Werther Santana/ Estadão
Werther Santana/ Estadão

'Redução da Selic foi um pouco além do necessário', diz ex-diretor do BC

Julio Senna também alerta para a manutenção de desequilíbrios fiscais 'importantes' e diz que nova redução dos juros seria 'imprudente'

Entrevista com

José Julio Senna, economista do Ibre e ex-diretor do Banco Central

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2020 | 05h00

Para o chefe do Centro de Estudos Monetários do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) e ex-diretor do Banco Central, José Julio Senna, o BC foi “um pouco além do necessário” ao colocar a Selic em 2% ao ano na última quarta-feira, 9.

O economista também alerta para a manutenção de desequilíbrios fiscais “importantes” e diz que, reduzir ainda mais os juros no atual momento da economia do País seria "imprudente". A seguir, trechos da entrevista ao Estadão

Os juros, mantidos em 2% ao ano, estão no patamar correto? 

Apesar de o Banco Central estar fazendo um bom trabalho, é possível que tenha reduzido a Selic um pouco além do necessário. O Brasil ainda apresenta desequilíbrios fiscais significativos, a situação é de instabilidade e talvez tivesse sido mais adequado não ir tão longe. Nada muito diferente dos atuais 2% ao ano, mas talvez devesse ter parado em 2,5% ou 3%, o que sinalizaria uma preocupação maior com o desequilíbrio fiscal, e a curva de juros não tivesse ficado como ficou. Evidentemente, reduzir mais os juros seria imprudente.

O BC ainda não sinaliza um novo ciclo de alta dos juros?

Quando há razão para mudar o rumo da política monetária, a primeira coisa a ser feita é alterar o forward guidance (prescrição futura, na expressão em inglês). Mudar a Selic só será considerado depois. E o fator determinante será o receituário básico do regime de metas de inflação, que deve ser entendido como um regime de metas para as projeções de inflação. E, de concreto, não aconteceu nada na área fiscal ainda.

Não está dado que será preciso novo ciclo de alta de juros?

Muita gente raciocina da seguinte maneira: vamos reduzir os juros e, se passar do ponto, a gente aumenta. Esse raciocínio é inadequado, pois reduzir juros é sempre muito mais simples do que elevar juros. O aumento esgarça o tecido, gera perdas e expectativas adversas, porque nunca se sabe onde a alta de juros vai parar. Nos Estados Unidos, por exemplo, na virada de 2018 para 2019, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) tinha elevado bastante os juros e muitos esperavam que faria mais três aumentos. Só serviu para formar expectativas. Subir juros alimenta a impressão de que o processo de alta terá continuidade. Não está dado que a Selic vai entrar em um ciclo de altas.

O que deve determinar a revisão da política de juros?

A direção do ajuste fiscal e os efeitos sobre o câmbio serão determinantes para o futuro da Selic. Depois do recesso do Congresso, todos ficarão preocupados com a questão fiscal, a contenção das despesas obrigatórias. O mercado vai ficar de olho nisso.

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