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Redes de celular: faça você mesmo

Cansadas das falhas das grandes operadoras de celular, comunidades remotas do México estão agindo por conta própria

The Economist, O Estado de S. Paulo

23 de março de 2015 | 03h00

Nas florestas tropicais que recobrem as montanhas de Sierra de Juárez, no sul do México, começa a brotar uma nova espécie de árvore: a antena de telefone celular. Ao contrário da maior parte das antenas desse tipo que hoje se espalham pelo mundo, aqui elas são instaladas e operadas por comunidades pequenas, em sua maioria de origem indígena. Oferecer serviços de telefonia móvel em tais localidades não é lucrativo o bastante para que as grandes operadoras se interessem pelo negócio, a menos que seus habitantes se disponham a desembolsar a quantia de US$ 50 mil. Porém o aparecimento de softwares mais sofisticados e a queda nos preços dos equipamentos de hardware agora permitem a implantação de estações-base de telefonia celular por cerca de US$ 7,5 mil, um valor acessível para operadoras sem fins lucrativos e pequenas comunidades.

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Atualmente, 16 comunidades dessa região isolada do México dispõem de serviços móveis locais bem mais baratos do que os oferecidos pela América Móvil, a principal operadora mexicana, ou por sua maior concorrente, a Movistar. Eliel López, um motorista de mototaxista, diz que o número de passageiros que contratam seus serviços pelos celulares da rede comunitária de Villa Talea de Castro, no Estado de Oaxaca, mais do que compensa a mensalidade de 40 pesos (US$ 2,71), que inclui ligações locais ilimitadas e um custo de 82 centavos de peso por minuto no caso de ligações para números pertencentes a outras redes de telefonia do país. Por esse mesmo serviço, as grandes operadoras cobram cerca de 3 pesos por minuto.

As ligações para números de outras redes podem ser feitas com créditos pré-pagos. Mas ligar para alguém nos Estados Unidos, às vezes, é até mais barato, isso porque várias antenas repetidoras foram espalhadas pelas montanhas, ligando a região com Oaxaca, a capital do Estado de mesmo nome. A rede também permite a realização de chamadas de voz pela internet.

O custo dos equipamentos necessários à implantação de redes de telefonia móvel vem caindo graças à utilização de sistemas baseados em código aberto e de uma nova geração de estações-base que emprega um processo conhecido como “rádio definido por software”. Como sugere o nome, em vez de fazer uso de pilhas e pilhas de hardware, esse processo permite o gerenciamento de uma rede móvel por meio de softwares. O kit agora é acessível a entidades como a Rhizomatica, uma operadora sem fins lucrativos sediada na capital Oaxaca. Seu fundador, Peter Bloom, instala o equipamento com o auxílio de um grupo numeroso de engenheiros italianos, espanhóis e de outras nacionalidades.

Isso só tem sido possível porque a Constituição mexicana garante às estações de rádio das comunidades indígenas o acesso a radiofrequência em lugares não atendidos pelos detentores de concessões de âmbito nacional. A Rhizomatica se associou a um advogado para convencer as autoridades de que o princípio também se aplica à telefonia celular. “A comunicação é um direito humano fundamental”, diz Bloom. Ainda no primeiro semestre de 2014, o órgão regulador das telecomunicações no México concedeu à Rhizomatica uma licença para atuar na região por dois anos, em caráter experimental, sem fins lucrativos. Também contribuiu para viabilizar a iniciativa o fato de que há muito tempo, nessa área do Estado de Oaxaca, o que vale são os assim chamados “costumes indígenas”, entre os quais se incluem o uso comunitário da terra e do trabalho.

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As redes implantadas pela Rhizomatica na área vêm se multiplicando e isso faz com que as comunidades comecem a enfrentar algumas das dificuldades com que operações de maior porte costumam se defrontar, como a de permitir que alguém de determinada rede local possa usar seu celular em outras comunidades próximas. As redes da região não utilizam cartões SIM para identificar seus usuários; basta registrar o aparelho com o administrador da rede. Ao se deslocar entre duas comunidades, o usuário utiliza suas respectivas redes de forma automática e, ainda que isso atualmente não seja cobrado, tarifas de roaming podem vir a ser introduzidas.

Em dezembro, a agência reguladora mexicana divulgou a intenção de reservar parte da radiofrequência para utilização indígena e comunitária, sob licenças sem fins lucrativos, com duração de 15 anos. Isso deve estimular um número maior de comunidades a criar os próprios serviços de redes móveis. Entretanto, a exigência de que os serviços sejam prestados por entidades sem fins lucrativos pode afugentar investidores de fora dessas comunidades, e, assim, impedir que tais empreendimentos ganhem escala.

Em alguns países, as redes móveis comunitárias estabelecem parcerias com grandes operadoras, que auferem lucros de seus serviços. Em 2013, a americana Endaga, uma empresa surgida na Universidade da Califórnia (Berkeley), instalou uma rede desse tipo na Indonésia. No México, uma associação como essa provavelmente dependeria de mudanças nas regras em vigor. Como costuma acontecer, também nesse caso, a tecnologia é mais ágil que os agentes reguladores.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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