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Redução de danos

Bons resultados do setor externo não são suficientes para reverter a recessão

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2015 | 05h00

Se uma coisa é certa no mar de incertezas em que se encontra a economia brasileira, essa é a reversão positiva das contas externas. O saldo da balança comercial, do início do ano até outubro, chegou a US$ 12 bilhões e as perspectivas para o ano são de um superávit na casa dos US$ 20 bilhões. Mais forte ainda é o impulso projetado para 2016, quando as estimativas apontam saldo positivo nas alturas de US$ 40 bilhões. Um montante, caso se confirme – há possibilidade, na verdade, de que venha a ser superado –, que rivaliza com os obtidos no auge do boom das commodities, em meados dos anos 2000.

O déficit em transações correntes, que passou de US$ 100 bilhões em 2014, o equivalente a quase 4,5% do PIB, deve recuar para cerca de US$ 60 bilhões em 2015 (3,7% do PIB) e mais ainda, para algo em torno de US$ 50 bilhões (pouco mais de 2% do PIB), em 2016. Já neste ano e no próximo, pelas projeções atuais, o déficit externo corrente voltaria a ser inteiramente financiado pelo ingresso de investimentos estrangeiros diretos. Em ambiente tão volátil, com perspectivas cada vez mais próximas do início da normalização da política monetária nos EUA, os resultados das contas externas brasileiras são auspiciosos.

Além de tirar do horizonte riscos iminentes de insolvência externa – uma diferença fundamental em relação às crises das últimas duas décadas –, os números externos contribuirão para evitar o agravamento da situação econômica nessa hora crucial de mudanças na política de juros nos EUA. Embora já esteja devidamente precificada e prometa se dar de forma gradual, a retomada da alta dos juros nos EUA, agora prevista para dezembro, produzirá, no curto prazo, uma inevitável chacoalhada nos mercados de ativos, em especial no de moedas, ao redor do mundo, mas as consequências para o Brasil tendem a ser administráveis.

Parte ponderável das previsíveis instabilidades cambiais desse período de reacomodação global, no Brasil, terá origem na evolução da crise política e nas movimentações especulativas características do mercado de câmbio futuro. O mesmo se pode dizer da marcha do CDS brasileiro –, papel que expressa o assim chamado “seguro contra calotes”–, cujas cotações hoje em dia oscilam mais em razão dos problemas fiscais e políticos internos do que por escassez de divisas internacionais.

A recuperação das contas externas, contudo, não deve ser vista como a panaceia da crise econômica. Para começar, se os resultados são positivos, os motivos que os explicam estão longe disso. O salto do saldo comercial se deve à combinação de recessão profunda com forte desvalorização cambial. A formação de um poderoso superávit ocorre em quadro de redução do fluxo geral de comércio com o exterior e reflete o simples fato de que o recuo das importações tem sido mais acelerado do que a queda nas exportações. Nem de longe o fenômeno tem a ver com melhora estrutural de produtividade e de competitividade.

Depois, se os bons resultados do setor externo podem colaborar para estimular a atividade neste ou naquele segmento, a desvalorização do real ante o dólar, que ajudou a produzir esses resultados, também acaba por contribuir para aumentar os custos de produção, principalmente naqueles setores muito dependentes de importações ou endividados em moeda estrangeira. Tudo considerado, a virada nas contas externas se dará mais no sentido de evitar contrações maiores do nível de atividades do que na impulsão do crescimento.

Tanto ou mais do que a queda do consumo (das famílias e do governo), a peculiaridade do atual ciclo recessivo reside na longa e pronunciada retração dos investimentos. Com essas forças puxando a economia para baixo, o PIB poderia mergulhar mais de 5% em 2015. Cairá “apenas” nas vizinhanças de 3% graças à redução de danos promovida pelos recursos líquidos gerados com o encolhimento dos déficits externos.

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