobrás

Antonio Pita,Fernanda Nunes,Mônica Ciarelli, O Estado de S. Paulo

08 de agosto de 2015 | 16h24

O presidente da Petrobrás, Aldemir Bendine, não doura a pílula ao falar dos desafios para retomar a confiança dos investidores. Em entrevista após anunciar um tombo de 89% no lucro da estatal no segundo trimestre, o executivo admite que a companhia só voltará aos trilhos daqui a cinco anos e reconhece que, até o final da Operação Lava Jato, a petroleira não sairá do foco político. 

“É como se a empresa tivesse levado uma trombada, tivemos de parar tudo para arrumar”, afirmou. Bendine é taxativo ao afirmar que o endividamento é sua principal dor de cabeça e que o remédio passa por desinvestimento e corte de custos. Estratégia que já lhe rendeu o apelido de “Vendine” entre os sindicalistas, que o acusam de promover uma privatização velada na estatal. Mas a crítica não abala o executivo. “Já fui Maldine”, lembra aos risos, brincando com a “má fama” que acumulou na época em que também promoveu ajustes no Banco do Brasil. Ao final, acredita, seu trabalho será reconhecido. 

Até lá segue lidando também com as desconfianças em torno de uma ingerência do governo nas decisões da estatal. A decisão de antecipar um pagamento de R$ 2,8 bilhões em tributos jogou mais lenha na fogueira. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Qual sua avaliação sobre a empresa que assumiu?

De início, todo o nosso esforço foi entender os números reais da Petrobrás. Era impossível que uma companhia aberta com ações em bolsa não tivesse um balanço crível auditado. Procuramos retratar a real situação. Tínhamos uma preocupação muito grande com capacidade de financiamento porque a projeção de caixa era muito apertada.

Ela voltará a ter credibilidade?

Eu não estaria aqui se não acreditasse nesse projeto.

Quando?

É um projeto de cinco anos.

Hoje, qual é a maior preocupação?

A dívida. O índice de alavancagem está muito alto em comparação com o mercado. Isso não é salutar. A companhia partiu para uma fase de crescimento mirando uma cotação de petróleo nas alturas. Em junho de 2014, o barril estava em US$ 114 e terminou o ano abaixo de US$ 50. Não há empresa no mundo que suporte isso. Todas as petroleiras foram afetadas, mas a dívida da Petrobrás é a maior. As petroleiras começaram a fazer o dever de casa antes. A Petrobrás atrasou. Quando teve esse cenário, coincidiu com o momento de instabilidade (Lava Jato).

A Lava Jato ainda atrapalha?

Consome energia, queira ou não. Carrega uma carga negativa. Mas temos de continuar trabalhando.

Quando termina?

Quando passarmos a limpo todos os processos da empresa.

A corrupção foi extinta?

Corrupção é do indivíduo, uma questão cultural e de caráter. Cabe à companhia criar o máximo possível de barreiras contra ela. Toda e qualquer companhia sempre vai enfrentar problemas dessa natureza. Não posso afirmar que nunca mais vai acontecer, e daqui a dois anos, de repente, aparece um “casinho”... Ocorre.

É difícil sair do foco político?

Só depois de concluídas as investigações e os julgamentos. Quanto mais rápido acontecer, melhor. A gente quer ser colaborativo, mas não olhar para o retrovisor. A companhia precisa andar, ela tem como dar retorno ao acionista e à sociedade. É dessa empresa que vamos cuidar. A de trás, a gente aprende com o erro.

Que ajustes devem ser feitos?

Há algo maior, que é a reorganização administrativa e financeira da companhia. Precisa se adequar à nova realidade. Só se tira lições das crises à medida que os processos são aperfeiçoados. Análise e decisão da companhia não podem se dar de maneira verticalizada. Revimos o ponto de competências e alçadas. Tem um monte de modelos na mesa. Estamos trabalhando em conjunto com consultorias externas. É um processo longo.

Haverá demissões? 

Uma excessiva terceirização ocorreu aqui, adequada àquele momento que estávamos vivendo. Hoje, (a terceirização) é excessiva. Ela estará mais enxuta a partir do momento em que privilegiar operações.

A companhia deixou de priorizar a alta de produção?

A cultura estava atrelada a um boom na indústria por mais de uma década. Hoje, a realidade é outra. Entre privilegiar volume versus rentabilidade, a companhia vai privilegiar a rentabilidade. É uma mudança de cultura organizacional.

A perda de grau de investimento é um risco real?

Lógico que rebaixamento é algo com o que a companhia se preocupa. Pelo amor de Deus, não estamos falando de uma companhia que está na bacia das almas e vai entrar em recuperação judicial. Pelo contrário, é uma companhia que vem melhorando sua receita operacional.

Pagar dívidas tributárias agora foi uma ajuda ao Tesouro?

De maneira alguma. A geração de caixa é um problema do Tesouro, não da Petrobrás. É uma maneira de garantir a previsibilidade nos rumos da companhia. Além de haver uma decisão desfavorável, que nos obrigaria a pagar, surgiu a oportunidade de fazer isso agora com descontos. A gente quer enfrentar esse passivo tributário para que a empresa esteja devidamente saneada. Este é um ano de ajustes.

O sr. já bateu na porta do Levy por reajuste nos combustíveis?

Não peço aumento de preço para o governo de jeito nenhum. Política de preços é com a companhia. Não aceito esse tipo de interferência. O conselho (de administração da Petrobrás) é autônomo.

Antes o ministro da Fazenda era o presidente do conselho... 

Antes, isso se misturava no imaginário das pessoas. Brigamos muito pela evolução do conselho, para não ter pessoas com cargos no governo justamente para não ter essa interpretação. Sei que existe essa angústia. O povo só vai acalmar quando eu apertar o botão para aumentar a gasolina.

Se a diretoria decidisse hoje pelo aumento, ele seria aceito?

Não é achismo, que a gente fica lá discutindo se vou pedir autorização para o governo, não é nada disso. A gente presta esclarecimento ao Conselho de Administração todo o tempo. E o conselho tem dito de uma forma muito clara que a política está extremamente adequada.

Como é feita essa avaliação?

Existe referência e formação de preço. Em referência de preço, nossa política é clara e estabelecida: paridade internacional. A formação de preços meço o tempo todo. Eu sei quanto me custa produzir e sei quanto tenho de pôr de ganho para fazer o melhor para meu acionista. Estamos em dia com a paridade e na formação (de preços) estamos com margem.

A alta do dólar afeta a empresa? 

Temos boa política de hedge account (política de proteção contra variação cambial). Não vamos ter grande impacto. Claro, na medida em que isso evoluir, que se descolar exageradamente, você pode não ter receita que compense esse custo da dívida. Hoje, a política está suportando.

O patamar do câmbio altera a meta de redução de alavancagem (indicador financeiro que mede a relação entre a dívida líquida e a geração de caixa)? 

Não vejo perspectiva, já nesse primeiro ano, de uma redução significativa da dívida. Isso virá mais fortemente depois de dois anos.

A mudança do cenário pode ampliar a necessidade de venda de ativos?

O valor não muda. Se surgir uma oportunidade para um determinado conjunto de ativos que estava (previsto para ser vendido) mais para a frente, a gente fará o movimento. Com isso, o valor pode ser um pouco maior nos dois primeiros anos em relação ao planejado.

Se a meta não for atingida, quais são as alternativas?

Só tem duas alternativas para reduzir dívida: gerar mais receita operacional ou desinvestir.

O sr. tem medo da crítica de que faz uma privatização velada?

Medo, não. Desinvestimento na indústria de commodities é normal. O que a gente vai ter de fazer é intensificar o processo para ajustá-lo à nossa dívida. Não estamos privatizando em nada a companhia, que vive de concessões.

Incomoda ser chamado de “Vendine” pelos sindicalistas? 

De forma alguma. Já me chamaram de “Maldine”. Quando você mexe em estruturas... Depois, no fim, foi reconhecido o trabalho (no Banco do Brasil).

A BR Distribuidora já teve capital aberto. Por que retomar esse modelo?

Ao abrir o capital de uma subsidiária, por um lado perdemos porcentual societário, por outro podemos gerar mais eficiência e ter um retorno maior do que o obtido com 100%.

Outras subsidiárias podem ter abertura de capital?

Se tiver atratividade, a gente pode olhar. Talvez, no modelo BR, para curto prazo, não. Mas podemos discutir sociedade.

Já há negociação?

A gente tem tratativas em relação ao Comperj e a uma ou outra unidade que tenha necessidade de complementação de investimento. O Comperj pode, futuramente, caso o cenário permita um avanço na petroquímica, ser expandido. Já temos quatro interessados, entre eles, chineses. Estamos apresentando o projeto, o valor necessário e discutindo o direito de exploração. O valor é de R$ 3 bilhões a R$ 4 bilhões. Se tiverem interesse maior, não ficarei bravo.

A companhia vai vender participação na área de Libra no pré-sal da Bacia de Santos?

Isso é especulação. Esse é um belo ativo. Nossa joia da coroa se chama pré-sal. É onde vamos nos concentrar.

A empresa tem condição de assumir mais ativos de pré-sal?

Hoje, temos reservas comprovadas superiores a 12 bilhões de barris, muito acima da média internacional, o que dá tranquilidade do ponto de vista exploratório. Cabe ao órgão regulador ou à União definir qual vai ser o ritmo (de exploração do pré-sal).

A companhia consegue bancar a operação única e garantir participação mínima de 30% nos consórcios?

Nosso foco é pré-sal e o modelo é esse. Mas não vejo leilão de pré-sal no curto prazo. O Brent está no chão (cotação), as petroleiras não estão com apetite de investimento.

Como a empresa resolve a crise da indústria fornecedora?

Estabelecemos um mecanismo de conta vinculada, no qual a gente administra o fluxo de caixa dos projetos. Ou seja, pagamos diretamente os fornecedores. Não colocamos diretamente o dinheiro na empresa. Tinha muita empresa em recuperação judicial.

A companhia se sente responsável?

A Petrobrás não rompeu contratos. Trabalhava com os contratos fixados e aditivos. Pelo volume que existia e pelo processo decisório, havia atraso na formalização. Fechou-se a porta para avaliar, formalizar corretamente cada um dos aditivos. As empresas diziam: ‘Pedi um aditivo de 300, e a Petrobrás não pagou’. Quando fomos discutir, na nossa conta era 90. A gente está indo pela via negocial, não pela judicial.

A Sete Brasil terá novo aporte?

A Petrobrás continua apoiando o projeto, com os sócios. Para um primeiro momento, se houver necessidade de aporte, vai ser mínimo.

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