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'Recursos usados pela BNDESPar são públicos, mas não são subsidiados'

Executivo rebate críticas relacionadas a investimentos e afirma não estudar novos aportes em frigoríficos

Entrevista com

IRANY TEREZA, SABRINA VALLE / RIO, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2011 | 03h07

Com uma carteira de R$ 110 bilhões em participações acionárias, a BNDESPar, empresa de participações do BNDES, é o mais poderoso investidor nacional. Nessa posição, ocupa o centro de uma polêmica sobre o uso de dinheiro público em investimentos de empresas privadas. Julio Ramundo, que há quatro meses ocupa a direção da BNDESPar, se adianta em classificar de infundadas as acusações de estatização.

Em sua primeira entrevista no cargo, o economista, de 41 anos e 19 de BNDES, abusou de expressões como "é um equívoco" para rebater os ataques. "Os recursos são públicos até o último fio do cabelo. Toda movimentação de recursos do BNDES é do Tesouro. Mas não é dinheiro subsidiado", afirma, sustentando que o lucro da BNDESPar contribui para baixar custos de empréstimos. Segundo ele, o banco não estuda novos aportes em frigoríficos. E diz também considerar "corajosa" a atuação do banco ao impedir a quebra de empresas como Sadia e Aracruz. "Faríamos de novo", diz. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Houve benevolência do banco na entrada em frigoríficos?

A lógica do investimento do BNDES é dividida em duas: de carteira e econômica. Por volta de 2005, uma avaliação interna mostrou que nossa carteira não tinha a representatividade nos investimentos que os alimentos têm na economia brasileira. Sob o ponto de vista de portfólio, era interessante investir. Só isso talvez não justificasse (o investimento). A economia brasileira é referência mundial no que diz respeito à produção de alimentos e segurança alimentar. Em 2006/2007, duas empresas, JBS e Marfrig, iniciaram movimentos de abertura de capital e acesso ao mercado internacional. O BNDES posteriormente passou a participar da estratégia dessas empresas, sobretudo de internacionalização. É interessante que empresas brasileiras acessem mercados internacionais a partir de outras bases. O investimento foi bastante consequente, com lógica de portfólio e econômica.

Não há exposição excessiva?

É um equívoco é dizer que o BNDES está sustentando todo esse movimento. O mercado participou em grande parte. JBS e Marfrig fizeram investimentos, lançaram ações, além da abertura de capital. Veja os números da dívida: JBS e Marfrig têm R$ 8 bilhões de bonds, o que significa que investidores internacionais acreditam nas empresas. Com bancos comerciais, a dívida é superior a R$ 17 bilhões. O mercado privado também opera, e numa escala muito significativa, nesses ativos. Seria reduzir a história à metade dizer que o BNDES sustenta essas empresas.

É errado dizer que essas empresas estariam em situação delicada sem o BNDES?

Com esse volume de financiamento, eu diria que é errado. Os movimentos que o BNDES fez nessas empresas foram para adquirir ativos externos. O banco participou ativamente do movimento do Marfrig para comprar o fornecedor mundial do McDonalds (Keystone). Quando a JBS comprou a Pilgrim's, empresa que estava em situação difícil nos EUA, era uma oportunidade. O movimento do banco não esteve associado a salvar essas empresas ou fazer com que não quebrassem.

Uma crítica recorrente é que BNDES estatiza a economia...

Isso é um absurdo, o BNDES não está contribuindo para estatizar. O banco faz investimentos relevantes por meio da BNDESPar. Mas isso ser associado a um movimento de estatização é um absurdo completo. Todas as participações são minoritárias. Temos um limite de 30%. Onde a gente se permite participar mais são em empresas iniciantes e na área de tecnologia. Nesses casos, chegamos a 40%. Mas são casos excepcionais. O limite de participação é uma norma interna de boa prática de investimento. Um dos nossos objetivos é fomentar e democratizar o mercado de capitais e promover a governança corporativa. A BNDESPar quer substituir o mercado de capitais.

Por que a BNDESPar permanece indefinidamente em algumas empresas?

O banco é investidor de longo prazo, tende a ter um perfil de investidor diferente de fundos, por exemplo. Além disso, a participação do BNDES está associada a movimentos, seja de implantação de grandes projetos ou estratégias de aquisição de ativos no exterior. O banco sai no momento em que esses investimentos já maturaram, mas precisa haver uma boa oportunidade para o banco sair. Uma visão equivocada é que o banco não gira sua carteira. Temos volumes bastante significativos de giro de carteira desde 2007. Em média, giramos acima de R$ 15 bilhões (por ano). No ano passado, tirando a operação da Petrobrás, foi de R$ 12 bilhões. Nesse primeiro semestre, já giramos R$ 6,4 bilhões.

Mas, em algumas empresas, a participação é mantida...

Há participações estratégicas, de ativos que quase se confundem com o País, como Petrobrás, Vale. São investimentos que têm papel importante, estratégico. Estão associados a acordos de investimentos em que a atividade da empresa quase que se confunde com a promoção do desenvolvimento. A Petrobrás é um investimento superestratégico, faz parte da missão do BNDES. Vários países têm seus veículos de investimentos...

Para participar das decisões estratégicas dessas empresas?

O BNDES só participa nos conselhos. O banco nunca indica dirigente executivo.

Dinheiro próprio significa que não é dinheiro público?

O dinheiro sempre é público. Um certo mito está sendo criado de que os aportes do Tesouro estão sendo direcionados para esses investimentos. Isso não é verdade. A própria atividade da BNDESPar vai gerando recursos. O que não significa dizer, e não é isso que estamos dizendo, que os recursos da BNDESPar não são públicos. Eles são públicos até o último fio do cabelo. Toda movimentação de recursos do BNDES é, em última instância, de recursos do Tesouro. O que dizemos é que não é dinheiro subsidiado. A BNDESPar não utiliza recursos do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador, uma das principais fontes do BNDES). O custo de oportunidade dos investimentos não é dos recursos que o Tesouro empresta e muito menos de TJLP (taxa de longo prazo usada nos empréstimos do BNDES). Não há subsídio e estamos dando lucro.

Como é a estrutura da empresa BNDESPar?

A BNDESPar é hoje muito mais um veículo do que uma empresa. Todos os processos e análises são comuns aos processos do BNDES. Tem duas divisões, uma mais voltada ao mercado de capitais e empresas maiores, que faturam acima de R$ 300 milhões, e outra de capital empreendedor, voltada sobretudo a empresas menores.

De onde vem o funding (recursos para os financiamentos)?

A BNDESPar é autossuficiente no que diz respeito a funding e vem sendo superavitária. Entre investimentos e desinvestimentos, a remuneração pela participação do banco no capital das empresas e as captações de mercado produziram caixa da ordem de R$ 10 bilhões nos últimos cinco anos. A BNDESPar hoje não pressiona em nada o orçamento do BNDES. Isso, obviamente, não quer dizer que as operações não impactam o acionista controlador, o Tesouro.

E o BNDES toma recursos do Tesouro...

É óbvio que o dinheiro do Tesouro entra no BNDES. Mas as atividades da BNDESPar não pressionam em absolutamente nada o orçamento do BNDES.

O recurso do Tesouro não entra diretamente na BNDESPar?

Não. O Tesouro aporta títulos no BNDES e isso é um empréstimo, embora as pessoas tendam a usar, de forma equivocada, a palavra capitalização. Todos os aportes recentes feitos pelo Tesouro foram para atividades de empréstimo. Nem um centavo veio para a BNDESPar que, com investimentos e gestão da carteira de R$ 110 bilhões, vem contribuindo muito para o BNDES. Somente neste primeiro semestre, o resultado do BNDES foi de R$ 5,3 bilhões e o da BNDESPar, de R$ 3 bilhões. A BNDESPar possibilita que o banco financie mais barato a infraestrutura, a pequena e média empresa.

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