Gabriela Bilo/Estadão
Gabriela Bilo/Estadão

‘Redução pode ser pequena, mas vale a pena'

Consumidor pode ter benefício com medida, que ainda é desconhecida entre muitos lojistas

O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2017 | 05h00

Há tempos a dona de casa Isabel Beck, de 57 anos, só anda com alguns trocados na carteira. Paga tudo com cartão, até por questões de segurança. Mas na última quarta-feira, Isabel deixou um vestido reservado numa loja de confecções plus size da rua Teodoro Sampaio, na capital paulista, e correu no banco para sacar dinheiro e quitar a compra. É que a lojista lhe ofereceu um desconto de cerca de 5%, se o pagamento fosse em dinheiro.

O vestido custava R$ 69, mas saiu por R$ 65. Para Isabel, o desconto de R$ 4, que pode parecer pouco, valeu a pena. “Não é que eu vá guardar esse dinheiro, mas posso usá-lo para comprar outra coisa, como dois litros de leite, o pão da semana, uma fruta na feira”, calcula.

Isabel é um dos consumidores que conseguiram sentir, na prática, os efeitos da medida provisória (MP) que entrou em vigor no dia 27 de dezembro e que autoriza o comerciante dar desconto para pagamento à vista em dinheiro. Antes, o lojista que colocasse preços diferentes da mesma mercadoria, dependendo da forma de pagamento – dinheiro ou cartão de crédito – estava infringindo a lei. A MP faz parte do pacote de medidas do governo para dar um empurrão na economia, especialmente no consumo, que está em baixa.

Para os pequenos lojistas, principalmente, a legalização de uma medida que já era bastante disseminada trouxe um alívio. “A lei é boa, porque acaba com o constrangimento que tínhamos de oferecer algo que não era regulamentado”, diz o empresário Almir Anacleto de Almeida, que há mais de 30 anos é dono da loja Fumanchu, em Brasília, onde vende cofres, cadeados, chaves e equipamentos de segurança. “Eu acho que, agora, vai aumentar nossa capacidade de negociação, porque a lei dá liberdade para fazermos uma oferta mais transparente para o consumidor.”

Na loja Só Courus, em São Paulo, especializada em bolsas, o desconto de 5% no pagamento em dinheiro é anunciado num cartaz no caixa desde o início deste mês, mas a prática começou em dezembro. A gerente da loja Erivalda de Souza Rodrigues disse que o abatimento não trouxe mais clientes, mas fez vários mudarem a forma de pagamento.

Para um grande número de lojistas, porém, a nova regulamentação é uma ilustre desconhecida. Com 36 anos de experiência como vendedor na Saara, centro de comércio popular do Rio de Janeiro, o gerente da loja de brinquedos Big Festas, Manuel Armando, disse desconhecer a medida provisória. “Sempre trabalhei assim. Damos desconto no dinheiro, às vezes no débito e nunca no cartão”, disse.

Outros comerciantes ainda veem a medida com uma certa desconfiança. Gerente da loja de artigos de festas e fantasias Buenas Festas, também na Saara, Alexandre Santos teme que os clientes fiquem desconfiados, sem saber se terão uma vantagem ao pagar em espécie ou se os lojistas cobrarão mais caro na venda pelo cartão. “Nossa política sempre foi dar desconto de 5% a 10% no dinheiro. Não vejo ninguém aqui na Saara explorando a mudança da lei”, disse. Mesmo com o abatimento em espécie, 70% dos clientes da loja optam pelo cartão.

O desconhecimento da possibilidade do desconto no pagamento em dinheiro ainda é grande também entre os consumidores. Mas, para João Adriane, gerente da Sapataria Amigão, em Belo Horizonte, com a divulgação da MP pelos meios de comunicação, a tendência é que as pessoas passem a cobrar mais o desconto que já é dado. “O conhecimento público, acredito, vai ajudar nisso. Temos de esperar um pouco mais para ver”, disse.

Para quem ainda não aderiu à prática de descontos, os argumentos são os mais variados. Há lojistas que alegam que o preço da sua mercadoria já é baixo e o desconto não faria sentido. Outros dizem que dão abatimento quando o cliente pede e o valor da venda é significativo. Nas grandes redes, há a questão dos acordos fechados com financeiras, que poderiam inviabilizar o incentivo ao pagamento à vista.

Rafael Jorge, dono da loja de artigos religiosos Origem da Fé, em São Paulo, disse que o valor médio da compra na sua loja já é baixo (R$ 31), o que, para ele, inviabiliza o desconto. “Além disso, com o pagamento no cartão, não preciso dar troco”, disse, destacando que hoje a falta de troco é um problema.

Há também até questões de segurança: em Florianópolis, nas duas principais ruas de comércio, as lojas de maior porte disseram não se mostrar interessadas em dar descontos para quem paga à vista por temerem aumento de assaltos. /ANDRÉ BORGES, MARIANA DURÃO, LEONARDO AUGUSTO, ALINE TORRES E CARMEN POMPEU

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