Rede anacrônica e inútil

Começo com uma pergunta ao leitor: você costuma ouvir a Voz do Brasil? De minha parte, confesso que sou ouvinte desse programa. E explico: mesmo não sendo masoquista, ouço esse noticiário oficial para comprovar até onde chega o uso da máquina pública e o projeto de poder do PT.

Ethevaldo Siqueira, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2011 | 00h00

Um bom exemplo dessa estratégia de "petização" do País ocorreu há pouco mais de uma semana, no dia 16 de junho de 2011, data em que a Voz do Brasil deu um show de propaganda governista, ao noticiar o programa habitacional "Minha Casa Minha Vida 2" - durante 13 minutos dos 25 que dura o noticiário dedicado ao Poder Executivo. Qualquer rádio independente daria a mesma notícia no máximo em 3 minutos.

A Voz do Brasil, programa transmitido em rede obrigatória de mais de 3 mil emissoras de rádio AM e FM, de norte a sul do País, tem hoje um estilo propagandístico e serve de palanque eletrônico diário ao governo, ao PT e seus aliados.

Seus defensores são, acima de tudo, os políticos beneficiários dessa rede anacrônica, cara e inútil, que se perpetua no País há mais de 70 anos. A rigor, hoje ela só interessa aos políticos do Executivo, à base partidária governista e, em especial, aos deputados oriundos dos grotões, que usam o programa para comunicação com suas bases, até para recados triviais do tipo "Alô, mamãe".

Anacronismo. Criada em 1935, ou seja, há 76 anos, em plena era Vargas, a Voz do Brasil tinha, ao nascer, alguma semelhança com o projeto de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda da Alemanha nazista, que levava a voz de Hitler e do regime via rádio a todos os alemães, de 1933 a 1945.

Na época, o Brasil tinha poucas emissoras de rádio, único meio de comunicação de massa de que o mundo dispunha. Por isso, ao criar a Hora do Brasil, o grande argumento de Getúlio Vargas era usar a rede obrigatória como "fator de integração nacional" para levar a voz do governo a todo o País.

Hoje, em pleno século 21, o cenário das comunicações brasileiras é radicalmente diferente. A televisão aberta chega a 95% dos lares do País. O rádio está presente em 80% dos domicílios e é ouvido em 18 milhões de automóveis, da frota nacional de 28 milhões. E a internet já conta com mais de 75 milhões de usuários. Por que, então, manter esse programa em rede obrigatória?

Alternativas. É claro que todos os governos precisam divulgar seus feitos, suas decisões e projetos. Para fazê-lo, no entanto, há hoje opções muito mais eficazes e econômicas do que uma rede obrigatória de 3 mil estações de rádio.

Uma delas poderia ser a distribuição diária, via Agência Brasil, do noticiário oficial dos três poderes a toda a mídia - rádios, TVs, jornais, revistas e portais da internet. Não temos dúvida: todas as notícias de real interesse público seriam divulgadas, com critérios mais jornalísticos, maior credibilidade, menores custos e maior audiência.

Na verdade, isso já está ocorrendo: a maior parte das notícias governamentais já são divulgadas pelo rádio, pelas redes de televisão privadas e pelos maiores portais da internet. E sem nenhum custo.

Além de contar com essa divulgação espontânea, o governo poderia usar sua própria rede de radiodifusão, composta por mais de 40 emissoras de rádio e TV do governo federal e dos Estados, entre as quais, a Empresa Brasileira de Comunicações (EBC), a TV Câmara, TV Senado, TV Justiça e as chamadas TVs Educativas. Dê uma espiada, leitor, no site da EBC (www.ebc.com.br) e veja, como exemplo, as rádios e TVs da empresa.

História. A ideia de um noticiário oficial do governo nasceu em 1934 com o Programa Nacional, criado por Armando Campos, um amigo de infância de Getúlio Vargas, transmitido na voz empostada de Luiz Jatobá, o famoso locutor de todas as ditaduras, do Estado Novo ao regime militar. Mas o programa não era obrigatório.

Reformulado e com o nome de Hora do Brasil, o programa oficial tornou-se obrigatório e passou a ser transmitido por todas as rádios do País a partir do dia 22 de junho de 1935. Durante o Estado Novo (1937-1945), período ditatorial de Vargas, foi utilizado intensamente pelo Executivo, para a transmissão da maioria dos discursos oficiais e mensagens do governo, pelo antigo Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP. Mas, só a partir de 1962, com a Lei 4.117 (Código Brasileiro de Telecomunicações) a Hora do Brasil passou a dedicar metade de seu tempo ao noticiário do Poder Legislativo.

Os governos adoram as trombetas públicas que contam e cantam seus feitos. A partir de 1970, o regime militar chegou a obrigar as emissoras de rádio e TV do País a transmitir em rede até programas educativos, como o Projeto Minerva. Era tão chato que povo o apelidou de "Projeto Me Enerva".

A Voz do Brasil - como a tiririca, a planta daninha dos jardins - tem resistido a todos os governos e regimes. Nem as Constituições de 1946 a 1988 conseguiram sepultá-la como rede obrigatória.

Se outra razão não houvesse para extingui-la ou torná-la facultativa, bastaria lembrar que a Voz do Brasil representa, acima de tudo, um imenso desperdício de energia elétrica, ao impor a formação de uma rede diária de 3 mil emissoras, totalmente redundante, de baixa audiência, anacrônica, inútil e cara. Está na hora de remover esse entulho.

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