André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Redução de combustíveis impulsiona apostas de corte maior da taxa de juros

Ainda que o alívio na inflação seja pequeno com o anúncio da Petrobrás, cresceu a fatia de investidores que acredita em corte de 0,50 ponto porcentual da Selic na próxima semana

Reuters

14 de outubro de 2016 | 15h19

A redução no preço da gasolina e do diesel anunciada pela Petrobrás deve representar um alívio extra para a inflação, ainda que de pequena magnitude, aumentando o conforto para o Banco Central reduzir a taxa básica de juros e dando força às apostas no mercado de um corte maior na próxima semana.

Ao diminuir o preço do diesel em 2,7% e da gasolina em 3,2% nas refinarias nesta sexta-feira, a Petrobrás estimou que se o reajuste for totalmente repassado para a bomba o impacto será de aproximadamente R$ 0,05 para os consumidores nos dois casos.

Os investidores já vinham esperando um corte na Selic na reunião da próxima semana do Banco Central diante do alívio na inflação, só que com apostas majoritárias de que seria de 0,25 ponto porcentual. Mas após o anúncio da estatal, a curva de juros passou a indicar praticamente um empate entre as apostas de uma tesourada de 0,25 ponto e uma de 0,50 ponto porcentual.  Ontem, a possibilidade de corte em 0,50 ponto estava abaixo dos 30%.

O diretor de pesquisa econômica do Goldman Sachs, Alberto Ramos, calculou em nota que, dependendo do repasse, a redução de preços pela Petrobrás poderá diminuir o IPCA acumulado do ano em 0,10 ponto porcentual.

"Este é um desenrolar positivo e deve dar ao Banco Central ainda mais conforto para começar a afrouxar a política monetária na próxima semana. Se os preços dos combustíveis continuarem a cair nos próximos meses, o BC terá espaço extra para cortar a Selic de forma mais agressiva em 2017", disse.

Em setembro, a inflação oficial brasileira já havia desacelerado com força, acumulando em 12 meses alta de 8,48 por cento, em um cenário favorável para que o BC iniciasse a redução dos juros agora.

Nas contas da economista-chefe da CM Capital Markets, Camila Abdelmalack, as mudanças anunciadas pela Petrobrás têm um impacto de descompressão na inflação de 0,06 ponto porcentual no ano, sem levar em conta efeitos secundários como a queda do etanol.

Iniciativa positiva. Ela admitiu que isso pode dar gás às mudanças de expectativas quanto a um corte mais forte na Selic na próxima reunião, de 0,5 ao invés de 0,25 ponto porcentual. Mas ponderou que a despeito da investida da Petrobrás, o ciclo de queda já estava dado para a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), na terça e quarta-feiras.

"Lógico que redução dos preços sempre é notícia positiva para o cenário que a gente vive, mas temos que ter consciência que não é a solução dos problemas", disse ela.

A economista-chefe da ARX Investimentos, Solange Srour, segue com expectativa de redução de 0,5 ponto porcentual na taxa básica de juros semana que vem, mas principalmente pela evolução recente no campo fiscal, com aprovação em primeiro turno na Câmara dos Deputados da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que freia o avanço dos gastos públicos.

Depois de a Petrobrás também ter divulgado nesta sexta-feira a implantação de uma nova política de preços de gasolina e diesel, com revisão dos valores praticados pelo menos uma vez por mês, Solange saudou a iniciativa como positiva para a condução da política monetária, ainda que isso implique maior oscilação para os derivados, que ficarão mais sujeitos à variação do real frente ao dólar e aos preços internacionais do petróleo.

"Previsibilidade e transparência é positivo pra queda de juros reais, independentemente se no curto prazo vai haver aumento ou queda de preços (da gasolina e do diesel)", afirmou Solange. Depois de a Petrobrás ter anunciado os critérios que levará em conta para uma eventual revisão, ela apontou que certamente o BC irá incorporar isso em seus modelos para "não ser pego de surpresa".

Ex-diretor do BC, o chefe da divisão econômica da Confederação Nacional do Comércio, Carlos Thadeu de Freitas, concordou que a autoridade monetária ficará mais à mercê dos desenvolvimentos no cenário externo em relação aos combustíveis - e seu consequente impacto para a inflação -, mas avaliou que o ambiente internacional está "razoavelmente precificado por algum tempo", e só deve sofrer uma mudança drástica no caso de uma alta inesperada nos juros norte-americanos.

"A primeira interpretação é que com essa queda no preço da gasolina e com o fato de que o dólar está caindo em relação ao real o espaço pra cortar a taxa de juros aumentou mais. Nada seria surpreendente se o corte agora for de 0,5 ponto", disse.

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