Redes varejistas fazem guerra de liquidações para queimar estoques

Vendas de Natal abaixo do esperado, principalmente nos eletroeletrônicos, são o combustivel para promoções

Alberto Komatsu, O Estadao de S.Paulo

10 de janeiro de 2009 | 00h00

O desempenho de vendas no varejo abaixo da expectativa no Natal, principalmente de produtos eletroeletrônicos, vem provocando um aumento da competição entre as redes varejistas. Nos shopping centers, por exemplo, as vendas de eletroeletrônicos cresceram 3% no período natalino, o pior desempenho dos últimos cinco anos e três vezes abaixo da estimativa inicial de até 9% feita pela associação nacional do setor, a Alshop. O presidente da Fundação Instituto de Administração (FIA), Claudio Felisoni, afirma não ver um movimento tão agressivo de liquidações pelo menos desde meados de 1995, quando houve uma euforia do consumidor após a implementação do Plano Real. Mas, desta vez, ele ressalta que o motivo do acirramento da competição entre as redes de varejo, especialmente nos produtos eletroeletrônicos, foi o fraco desempenho do Natal, que aumentou os estoques."Existe um comportamento natural de algumas pessoas que adiam as compras de Natal e aguardam as promoções. Num ambiente de crise, isso tende a se ampliar, porque elas acham que os preços vão cair ainda mais", diz Felisoni. Ele afirma, ainda, que há chances de a estimativa da Alshop de crescimento de 3% das vendas de eletroeletrônicos no Natal de 2008 ter sido inverso, ou seja, de ter havido, na verdade, um recuo de 3%.Adiar as compras de Natal para esperar um preço mais em conta nas liquidações do início deste ano foi o que fez o arquiteto Renato Amaral, de 46 anos. Ele queria comprar um aparelho de televisão com tela de LCD no Natal. No entanto, decidiu se informar melhor sobre as características técnicas do produto. "Não tenho pressa nenhuma. Também decidi esperar um pouco mais para ver se o preço baixava um pouco mais", diz.Ontem, duas grandes redes nacionais, Magazine Luiza e Ponto Frio, promoveram liquidações onde os descontos chegavam a 70%. A liquidação do Magazine Luiza se encerrou ontem mesmo, e a do Ponto Frio termina hoje.De acordo com um levantamento preliminar do Magazine Luiza, os resultados da liquidação apresentaram um crescimento de 30% sobre 2008. "Nossa expectativa era vender R$ 70 milhões, mas acho que chegaremos a R$ 80 milhões", disse o diretor de marketing e vendas da rede, Frederico Trajano. Segundo ele, os resultados da liquidação podem equilibrar a desaceleração de vendas registrada em novembro e dezembro, quando o crescimento no conceito mesmas lojas ficou entre 3% e 4%, ante uma evolução na casa de 15% observada entre janeiro e outubro. Segundo o diretor comercial do Ponto Frio, Marcos Vignal, a crise levou a uma mudança no perfil do consumidor. Até setembro, diz, um dos pontos fortes da empresa era a venda de TVs de LCD e plasma com mais de 40 polegadas. Depois do clima de desconfiança, o executivo diz que caíram as vendas de telas de 50 polegadas, por exemplo. E os aparelhos com 32 polegadas começaram a ter mais saída. A empresa não informa números de desempenho."Claro que, quando se sai de um evento de Natal, fica-se às vezes com um estoque um pouco mais alto. E, sem dúvida alguma, aí sim a gente aproveita, em algumas categorias que sobraram um pouco mais, o movimento da loja para abaixar os estoques", afirma Vignal. Segundo ele, as TVs de telas maiores e os computadores de mesa foram alguns dos itens que mais sobraram no Natal.O fundador e dono da rede mineira Ricardo Eletro, Ricardo Nunes, no entanto, diz não ter sentido os efeitos da crise. De acordo com ele, as vendas de eletroeletrônicos neste Natal cresceram 5% no critério mesmas lojas. Se for levado em conta as que foram inauguradas, ele estima até 38% de aumento. "Diante do cenário, eu diria que foi um desempenho ótimo", diz.A Federação do Comércio de São Paulo fez um levantamento entre 90 lojas do Estado e estima um crescimento de 5% nas vendas do Natal de 2008. O economista da entidade, Altamiro Carvalho, lembra que não estão incluídos os varejos de automóveis e materiais de construção, mais afetados pela crise, além dos supermercados. Por isso, ele acredita que o desempenho do comércio paulista, no total, tenha sido inferior aos 5%.

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